Em Moscou, a imprensa flexível que Trump tanto gostaria de ter

Jim Rutenberg

Em Moscou (Rússia)

  • James Hill/The New York Times

    14.abr.2017 - Sala de controle da TV Rain, emissora russa que hoje faz transmissões também pela internet

    14.abr.2017 - Sala de controle da TV Rain, emissora russa que hoje faz transmissões também pela internet

Eu queria entender melhor a América do presidente Donald Trump, um local onde a verdade está sendo arrancada de suas amarras, enquanto ele rotula aqueles encarregados de devolvê-la ao seu lugar, os jornalistas, como inimigos desonestos do povo.

Então fui para a Rússia.

Foi como uma visita à terra da Verdade Alternativa Ainda Por Vir. Mas ela também me deu um vislumbre de como nosso novo panorama nacional está influenciando a guerra global pela informação, onde narrativas conflitantes entram em choque juntamente com o deslocamento da balança entre fato e ficção.

Eu escolhi uma semana terrivelmente perfeita para passar pela Moscou do presidente Vladimir Putin, onde a primavera lutava com dificuldade para florescer em meio à paisagem cinzenta.

Trump tinha acabado de ordenar um ataque com mísseis Tomahawk contra a base aérea de Shayrat da Síria, de onde, disseram os Estados Unidos, o presidente da Síria, Bashar Assad, lançou um ataque com armas químicas que matou mais de 80 pessoas e adoeceu centenas.

Assim que liguei a televisão aqui, eu me perguntei se tinha atravessado por um buraco de minhoca de direita alternativa.

Nos Estados Unidos, a ideia predominante no noticiário é de que Assad foi de fato responsável pelo ataque químico. Há algumas "reportagens" de fontes como o teórico de conspiração e apresentador de rádio Alex Jones, mais conhecido por sugerir que o massacre da escola Sandy Hook foi encenado, de que o ataque químico foi uma operação armada por grupos rebeldes terroristas para incitar os Estados Unidos a atacarem Assad. Mas essa é uma posição marginal.

Na Rússia, era o tema dominante por toda a mídia tradicional em grande parte controlada pelo Estado.

No popular programa de televisão russo "Vesti Nedeli", o apresentador, Dmitri Kiselyov, questionava como a Síria poderia ser responsável pelo ataque. Afinal, ele disse, o governo Assad destruiu todas suas armas químicas. Eram os "terroristas" que as possuíam, disse Kiselyov, que também comanda a principal divisão de mídia internacional controlada pelo Estado.

Um dos correspondentes de Kiselyov na Síria zombava dos "propagandistas ocidentais" por acreditarem na palavra de Trump, dizendo que as munições na base aérea tinham tanto a ver com armas químicas quanto o tubo de ensaio nas mãos de Colin Powell tinha ligação com as armas de destruição em massa no Iraque.

Isso levou Putin a sugerir, em comentários transmitidos nacionalmente pela televisão dois dias depois, que talvez o ataque tenha sido uma "provocação" intencional por parte dos rebeldes, para incitar os Estados Unidos a atacarem Assad. O "RT", uma agência de notícias em língua inglesa financiada pelos russos, inicialmente traduziu Putin como chamando o ataque de "falso". Alex Jones foi mais completo.

Quando funcionários do governo Trump tentaram rebater as "falsas narrativas" da Rússia divulgando aos repórteres o relatório antes confidencial detalhando os estoques de armas químicas da Síria, e sugerindo à agência de notícias "The Associated Press", sem provas, que a Rússia sabia com antecedência dos planos de Assad de usar armas químicas, os russos já tinham uma resposta que tomaram emprestada do próprio Trump.

Como colocou o jornal "Izvestia" pró-Kremlin, "Aparentemente havia razão para Donald Trump ter chamado as informações não verificadas na mídia de massa como sendo um dos principais problemas nos Estados Unidos".

Foi a melhor evidência que vi da tolice da abordagem anti-imprensa de Trump. Você não pode passar mais de um ano atacando a credibilidade da "mídia desonesta" e então esperar usar seu jornalismo para apoiar sua posição durante uma crise internacional, ao menos não com sucesso.

Apesar de Trump e seus apoiadores acharem que minar a mídia de notícias serve a seus interesses maiores, na guerra maior da informação isso atende ainda mais aos interesses de Putin. Significa jogar no campo dele, onde ele demonstra excelência.

Integral para o estilo de governo de Putin está uma imprensa flexível, que torna o governo dele o principal árbitro da verdade.

Enquanto conversava com os surrados, mas não abatidos, membros da verdadeira comunidade de jornalismo daqui, eu percebi indícios assustadores das proclamações trumpistas em suas histórias de guerra.

Veja a ameaça implícita de Trump ao dono do jornal "The Washington Post", Jeff Bezos, durante a campanha eleitoral. Caso você tenha esquecido, enquanto chamava de "horrível e falsa" a cobertura do "Post" a ele, Trump alertou que se chegasse à presidência, a outra empresa de Bezos, a Amazon, teria "problemas". (O "Post" não se intimidou e a questão não foi levantada de novo.)

O governo russo não faz ameaças como essas. As coisas simplesmente acontecem. Esse foi o caso no ano passado na empresa independente de mídia "RBC", depois que seu principal jornal noticiou os arranjos financeiros sensíveis de membros da família de Putin e de associados dele. As autoridades russas realizaram uma batida nos escritórios de seu proprietário oligarca, Mikhail Prokhorov. Em poucas semanas, seus três principais editores partiram.

