Guinadas de Trump devem-se a misto de inexperiência e aprendizado com a 'realpolitik'

Peter Baker

Em Washington (EUA)

  • AP Photo/Alex Brandon

Para o presidente Donald Trump, o caminho para mudar de opinião sobre a China incluiu uma conversa com executivos de empresas na Sala de Jantar de Estado na Casa Branca, em fevereiro. Quando a conversa girou sobre a moeda chinesa, os executivos tinham uma mensagem simples para o presidente: você está errado.

Trump há muito insistia que a China estava desvalorizando sua moeda e deveria ser punida, mas os executivos revidavam e diziam que na verdade Pequim já tinha parado. E embora Trump em princípio resistisse --até o final deste mês chamava os chineses de "campeões mundiais" da manipulação cambial--, depois de muitas conversas desse gênero ele voltou atrás e declarou nesta semana que afinal "eles não são manipuladores do câmbio".

Para qualquer novo ocupante da Casa Branca, os primeiros meses são como um seminário de política na faculdade comprimido em cada reunião de meia hora. O que fazia sentido durante a campanha pode ter pouco a ver com a realidade no Salão Oval, e a educação de um presidente pode ser difícil até para ex-governadores ou senadores. Para Trump, o primeiro presidente na história dos EUA que nunca havia servido no governo ou nas forças armadas, a curva do aprendizado é especialmente íngreme.

A semana passada deixou isso abundantemente claro. Ele descobriu que o presidente Vladimir Putin, da Rússia, talvez não seja o "melhor amigo" que ele imaginava, e que ficar fora da guerra civil na Síria é mais difícil do que ele supunha. Trump reconheceu que dez minutos escutando o presidente da China o fizeram perceber que não entendia totalmente a complexidade da Coreia do Norte. Ele abandonou sua oposição ao Export-Import Bank depois que soube mais a respeito. E disse que não considera mais a Otan "obsoleta".

Apenas algumas semanas atrás, no meio de esforços fracassados para anular o programa de assistência à saúde do presidente Barack Obama, Trump admitiu que a questão é mais complexa do que o mantra do rejeitar-e-substituir de um comício de campanha. "Ninguém sabia que a assistência à saúde podia ser tão complicada", disse ele, surpreso. Ninguém exceto qualquer pessoa que passou algum tempo fazendo política em Washington. Mas para Trump, que nunca foi um grande estudioso de política, serviu como uma revelação.

"Conforme ele governa, está percebendo que o discurso de campanha não se encaixa bem na governança e ele precisa de uma abordagem diferente, uma que dê resultados", disse Christopher Ruddy, o executivo- chefe da Newsmax Media e amigo do presidente. "Então ele vai descartar as coisas e as pessoas que não funcionam, e as que funcionam ele vai promover. Foi assim que ele fez sucesso nos negócios e no entretenimento."

A educação de uma pessoa, é claro, pode ser a traição de outra. Para alguns de seus apoiadores, as viradas sugerem que Trump o outsider pode ter sido capturado por veteranos de Wall Street em sua Casa Branca, enquanto Stephen Bannon, seu estrategista-chefe, é posto de lado.

Chegou ao ponto de que Alex Jones, o apresentador de rádio teórico da conspiração, enfocou seu programa de quinta-feira (13) em defender o presidente contra sua própria base. "Trump está nos vendendo?", perguntou Jones. "A resposta é não. Na verdade, Trump está tentando conquistar o establishment."

Certamente, Trump continua sendo um presidente historicamente imprevisível, dado a impulsos, ainda inclinado ao establishment de Washington e que apoia medidas ideológicas populares entre sua base conservadora, incluindo legislação que ele assinou na quinta-feira visando a Planned Parenthood [planejamento familiar]. Enquanto figuras do establishment tentam influenciá-lo, ele não desistiu de suas prioridades mais polarizadoras, e poucos podem prever para onde levará sua Presidência. Trump continua sendo Trump, e ele acredita que chegou à Casa Branca seguindo seu instinto.

