Contra Trump, políticos mexicanos passam a receber deportados de 'braços abertos'

Elisabeth Malkin

Na Cidade do México

  • Brett Gundlock/The New York Times

    Família Alvarez na porta de sua casa, na Cidade do México

    Família Alvarez na porta de sua casa, na Cidade do México

O presidente do México correu até o aeroporto para recepcionar um avião carregado de deportados. O ministro da Educação foi até a fronteira do Texas para se encontrar com mexicanos que estavam sendo expulsos dos Estados Unidos. A secretária do Trabalho da Cidade do México está encorajando as empresas a contratarem os imigrantes que estão sendo bruscamente enviados de volta para casa.

"Diferentemente do que está acontecendo nos Estados Unidos, este é seu lar", disse a secretária do Trabalho, Amalia García, aos deportados na plateia de um evento realizado recentemente para os programas de emprego da cidade.

Durante anos, enquanto o governo Obama enviava de volta milhares de mexicanos a cada semana —mais de 2 milhões no total— o establishment do México mal reagiu. Quase invisíveis, os deportados precisavam lidar sozinhos com famílias divididas, perspectivas incertas de emprego e a pobreza que levou tantos deles para o norte em primeiro lugar.

Agora os políticos mexicanos passaram a acolhê-los com entusiasmo, retratando os deportados como a encarnação da hostilidade do presidente Donald Trump em relação ao seu país e a seu povo —ainda que as deportações de cidadãos mexicanos na verdade tenham caído nos primeiros meses de seu mandato.

"Temos algo pelo que agradecer ao presidente Trump, que é esse despertar repentino para essa realidade que estávamos meio que ignorando", disse Cecilia Soto, uma legisladora que se encontrou recentemente com imigrantes em Chicago e em Los Angeles.

"Nós não ajudamos de fato os imigrantes" no passado, ela acrescentou, e agora "você tem um setor da sociedade que está realmente comovido com essa realidade e tentando fazer as coisas".

Mas, para alguns, esse repentino crescimento na preocupação com os imigrantes parece ser um oportunismo político, tirando vantagem da revolta pública com Trump antes das eleições mexicanas no ano que vem.

"É marketing. É realmente egoísta", disse Nancy Landa, 36, que foi parada por agentes da imigração em Los Angeles em uma manhã de 2009 e, depois de 20 anos nos Estados Unidos, foi jogada do outro lado da fronteira em Tijuana pouco antes de anoitecer, com somente um celular e US$20.

"As eleições estão chegando, em 2018, e se a imigração continuar sendo uma questão, eles vão usar os imigrantes como uma bandeira política", acrescentou.

De acordo com estatísticas da Immigrations and Customs Enforcement (ICE, agência federal de imigração), o número de cidadãos mexicanos deportados dos Estados Unidos nos primeiros três meses de 2017 caiu quase 20% em relação ao ano anterior.

As estatísticas do governo mexicano também mostram uma desaceleração na expulsão de cidadãos mexicanos dos Estados Unidos durante janeiro e fevereiro, com menos deportações nesses meses do que em qualquer outro mês no ano anterior. (Os números de março ainda não estavam disponíveis.)

O número de deportações muitas vezes flutua consideravelmente de mês para mês, por uma série de razões, e uma autoridade da agência de imigração americana alertou que não se deve tirar nenhuma conclusão definitiva a partir da queda recente.

Mas, independentemente de qual será o ritmo das deportações no mandato de Trump, ele já provocou um surto nacionalista no México, unindo o país e passando por cima de divisões políticas e econômicas devido à revolta contra seu posicionamento quanto a imigração, o comércio e a segurança nas fronteiras.

Carlos Bravo, um historiador da CIDE, uma universidade da Cidade do México, disse que os políticos mexicanos estavam claramente tentando dar uma resposta a essa raiva popular, talvez tirando proveito dela. Colocar-se do lado dos mexicanos expulsos dos Estados Unidos lhes oferece uma forma fácil de ganhar popularidade em casa, com poucos riscos políticos.

A causa dos deportados "tem pouquíssimos custos", ele disse. "É uma causa nobre" na visão da maioria dos mexicanos.

