Turquia vive em caos desde expurgo de dissidentes

Patrick Kingsley

Em Istambul (Turquia)

  • Adem Altan/AFP

    Acadêmicos e estudantes protestam contra a demissão de professores de universidades após tentativa de golpe, na Universidade de Ancara (Turquia)

    Acadêmicos e estudantes protestam contra a demissão de professores de universidades após tentativa de golpe, na Universidade de Ancara (Turquia)

Quando Aynur Barkin se tornou uma dos cerca de 40 mil professores expurgados do sistema de educação da Turquia após a tentativa de golpe do ano passado contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, ela não foi imediatamente substituída. Como resultado, seus alunos da segunda série foram forçados a se juntar aos alunos da terceira série, triplicando o tamanho da classe original.

"Eu podia dar atenção a cada um deles individualmente", disse Barkin, 37 anos, que foi demitida em fevereiro de uma escola no oeste de Istambul. "Mas a nova professora deles não consegue fazer isso."

Esse é um exemplo da perturbação administrativa e caos causados pelo vasto expurgo pelo governo das instituições turcas desde o golpe fracassado de julho, o pano de fundo para um referendo no domingo para ampliação dos poderes do presidente.

O governo de Erdogan tem buscado eliminar qualquer dissidência remanescente visando quase todos os segmentos da sociedade. Ele também tem usado o expurgo como acobertamento para uma repressão a dissidentes de todo tipo, incluindo esquerdistas como Barkin.

Os números são extraordinários. O governo demitiu ou suspendeu cerca de 130 mil pessoas suspeitas de serem dissidentes nos setores público e privado. A maioria é acusada de afiliação ao movimento Gulen, os seguidores islâmicos de Fethullah Gulen, o clérigo acusado de orquestrar o golpe.

Mais de 8.000 oficiais do Exército, 8.000 policiais, 5.000 acadêmicos e 4.000 juízes e promotores foram forçados a deixar suas posições, segundo estimativas.

O custo social é significativo. Monitores dizem que cerca de 1.200 escolas, 500 hospitais e 15 universidades foram fechados. Os estudantes afetados geralmente conseguem encontrar vagas em escolas públicas locais, mas seus pais expurgados costumam permanecer excluídos do mercado de trabalho.

A Turquia se transformou em "uma espécie de prisão a céu aberto", disse Sezgin Yurdakul, 40 anos, que foi demitido do sistema de balsas de Istambul porque sua filha cursava com bolsa de estudos uma escola administrada pelo Gulen.

O nome de Yardakul está em uma lista negra em um banco de dados nacional, de modo que nenhum empregador ousa lhe dar um novo emprego. Ele, assim como milhares de outros funcionários públicos expurgados, está vivendo de suas economias.

O vácuo deixado por pessoas como Yardakul leva muitos turcos a questionarem que indivíduos estão autorizados a preencher as vagas e quais facções se beneficiaram, se é que alguma se beneficiou.

Os aliados de Erdogan argumentam que vários grupos preencheram as vagas. Mas alguns alegam que as vagas foram em grande parte ocupadas por outras ordens islâmicas, ou seguidores leais do Partido Justiça e Desenvolvimento, conhecido como AKP, do presidente.

"Grupos do próprio AKP estão preenchendo as vagas", disse Kemal Kilicdaroglu, líder do maior partido de oposição. "Eles querem estabelecer uma estrutura burocrática que aceite qualquer coisa que os políticos digam."

Mustafa Karadag, o chefe do sindicato dos juízes, diz que as lacunas no Judiciário costumam ser preenchidas por novatos que podem fornecer cartas de referência de um sindicato legal com elos com o AKP.

"Isso permite acesso às posições de juiz e promotor para pessoas que não foram bem nos concursos, mas que têm um relacionamento estreito com o governo, ou que contam com referências deste", disse Karadag.

O governo nega. Ibrahim Kalin, o porta-voz oficial da presidência, disse em uma recente coletiva com repórteres que os afastados foram "substituídos por pessoas comuns", que passaram por "exames abertos e bem transparentes".

Mas até mesmo alguns dos críticos do presidente dizem que a situação é tão caótica e os expurgos amplos demais para que apenas uma facção possa se beneficiar. Para preencher os buracos na burocracia e na esfera política, dizem alguns, Erdogan teve que contar com nacionalistas de direita, nacionalistas de extrema-esquerda, novatos e aposentados, assim como pessoas leais ao partido e islamitas.

"A percepção entre os turcos é que Erdogan manda em tudo, mas não é o caso", disse Orhan Gazi Ertekin, um juiz que chefia a Associação Judicial Democrática, um grupo de monitoramento legal liberal. "Há vários grupos, todos diferentes uns dos outros, que antes tramavam uns contra os outros, mas agora são aliados" contra os gulenistas.

O exemplo mais notável pode ser o de Dogu Perincek, o líder do minúsculo e arquilaico Partido Patriótico. Ele foi preso por tramar a derrubada de Erdogan antes de sua condenação ser anulada em 2014.