Mas ele chegou à Casa Branca cercado por assessores que, como ele, eram neófitos em governança. Em sua Casa Branca, o chefe de Gabinete, o estrategista-chefe, o principal assessor, o advogado e o assessor de economia nacional não têm experiência ou consequência anteriores. Tampouco seus secretários de Estado, do Tesouro, do Comércio, da Habitação e da Educação.

Robert S. Price/U.S. Navy via REUTERS
Imagem fornecida pela Marinha norte-americana mostra lançamento de míssil a partir destróier americano em ataque dos EUA à base aérea síria

De início, Trump desconsiderou a importância de receber seu briefing da inteligência diariamente, afirmando que não lhe informava muita coisa. Ele imaginou que seria fácil proibir visitantes de vários países de maioria muçulmana e construir um muro na fronteira e obrigar o México a pagar por ele. Nunca tinha ouvido falar nos procedimentos do Congresso que o obrigavam a pressionar por mudanças na assistência à saúde antes de reformar o código fiscal.

Conforme mãos tarimbadas tiveram acesso a ele, porém, Trump recuou de algumas de suas promessas provocadoras. Ele adiou sua decisão de mudar a embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém depois que o rei Abdullah 2º da Jordânia correu a Washington para avisá-lo de uma reação violenta entre os árabes. Trump abandonou sua intenção de retomar as torturas em interrogatórios de terrorismo depois que o secretário da Defesa, Jim Mattis, lhe disse que era ineficaz.

Ele não indicou um promotor especial para investigar Hillary Clinton, nem rasgou ou renegociou o acordo nuclear com o Irã ou reverteu a política de Obama para Cuba, nem encerrou o programa de seu antecessor que permite a permanência no país de jovens imigrantes não autorizados.

Tantas dessas coisas são novas para Trump, que só depois que acusou publicamente Obama de ter grampeado seus telefones no ano passado ele perguntou a assessores como funcionava o sistema para obter garantias contra a espionagem de um tribunal especial de inteligência estrangeiro.

O Export-Import Bank, que ajuda a financiar aquisições de exportações americanas, é um exemplo revelador. Durante a campanha, Trump apoiou conservadores que queriam eliminar o programa, porque o governo não deveria financiar grandes empresas, e sim escolher os vencedores e perdedores em uma economia de livre mercado. Mas na quarta-feira (12) Trump aprovou o banco.

"Eu era muito contrário ao Ex-Im Bank porque eu dizia 'para que precisamos disso?' para a IBM e a General Electric", declarou ele ao "Wall Street Journal". "Acontece que, para começar, muitas pequenas empresas serão realmente ajudadas, as companhias vendedoras. Mas também, talvez mais importante, outros países dão" essa ajuda, e assim "nós perdemos um grande volume de negócios."

Na mesma entrevista, Trump descreveu seu processo de aprendizado sobre a Coreia do Norte, que está desenvolvendo mísseis balísticos com capacidade nuclear. Quando ele convidou o presidente Xi Jinping, da China, à sua propriedade Mar-a-Lago, Trump disse acreditar que Pequim poderia simplesmente pressionar a Coreia do Norte para suspender suas atividades. Então Xi lhe explicou a história da China e da Coreia, disse ele.

"Depois de ouvir por dez minutos, percebi que não é tão fácil", afirmou Trump. "Você sabe, eu achava com grande certeza que eles tivessem um tremendo poder sobre" a Coreia do Norte, acrescentou. "Mas não é o que você poderia pensar."

Karen Hughes, que foi assessora de comunicações do presidente George W. Bush na Casa Branca, disse que nenhum presidente pode estar totalmente informado de todas as questões que terá de enfrentar.

"Obviamente, a maioria dos presidentes não são cientistas nucleares", disse ela. "O importante é que a Casa Branca forneça um processo disciplinado para que os especialistas apresentem suas opiniões, que muitas vezes são divergentes. O papel do presidente como executivo-chefe e tomador de decisões é escutar, questionar e testar as recomendações dos especialistas, então aplicar um julgamento informado à decisão."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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