O Kremlin negou envolvimento. Mas deve ter gostado da mensagem do novo editor aos funcionários da "RBC": jornalismo é como dirigir, e se "você dirigir sobre a linha dupla contínua, sua carteira é apreendida".

Porokhov está considerando vender a "RBC" para outro oligarca ligado ao governo, noticiou na última terça-feira o jornal de negócios russo "Vedomosti".

Naquele mesmo dia, eu me encontrei com um dos ex-editores da "RBC", Roman Badanin. Nos conversamos em seu novo local de trabalho, a TV Rain, no ex-complexo de depósitos Flacon daqui, ocupado por jovens barbados, com tatuagens, piercings e cabelos coloridos. (O imperialismo descolado do Brooklyn não conhece fronteiras.)

A TV Rain também teve suas dificuldades. Ela era a única emissora de televisão independente da Rússia. Exibida apenas por cabo, ela cobria regularmente os protestos anti-Putin e dava espaço para vozes excluídas do restante da televisão.

Mas após ter realizado uma pesquisa online perguntando se a Rússia deveria ter entregado Leningrado aos nazistas para salvar vidas, ofendendo profundamente o orgulho nacional russo e recebendo uma censura pública do principal porta-voz de Putin, seu senhorio a despejou e as operadoras de cabo deixaram de exibi-la.

Ela agora sobrevive principalmente como um serviço por assinatura na internet, que permanece razoavelmente livre, dado o foco principal de Putin na televisão como o meio mais poderoso no país. (Badanin e outros temem que isso também mudará.)

Quando perguntei a Badanin o que seria diferente se a Rússia tivesse liberdades plenas de imprensa, ele olhou para mim cansado e disse: "Tudo. Desculpe pela resposta comum, mas tudo".

Apesar dos enormes desafios, pessoas como Badanin continuam lutando. O espírito jornalístico deles não pode ser morto, mesmo após alguns de seus amigos e colegas terem sido.

Um jornal daqui, o "Novaya Gazeta", perdeu cinco repórteres para violência ou circunstâncias suspeitas desde a virada do século. Perto do final da semana, eu fui até sua redação espartana no centro de Moscou para visitar seu editor de longa data, Dmitri Muratov, que tem protegido ferozmente a independência do jornal em meio a todas as mortes e repressões.

Com o humor negro de um jornalista calejado, Muratov estava de bom humor e me disse que estava se divertindo com a mudança da posição da mídia estatal contra Trump.

Inicialmente, Muratov disse sobre o presidente, "ele foi tratado tão calorosamente quanto o McDonald's; ele entrou em cada casa como se fosse nosso Papai Noel nacional". Muratov não tinha dúvida de que o sentimento em relação a Trump mudaria, provavelmente rápido. (Citando "1984": "Oceania estava em guerra com a Lestásia. Oceania sempre esteve em guerra com a Lestásia".)

O "Novaya Gazeta" realizou a cobertura mais dura do ataque com armas químicas que vi aqui, contestando a narrativa do governo com reportagens locais, indicando que as armas químicas foram lançadas do céu. (As forças anti-Assad não possuem aviões.)

Há muita especulação nos círculos de mídia russos sobre o motivo para o Kremlin permitir que o "Novaya Gazeta" continue operando.

Muratov diz acreditar que se deve ao jornal não ser de propriedade de um único empresário sujeito a pressão. Os próprios funcionários do jornal são donos da maioria das ações e o restante é de propriedade do ex-líder soviético Mikhail S. Gorbachov e do empresário russo Alexander Lebedev. (Lebedev disse ao jornal "The Guardian" no ano passado que não mais financiava operações de redação por causa do "estresse".)

Isso, e uma base leal de assinantes de mais de 240 mil, ajudam a isolá-lo de pressão externa, mas não de violência.

No mesmo dia da minha visita, Muratov recebeu uma ameaça contra todos seus funcionários de líderes religiosos na Tchetchênia, furiosos com artigos sobre a violência contra gays na região.

A redação do "Novaya Gazeta" está repleta de lembretes para levar essas ameaças a sério, como o case que guarda o computador de mesa empoeirado de Anna Politkovskaya. Ela foi morta a tiros em seu prédio de apartamentos em 2006, após expor abusos de direitos humanos na Tchetchênia e escrever inflexivelmente a respeito de Putin.

Eu perguntei se isso afugentava alguns dos repórteres de Muratov de certas histórias. Ele ficou sério, olhou fixamente para mim e disse: "Eu realmente gostaria que sim".

Muratov acompanha a mídia de notícias americana atentamente. Eu lhe perguntei sobre o que achava do dilema da imprensa americana na cobertura de um presidente como Trump, que emprega falsidades e sataniza os jornalistas.

Ele pareceu não entender a pergunta, já que a resposta era tão óbvia.

"Informação vinda do Kremlin ou da Casa Branca, para nós não é informação verificada", ele disse. "Não depositamos nossa confiança apenas na palavra deles."

É uma lição que os repórteres americanos deveriam ter aprendido muito antes de Trump, especialmente após o Iraque.

Jornalistas na Rússia como Muratov não perderam de vista essa lição, porque não podem se dar ao luxo. Nem nós.

Alexandra Odynova contribuiu com pesquisa.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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