Idosos e doentes chineses procuram pelo vilarejo da longevidade

Javier C. Hernández

Condado de Bama (China)

  • Lam Yik Fei/The New York Times

    Pessoas descansando em área terapêutica, dentro da caverna Baimo, no condado de Bama, na China

    Pessoas descansando em área terapêutica, dentro da caverna Baimo, no condado de Bama, na China

Com suas pernas dormentes devido a um derrame e sua cabeça latejando de dor, Wu Weiying veio até as verdes montanhas do sul da China em busca de uma cura.

Wu, 66, vinha ouvindo falar sobre o Condado de Bama há anos. Era a capital da longevidade na China, prometiam os folhetos, onde as doenças sumiam e as pessoas viviam bem além dos 100 anos. Wu, ansioso para recuperar sua vitalidade para que pudesse voltar a jogar mah-jong, partiu em setembro na direção dos rios turquesa de Bama.

Em Bama, ele adotou o estilo de vida local, comendo cogumelos que supostamente teriam poderes divinos, bebendo água de um rio que prometia uma vida longa e se exercitando em uma caverna conhecida por seu ar puro. Mas, passados sete meses, sua condição não mostrava sinais de melhora, e ele entrou em depressão.

"Perdi todas as esperanças", ele disse, com os olhos cheios de lágrimas. "É impossível curar minha doença."

Bama, que já foi um vilarejo pacífico escondido nas montanhas cársticas da província de Guangxi, nos últimos anos se tornou um polo de atração para os doentes e idosos da China.

Lam Yik Fei/The New York Times
Vilarejo Po Yue, no condado de Bama, na China

Os visitantes chegam em busca de medicamentos exóticos, garrafas de "água da longevidade", visitas a centenários e conselhos sobre vidas mais saudáveis. Muitos vão embora depois de alguns dias sentindo-se esperançosos e rejuvenescidos.

Mas, para pessoas que vêm lutando contra doenças há muito tempo, a experiência pode ser agonizante. Muitos são atraídos por promessas de milagres, mas acabam se decepcionando. Outros são vítimas de golpes e de médicos charlatões.

"Essa é minha última esperança", disse Li Ming, 57, uma funcionária aposentada dos correios de Xangai, que ouviu de médicos em dezembro que o câncer de fígado a mataria em menos de um ano. "Se isso não me curar, serei obrigada a aceitar minha sentença de morte".

Com o número de idosos crescendo rapidamente na China, o turismo médico e voltado para a longevidade está em alta. O governo chinês, na esperança de explorar a crescente popularidade dos tratamentos para a terceira idade, encorajou os vilarejos de todo o país a se remodelarem como destinos voltados para a longevidade.

Em Bama, que já foi um fim de mundo empobrecido, o governo local transformou os centenários em celebridades, colocando seus retratos em outdoors e transformando suas casas em santuários. As incorporadoras estão rapidamente comprando terrenos de moradores para construir hotéis cinco estrelas, resorts e moradias de luxo com nomes como "Terra Secreta", vendendo-os como investimentos de aposentadoria para famílias preocupadas com a saúde.

Lam Yik Fei/The New York Times
Mulher e criança no vilarejo da longevidade no condado de Bama, na China

A mídia chinesa promoveu intensamente essa tradição dos vilarejos, e os cientistas estão investigando por que alguns residentes vivem vidas excepcionalmente longas. (Um estudo de 2012 sugeria que uma variação genética poderia ser parcialmente responsável pelo fenômeno.)

A cada ano mais de 2 milhões de pessoas visitam o condado, que tem uma população de 270 mil habitantes e um clube de 82 centenários cheios de vitalidade. Ultimamente os turistas têm chegado de excursão, principalmente do nordeste da China, das províncias do sul e de Hong Kong. Eles trazem oferendas para os centenários, os importunam para tirar fotos e perguntam quais são os segredos para uma vida longa.

O fluxo de turistas criou um mercado próspero de produtos de saúde duvidosos. Existem infinitas variedades de "águas de longevidade", vendidas a partir de US$ 600 (R$ 1.870) a tonelada, com anúncios que prometem a prevenção de doenças como diabetes e osteoporose. Camelôs vendem sprays medicinais que supostamente conteriam secreções de cobras e escorpiões, e os apresentam como curas para chulé, cólicas menstruais e artrite.

O aumento no número de visitantes em alguns momentos chegou a causar tensões entre os residentes, que dizem gostar dos benefícios econômicos, mas se preocupam com o fim da tranquilidade na região.

"Aqui costumava ser tranquilo e limpo", disse Liu Sujia, um agricultor. "Agora está cheio de lixo e de pessoas doentes."