Ao ser solto, Perincek prometeu "demolir" o governo Erdogan, que ele acusa de minar o sistema laico da Turquia. Mas em uma recente entrevista, Perincek aprovou algumas das políticas recentes de Erdogan.

"Não há motivo para brigarmos. Estamos lado a lado. Eles agora estão seguindo nosso programa", ele disse, referindo-se ao governo de Erdogan.

Erdogan também conta com o apoio improvável do Partido do Movimento Nacionalista, também conhecido como MHP, um grupo nacionalista de extrema-direita cujos votos lhe ajudaram a garantir apoio parlamentar para o referendo.

Em troca, membros importantes do MHP disseram de forma privada, eles esperam pastas ministeriais após o referendo. Se conseguirem o que desejam, isso representaria uma reviravolta para um partido cujo líder já chamou Erdogan de um "desastre político".

Nas forças armadas, o afastamento de milhares de oficiais não levou a um vitorioso ideológico óbvio. Erdogan causou espanto com a nomeação no final de agosto de Adnan Tanriverdi, um ex-general de uma estrela, como seu novo conselheiro militar.

Tanriverdi foi expulso do Exército em 1996 por preocupações com sua religiosidade. De lá para cá ele passou a dirigir um grupo de outros soldados afastados por motivos semelhantes no final dos anos 90, conhecido como Associação dos Defensores da Justiça.

Sua nomeação como conselheiro de Erdogan provocou alegações de que o presidente alistou Tanriverdi para ajudar a colocar pessoas leais no Exército. Mas os aliados de Tanriverdi disseram que nenhum outro membro de sua associação foi nomeado para posições importantes.

Kayhan Ozer/Presidential Press Service, Pool Photo via AP
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, faz discurso a apoiadores em Antalya (Turquia)

Outros observadores concluíram que uma mistura de facções se beneficiou com o expurgo nas forças armadas. Ultranacionalistas antiamericanos, conhecidos como eurasianistas e às vezes associados a Perincek, lucraram em detrimento de oficiais pró-Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental), segundo dois especialistas militares da Universidade Sabanci, em Istambul.

"Parece por ora que os eurasianistas manterão sua influência e postos, mas não se sabe por quanto tempo", escreveram Megan Gisclon e Metin Gurcan, um ex-oficial das forças especiais turcas, em um briefing no ano passado.

Um ex-promotor militar diz que tamanha era a escala da infiltração de gulenistas disfarçados ao longo das duas últimas décadas que eles ainda são a maior facção dentro das forças armadas.

"Nas forças armadas turcas", disse Ahmet Zeki Ucok, que já liderou investigações dos gulenistas nas forças armadas, "se há um grupo que atualmente é influente, ainda são os gulenistas".

Em algumas partes do ensino superior, o vácuo não foi preenchido. Na Universidade de Ancara, metade dos 14 professores do departamento de lei de direitos humanos da universidade foi demitida e ela teve que cancelar mais da metade de seus cursos.

Não haverá admissão de novos alunos durante o próximo ano letivo. Os professores remanescentes tiveram uma triplicação do número de estudantes sob seus cuidados e eles não tem como supervisionar novos alunos.

"Como podemos escrever nossas dissertações?" perguntou Emine Ay, uma estudante de mestrado que ficou sem supervisor.

Segundo o chefe do departamento dela, Kerem Altinparmak: "Se nossos professores não forem reintegrados, este programa acabará. Estes são os últimos alunos que veremos neste programa."

Alguns se perguntam se essa não é de fato a meta: o desmonte de um dos redutos liberais do país.

No Judiciário, o número de expurgados é de um terço dos 12 mil juízes e promotores da Turquia.

"Se você expurgar 30% a 40% do Judiciário, de certo modo você o expurga todo", disse Ertekin. "Não resta mais tradição e não resta mais conhecimento."

Karadag, o chefe do sindicato dos juízes, disse que o governo tem preenchido as vagas com pessoas leais.

Alguns dizem que a situação é perigosa para Erdogan, já que o deixa vulnerável a grupos que estão além de seu controle, assim como ocorreu no passado em seu relacionamento com a rede gulenista.

"Enquanto ele depender dessas alianças", disse Ertekin, "uma nova traição também pode estar no horizonte".

Os novos aliados de Erdogan no Parlamento, o MHP, oferecem um vislumbre dessa vulnerabilidade. Apesar de a liderança do partido apoiar a ampliação dos poderes do presidente, vários legisladores do MHP não. Muitos dos filiados ultranacionalistas dos partidos também não foram convencidos.

No caso de Perincek, o líder do partido arquilaico, seu apoio a Erdogan tem um limite. Apesar de aplaudir as recentes políticas pró-Rússia e anticurdas do presidente, ele diz que o presidente minou o caráter laico do país.

De modo significativo, ele também se opõe veementemente à ampliação dos poderes de Erdogan, portanto é contrário ao referendo.

"A Turquia não carregará Tayyip Erdogan em seus ombros", disse Perincek.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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