Mesmo as empresas, que durante muito tempo evitaram contratar deportados por medo de eles serem criminosos ou serem mais assertivos a respeito de seus direitos trabalhistas, estão mudando de atitude. García, a secretária do Trabalho da Cidade do México, disse que o discurso agressivo de Trump a respeito dos mexicanos "paradoxalmente tem gerado muita solidariedade para integrar os imigrantes".

Juntamente com o aumento da atenção veio uma assistência tangível, como mais dinheiro para ajudar os imigrantes não documentados nos Estados Unidos com questões jurídicas.

A Cidade do México e vários Estados estão recebendo os deportados facilitando sua entrada em programas sociais como o sistema de saúde público ou pequenos empréstimos para abrir negócios. O Estado de Jalisco, no oeste, está acrescentando serviços para evitar a burocracia, certificar qualificações e incentivar as empresas a contratar imigrantes.

Brett Gundlock/The New York Times
Rene Alvarez Jimenez trabalhando em consultório médico, na Cidade do México

E legisladores do Congresso aprovaram uma medida para simplificar a matrícula escolar de crianças nascidas nos Estados Unidos.

Ao assinar a legislação no mês passado, o presidente do México, Enrique Peña Nieto, disse sobre os imigrantes: "Como uma sociedade e como um país, temos o dever ético e moral de recebê-los de braços abertos, de tratá-los com carinho, respeito e dignidade".

O México ainda está se preparando para um aumento no número de deportações dos Estados Unidos. O governo Trump apertou a repressão contra a imigração, ampliando em muito o número de imigrantes que são considerados como prioridade para a deportação e prometendo contratar 10 mil agentes de imigração e aduana.

Prisões que tiveram grande repercussão na mídia, incluindo as de pais algemados e levados na frente de seus filhos, provocaram o terror entre comunidades de imigrantes, e a imprensa mexicana acompanhou de perto os casos.

Depois que Guadalupe García de Rayos foi sumariamente deportada de Phoenix em fevereiro, ela se tornou uma pequena celebridade em seu Estado natal de Guanajuato, onde o governador entregou pessoalmente a ela seus novos documentos de identidade mexicanos.

Brett Gundlock/The New York Times
Família Alvarez na cozinha de sua casa, na Cidade do México

Muitos imigrantes deportados caem em um limbo quando voltam,  não tendo contatos, histórico de trabalho, casa ou documentos. Muitas vezes eles enfrentam um estigma social. Um programa do governo federal, o Somos Mexicanos, oferece aos deportados um contato com serviços públicos e bancos de emprego, mas ativistas dizem que seu escopo é limitado.

"A sociedade mexicana precisa se abrir ao fato de que eles são do mesmo país", disse Claudia Masferrer, uma especialista em imigração no Colégio de México. "O México não tem nenhuma política de integração".

René Álvarez, que voltou para o México no ano passado depois de duas décadas nos Estados Unidos, recomeçou do zero com um caminhão, uma oficina e novas ferramentas que ele comprou com um empréstimo de cerca de US$2.600 (mais de R$8 mil) concedido pelo governo da Cidade do México.

"Se conseguíamos fazer lá, podemos fazer aqui", disse Álvarez no evento sobre trabalho na Cidade do México, cercado pelo prefeito e outros dirigentes.

Álvarez, 46, havia aberto uma empresa de construção, comprado uma casa e criado quatro filhas na Georgia. Desde que foi detido e deportado, acusado de dirigir embriagado, ele perdeu tudo. "Eles me destruíram", ele disse.

Sua cidade natal, na área rural, foi tomada por gangues do narcotráfico, mas ele e sua mulher, juntamente com suas três filhas mais novas, que nasceram nos Estados Unidos, estão vivendo com os pais de sua mulher na periferia sul da Cidade do México.

"O governo agiu bem com os imigrantes", ele disse. "Nós contribuímos para a economia de ambos os países. Não somos pessoas ruins, como diz o Donald Trump".

* Com reportagem de Ron Nixon (Washington).

Tradutor: UOL

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