O que torna o problema das armas químicas da Síria tão difícil de resolver

Max Fisher

  • Ammar Abdullah/Reuters

    Homens observam os escombros de um posto médico bombardeado em Khan Sheikhoun após o ataque químico

    Homens observam os escombros de um posto médico bombardeado em Khan Sheikhoun após o ataque químico

O governo Trump espera que seus ataques com mísseis de cruzeiro resolvam um problema que desafia esforços há anos: a intenção do líder

Em uma guerra com muitos dilemas, porém, este talvez seja um dos mais intratáveis, segundo analistas.

Ele é motivado pela estratégia implacável de Assad e as limitações do poderio americano, mas também por algo mais profundo: a natureza fundamental do conflito sírio e dos armamentos químicos.

Abaixo, algumas das forças que levaram Assad a optar pelo uso de armas químicas na Síria e por que elas são tão resistentes.

A falta de força humana na Síria

Assad conta com ataques aéreos, apoiados por forças aliadas russas, que o ajudaram a inverter a maré da guerra. Mas sua maior fraqueza é a força humana: suas forças terrestres, desgastadas por anos de combate, são simplesmente muito reduzidas para manter todas as linhas de frente, quanto menos para avançar.

Aaron Stein, que estuda o Oriente Médio e o controle de armas no Conselho Atlântico, um grupo de pesquisadores, disse que para um líder como Assad, que parece não se importar com a morte de civis, as armas químicas apresentam uma maneira de resolver seus problemas no campo de batalha.

"São armas eficazes", disse Stein, que eram mais adequadas para capitalizar a superioridade do poder aéreo de Assad e compensar sua falta de poder humano.

O ataque com armas químicas na semana passada, na província de Idlib, no noroeste da Síria, ilustrou a terrível utilidade dessas armas. Os rebeldes estavam avançando lá, ameaçando o domínio de Assad.

Incapazes de retomar o território facilmente com armas convencionais, as forças sírias parecem ter usado armas químicas sobre e por trás das linhas de frente, ao mesmo tempo detendo o avanço da oposição enquanto devastavam suas linhas de abastecimento e áreas de batalha. Também forçou os rebeldes para áreas concentradas, onde eles poderiam ser mortos em grande número.

Na semana passada e em 2013, as armas químicas parecem ter lidado com um problema de batalha desesperado de Assad. Como nenhum outro instrumento pode resolver esse problema de modo tão confiável, seu cálculo mostrou-se difícil de modificar.

Controlar a população

As guerras, em última instância, não são vencidas apenas no campo de batalha, mas também com a fidelidade da população, cujo apoio é crucial para manter a luta e controlar o território.

Esta foi uma luta central para Assad, que enfrenta um problema aparentemente insolúvel criado por ele mesmo. Depois de anos de atrocidades contra civis, especialmente aqueles em áreas estrategicamente cruciais, como Idlib, grande parte da população tem poucos motivos para apoiar seu governo.

Incapaz de conquistar o apoio popular, ele adotou uma estratégia semelhante à do Estado Islâmico: aterrorizar tanto os civis que eles desistam de apoiar grupos de oposição que se mostraram incapazes de protegê-los.

Nessa corrida de atrocidades, as armas químicas têm um poder psicológico que supera em muito os meios convencionais de matança em massa, como as bombas de fragmentos. Um estudo médico publicado em 2006 revelou que iranianos que sobreviveram aos ataques de armas químicas sofreram estresse pós-traumático por toda a vida, cuja gravidade superava até mesmo a causada pelo combate na linha de frente.

Dessa forma, as armas químicas servem a uma função política semelhante à de seu papel no campo de batalha: negar a vitória à oposição.

O problema da remoção

Mesmo as armas químicas sofisticadas são relativamente fáceis de esconder e transportar de forma clandestina. Inspeções ou outros meios de monitoramento podem localizar instalações para produção em grande escala, mas não podem examinar cada paiol ou buraco no chão.

Isso significa que até os líderes que dizem que entregaram suas armas químicas --como fez Assad em 2013-- podem esconder pequenas quantidades sem medo de ser descobertos. Muammar Gadhafi, o ex-líder líbio, apesar de um acordo semelhante, escondeu armas químicas por todo o país.

O mesmo fez Saddam Hussein, o ex-dirigente iraquiano. Tropas americanas que descobriram os esconderijos décadas depois disseram que as armas, embora mal armazenadas, ainda eram mortíferas.

Para líderes como Assad, que teme com razão levantes armados (como ocorreu com Gadhafi ou Saddam), o lado positivo percebido de se manter um arsenal secreto de emergência excede em muito os potenciais custos.

Uma pequena reserva não tem a mesma utilidade que um arsenal completo, enfatizam os analistas. Assad, ao entregar a maior parte de seu arsenal e da produção, perdeu para sempre a capacidade de utilizá-los de modo extenso em uma guerra em grande escala, por exemplo contra Israel.

Mas é funcionalmente impossível remover cada recipiente sem talvez resolver os motivos subjacentes de um líder para desejar essas armas, o que significa que Assad provavelmente manterá para sempre a capacidade de lançar ataques pequenos e esporádicos como o da semana passada.

O problema da alavancagem

Ao impedir os ataques químicos na Síria, o mundo enfrenta uma severa versão de um problema que enfrenta de maneira mais ampla lá: a falta de alavancagem.

Em qualquer tentativa de se alterar os cálculos de um governo, o desafio crucial é impor custos que superam os benefícios que o governo obtém com seu comportamento.

Se Assad considera as armas químicas importantes para seu campo de batalha e para as estratégias políticas, então um dissuasor eficaz deve modificar ambos.

Assad é ajudado por forças russas que estão tão integradas à guerra que qualquer ataque com danos profundos correria o risco de matar russos, potencialmente criando um conflito maior entre as potências nucleares. A Rússia também protege Assad diplomaticamente.

Mas até Moscou demonstrou que, como toda grande potência que tenta controlar um aliado menor, tem uma influência limitada sobre seu agente. E a Rússia não é o único patrocinador de Assad. Ele também conta com forte apoio do Irã.

Os objetivos iranianos e russos na guerra diferem de maneiras que reduzem a influência de cada um e poderiam permitir o uso de armas químicas, independentemente de esses governos desejarem tal resultado.

O objetivo de Moscou parece ser preservar o governo de Assad --uma estratégia que poderá em última instância exigir um acordo político, que se torna mais difícil de alcançar quando os ataques químicos galvanizam o mundo contra Assad. Teerã, enquanto isso, parece estar pressionando por uma vitória total contra os rebeldes, o que significa aprovar o uso de armas químicas.

Essas alianças cruzadas dão a Assad um incentivo para usar armas químicas enquanto enfraquece a capacidade de seu patrocinador restringi-lo.

Uma norma enfraquecida

A norma internacional contra as armas químicas "nunca realmente entrou em vigor no Oriente Médio", disse Stein.

Os governo da região se destacam não apenas por estocar, mas também usar armas químicas, embora não contra Israel ou forças externas.

O Egito usou armas químicas no Iêmen na década de 1960, quando interveio na guerra civil desse país. O Iraque as usou internamente e contra o Irã, ambas as vezes na década de 1980. O governo do Chade acusou as forças líbias de usarem armas químicas durante sua guerra nos anos 1980, embora essa afirmação continue polêmica.

A política das grandes potências teve um papel importante: a União Soviética ajudou a formar o programa de armas químicas do Egito e tolerou seu uso no Iêmen; os EUA toleraram o uso pelo Iraque dessas armas contra o Irã, seu inimigo mútuo.

O programa nuclear de Israel também criou um desequilíbrio estratégico na região. As armas químicas dão aos países árabes um meio de dissuasão passável, que a comunidade internacional parece ter tolerado como meio de restaurar esse equilíbrio.

A norma sem validade reforça o uso de armas químicas por Assad por dois motivos. Primeiro, seus comandantes enfrentam um tabu menor ao utilizá-las, e portanto têm menor probabilidade de objetar a elas. E segundo, Assad tem pouca vantagem em manter uma norma que nunca funcionou em seu benefício.

Os Estados respeitam normas não apenas por medo da punição externa, mas também por esperança de que a norma restrinja os potenciais adversários. Mas Assad tem poucos motivos para esperar que outros países ou atores árabes respeitem uma norma que, para eles, mal existe.

Tudo ou nada

Ao desferir uma guerra total contra rebeldes e sua própria população, Assad se reforçou em um conflito tudo ou nada.

Mesmo que as armas químicas só tenham um papel secundário em suas estratégias políticas e bélicas, ele enfrenta margens muito estreitas e apostas muito altas para abandoná-las sem uma mudança fundamental.

Uma ação mais limitada, como os esforços de desarmamento do governo Obama ou os ataques de mísseis de Trump, poderia significar que "em curto prazo, Bashar pensará duas vezes antes de usar armas químicas", disse Stein.

Em prazo mais longo, é improvável que tais medidas "modifiquem a dinâmica do conflito" que conduz ao uso de armas químicas.

Um ataque de mísseis, acrescentou Stein, pode "fazer todo mundo se sentir melhor, mas em última instância não muda o status quo". Assim como em iniciativas anteriores, a menos que algo possa mudar essas dinâmicas mais profundas, disse ele, "nós apenas chutamos a lata pela rua".

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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