Círculo interno de Le Pen alimenta dúvida sobre tentativa de 'dessatanizar' seu partido

Adam Nossiter

Em Paris (França)

  • Jean-Philippe Ksiazek/ AFP

    A candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, durante comício em Pierrelatte, na França

    A candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, durante comício em Pierrelatte, na França

Restando pouco mais de uma semana para a eleição presidencial francesa, Marine Le Pen permanece à frente nas pesquisas, após trabalhar arduamente para limpar a imagem de seu partido, a Frente Nacional, e distanciá-lo de associações desagradáveis com a extrema direita da Europa.

Mas descrições do funcionamento interno do partido por atuais e ex-associados próximos de Le Pen, assim como autos processuais, levantam dúvidas sobre o sucesso e sinceridade desses esforços.

Antes mesmo dos comentários de Le Pen nesta semana, negando a culpa da França em uma notória detenção de judeus na época da guerra, revelações recentes na mídia de notícias francesa, incluindo um novo livro bem documentado, ressuscitaram preocupações com as inclinações da mulher que pode vir a ser a próxima presidente da França.

Dois homens em seu círculo mais interno, Frédéric Chatillon e Axel Loustau, são ex-membros bastante conhecidos de uma violenta central estudantil de extrema direita que travava batalhas com os esquerdistas e se voltou para nostalgia de Hitler em meados dos anos 90.

Eles são associados de longa data de Le Pen, desde seus tempos na faculdade de direito nos anos 80 e permanecem entre seus amigos mais próximos, segundo numerosos relatos.

A televisão francesa exibiu recentemente um vídeo dos anos 90 de Loustau visitando um idoso que foi um proeminente membro da SS, Léon Degrelle, um combatente condecorado por Hitler e fundador do partido belga Rex, um movimento fascista pré-guerra.

Outro vídeo mostrou Chatillon falando com apreço de sua própria visita a Degrelle, que era um santo padroeiro dos jovens de extrema direita da Europa até sua morte em 1994.

Algumas pessoas na Frente Nacional negam veementemente que Chatillon e Loustau sejam antissemitas ou nostálgicos do Terceiro Reich, enquanto outros não fazem segredo de evitá-los, justamente para não se mancharem.

Mas a presença contínua deles no círculo interno de Le Pen coloca em dúvida a sinceridade da estratégia dela de "dessatanizar" seu partido e renunciar sua herança de antissemitismo profundamente enraizado, desde que ela assumiu o comando no lugar de seu pai, Jean-Marie, em 2011.

"De acordo com as evidências", disse o historiador Nicolas Lebourg, um importante especialista em Frente Nacional da Universidade de Montpellier, "ela considera isso como algo não muito importante".

Os dois homens de confiança continuam trabalhando estreitamente com a alta liderança do partido, incluindo Le Pen. Eles foram indiciados por promotores franceses em um elaborado esquema de financiamento de campanha, que tem sido crucial para manutenção da Frente Nacional à tona por anos.

Os escândalos financeiros não afetaram a posição de Le Pen nas pesquisas antes do primeiro turno em 23 de abril. Potencialmente mais danosas podem ser as recentes revelações sobre as pessoas com as quais ela se cerca, em particular Chatillon e Loustau.

"Eles continuam sendo nacional-socialistas", disse Aymeric Chauprade, antes o principal conselheiro de Le Pen em assuntos internacionais até se desentenderem, em parte devido à posição dele pró-Israel.

"Eles são antissemitas, nostálgicos do Terceiro Reich, violentamente anticapitalistas, com ódio pela democracia", ele acrescentou em uma entrevista. "As pessoas acham que eles são marginais. Mas na verdade, como descobri, ela os protege. Ela os apoia. Eles estão no coração de tudo."

Gonzalo Fuentes/Reuters
Pessoas passam por cartazes eleitorais de Marine Le Pen, da Front Nacional, e de Emanuel Macron, do En Marche!, em Paris (França)

O tesoureiro da Frente Nacional, Wallerand de Saint Just, defende os homens. "De forma alguma eles são nostálgicos do Terceiro Reich", ele disse.

"Eles foram garotos turbulentos, mas se tornaram verdadeiros profissionais", disse Saint Just. "Eles trabalham estreitamente conosco e temos confiança neles, na concepção, impressão e distribuição dos materiais de campanha."

Esse papel se encontra no centro do escândalo de financiamento de campanha que assombra a Frente Nacional há anos.

A empresa de Chatillon, a Riwal, serviu como fornecedora exclusiva de materiais de campanha para a Frente Nacional nas eleições de 2012 a 2015. Os promotores suspeitam que ela superfaturou sistematicamente cartazes, folhetos e semelhantes vendidos em "kits" de campanha, então obtendo reembolsos gigantes do Estado.

De acordo com a lei francesa, o Estado reembolsa as despesas de campanha dos candidatos que obtêm mais de 5% dos votos. Chatillon refinou o sistema a um ponto de arte, segundo uma alta autoridade francesa de financiamento de campanha e Chauprade, assim como dois novos livros que examinam meticulosamente as finanças da Frente Nacional.

A autoridade e um desses livros, "Le Procès Interdit de Marine Le Pen" (O julgamento proibido de Marine Le Pen, em tradução livre), de Laurent Fargues, descrevem como o sistema funcionava.

Uma gráfica cobrava da Riwal, digamos, 180 a 220 euros, ou cerca de R$ 600 a R$ 735, por 400 cartazes; a Riwal então cobrava de um micropartido afiliado à Frente Nacional, chamado Jeanne, 500 euros pelos cartazes. O Jeanne, por sua vez, cobrava dos candidatos o preço inflacionado.

Após a eleição, os candidatos pediam ao Estado o reembolso do valor inflacionado, e esse reembolso era repassado ao Jeanne.

Ao menos parte desse dinheiro ia parar nos cofres da Frente Nacional, segundo a autoridade francesa de financiamento de campanha, que pediu anonimato por causa da campanha presidencial em andamento.

"Eles desenvolveram uma economia a partir dos reembolsos pelo Estado", disse Chauprade, que foi entrevistado pelos promotores a respeito dos assuntos financeiros do partido.

Chauprade disse que foi pressionado pela própria Le Pen a comprar um kit, mas se recusou, para fúria dos dirigentes do partido.

O sistema funcionou em vários dos recentes ciclos eleitorais (regional, municipal e legislativo) de 2012 em diante. E a maioria dos candidatos da Frente Nacional fez uso dele, segundo a autoridade.

Assim que o órgão supervisor do governo começou a notar um padrão de valores excessivos beneficiando a Frente Nacional, ele começou a contestá-los, descobrindo mais de 1 milhão de euros em apenas uma campanha, disse a autoridade.

O tesoureiro da Frente Nacional, Saint Just, que foi indiciado por apropriação indébita no escândalo, disse: "Não acho que fizemos algo errado e acho que seremos absolvidos".

Quanto a Chauprade, "Ele é um tremendo traidor", disse Saint Just. "Ele está tentando se vingar."

Lebourg, o historiador, não tem dúvidas a respeito das recentes revelações sobre o partido, mas concordou que Chauprade "não é exatamente a Virgem Maria".

Chauprade foi eleito em 2014 como deputado pela Frente Nacional para o Parlamento Europeu. Lá, ele foi perseguido por grupos de direitos humanos por discurso de ódio, por emitir uma declaração anti-islamita após os ataques ao jornal satírico "Charlie Hebdo" em Paris, no início de 2015.

Agora de fora, ele tem se mostrado disposto a dizer em voz alta o que muitos críticos há muito suspeitavam a respeito da Frente Nacional.

"É um sistema mafioso", disse Chauprade ao jornal "Le Monde" no mês passado. "Você enfia o braço ali e fica preso."

Ele também contou para a polícia sobre um esquema da Frente Nacional de cargos falsos no Parlamento Europeu, que dá aos deputados verba para ser usada no pagamento de assessores.

O Parlamento Europeu agora está exigindo que mais de 1 milhão de euros sejam devolvidos por seis pessoas associadas ao partido, incluindo Le Pen, que também integra o Parlamento Europeu e invocou sua imunidade parlamentar.

Todo esse dinheiro pode ter sido aplicado nas operações da Frente Nacional na França, dando ao partido de Le Pen outro impulso. "O sistema dela é ilegal", disse Chauprade.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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