Li Hongkang, um médico que pratica a medicina tradicional chinesa em Bama, disse que atendeu uma longa lista de pacientes nos últimos anos, incluindo um ator que fez o papel de Mao Tsé-tung na televisão, oficiais do Partido Comunista e um bilionário que trouxe três carros e duas enfermeiras para sua mãe doente.

Ele disse que muitos visitantes estavam dispostos a investir pequenas fortunas em tratamentos de saúde, convencidos de que poderiam superar suas doenças em Bama. A maioria das pessoas fica em Bama por alguns dias, embora esteja se tornando cada vez mais comum alugar casas por períodos curtos.

"Eles vivem muito melhor aqui", disse Li. "Ainda que não possam ser curados, é muito mais confortável."

Lam Yik Fei/The New York Times
Li Hongkang, doutor que pratica a medicina chinesa, tratando sua paciente, no condado de Bama, na China

Muitos dos que visitam Bama dizem que sua saúde se transformou, observando que a área é praticamente livre de poluição, diferentemente de muitas partes da China. Eles também apontam para a alta concentração de íons negativos de oxigênio nas cavernas da região, que, segundo cientistas, ajudam a purificar o ar.

Todas as manhãs as pessoas fazem fila para entrar na Caverna de Baimo, ou Cem Demônios, uma atração natural no condado que supostamente teria poderes especiais de cura.

Primeiro chegam os pacientes de câncer, cujos corpos foram devastados pela doença. Depois os jovens que estão lutando contra a Aids, as mulheres que amaldiçoam os céus por tirar os cabelos delas e crianças de até mesmo 13 anos de idade com tosse associada à mineração de carvão.

Quando dá meio-dia, eles estão todos lá, empoleirados em cima das rochas frias da caverna. Eles leem textos espirituais, assistem a novelas em seus celulares e perguntam uns aos outros se acreditam nos supostos poderes de cura da caverna.

Lam Yik Fei/The New York Times
Pessoas descansando no bar do oxigênio, próximo à caverna Baimo, no condado de Bama


Chen Rangzhi, um ex-gerente de uma empresa comercial de Changsha, uma cidade no sul, descreve a região como "mágica". Ele descobriu que tinha câncer de pulmão em 2013, mas diz ter se mantido saudável através de exercícios de tai chi dentro da caverna e de uma dieta repleta de pombo cozido e maçã.

Dentro da caverna, Chen, 62, aconselhava recentemente um grupo de visitantes, recomendando que eles comessem tâmaras e tomassem um copo de água quente todas as manhãs. Ele disse que muitas pessoas acreditavam erroneamente que só de visitar Bama elas poderiam vencer suas doenças.

"Este lugar é para cuidar de sua saúde", ele disse. "Se o hospital lhe diz que não há cura, então mesmo que você venha aqui, ainda assim não há cura."

Do lado de fora da caverna, em uma área repleta de borboletas e acácias conhecidas como bar de oxigênio por causa da qualidade de seu ar, Sun Luyao, 21, cuidava de sua avó de 72 anos, que sofria com o câncer de pulmão. Ali perto, dezenas de idosos levantavam os braços para cima, inebriando-se de luz.

Sun, da cidade de Harbin, no nordeste, disse que estava preocupada que a caverna, com a invasão de turistas, estaria começando a perder seus efeitos de cura. "Se vierem pessoas demais, acabará o oxigênio bom", ela disse.

Para aqueles que não melhoram, a experiência de se mudar para Bama pode ser extenuante e decepcionante.

Wu, um ex-supervisor de uma fábrica que produzia baijiu, um destilado chinês, teve um derrame devastador quatro anos atrás. Ele desce a passos lentos as ruas de Bama com uma bengala de madeira, sentindo-se tonto e com dificuldades para entender as pessoas.

Todas as manhãs Wu participa daquilo que chamam de exercícios de revitalização. Às margens do Rio Panyang, ele ergue os braços, gira os quadris e dá tapas em suas coxas, repetindo frases de incentivo o tempo todo ("Surpreenda-se! Esforce-se mais!")

Mas Wu ainda tem dificuldades para caminhar longas distâncias, cozinhar e manter uma conversa. Sua mulher se cansou de viver em uma região com tantas pessoas doentes, ela disse.

Wu disse que desistiu de Bama e que voltaria para sua cidade natal, na província de Gansu, no noroeste, no próximo mês.

"Enquanto eu conseguir administrar minha própria vida e não incomodar os outros, estarei bem", ele disse. "Só quero ter saúde."
 

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos