Jared Kushner e Ivanka: os pilares do governo Trump

Peter Baker, Glenn Thrush e Maggie Haberman

Em Washington (EUA)

  • Doug Mills/The New York Times

    5.abr.2017 - Ivanka Trump e seu marido, Jared Kushner, no Rose Garden da Casa Branca, em Washington

    5.abr.2017 - Ivanka Trump e seu marido, Jared Kushner, no Rose Garden da Casa Branca, em Washington

Um tem um escritório no mesmo corredor que o presidente na Casa Branca; a outra acaba de se mudar para um escritório no andar acima. Um visitou recentemente o Iraque destruído pela guerra como emissário do presidente; a outra seguirá em breve para Berlim a convite da chanceler alemã.

Ambos têm lugar à mesa em qualquer reunião de que quiserem participar, almoçam com líderes estrangeiros e gozam de "privilégios de acesso" ao Salão Oval. E, com a marginalização de Stephen Bannon, Jared Kushner e Ivanka Trump surgiram como os assessores mais importantes do presidente Donald Trump, pelo menos por enquanto.

De maneira mais aberta que qualquer presidente antes dele, Trump está dirigindo sua Ala Oeste como uma empresa de família, e conforme azedou com Bannon, seu combativo estrategista-chefe, voltou-se para sua filha e o genro. Sua ascendência fez alguns apoiadores conservadores temerem a crescente influência dos jovens e urbanos nova-iorquinos, enquanto alguns moderados e liberais engolem preocupações com nepotismo na esperança de que o casal tempere o presidente temperamental.

Apesar das conversas sobre um golpe de veludo contra Bannon, porém, Kushner e Ivanka Trump conseguiram diversas vitórias concretas. E várias pessoas do governo e próximas à família disseram que o movimento do casal contra Bannon foi menos motivado pelo interesse em moldar uma determinada política do que por cuidar do que eles consideram uma série vergonhosa de fracassos que podem prejudicar a marca da família Trump.

"Se você pensar nisso como um modelo de negócios clássico, Trump gosta de investir em vencedores porque eles ganham mais dinheiro, e Jared tem vencido constantemente", disse o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich, um aliado de Donald Trump. "Com Trump, você está sempre numa espécie de relação de 'mostre-me seu relatório trimestral'."

Nem Kushner nem Ivanka têm experiência de governo. Kushner, 36, administrou o império imobiliário que herdou da família e comprou o semanário "New York Observer" como um projeto lateral. Ivanka, 35, dirigiu uma marca de moda que atraía consumidores jovens e urbanas que provavelmente se aliariam aos adversários de seu pai.

Mas o relatório trimestral de Kushner mostra que ele esteve no modo de fusões e aquisições. Um após o outro, ele expande sua carteira em um amplo leque de coisas, incluindo a paz no Oriente Médio, a epidemia de opiáceos, relações com a China e o México e a reorganização do governo federal de cima a baixo. "Tudo passa por mim", disse ele a executivos de empresas durante a transição.

Ultimamente, ele pressionou pela reorganização do sistema de justiça criminal, objetivo que Donald Trump adotou como candidato quase no fim da campanha, quando tentou atrair eleitores de Hillary Clinton. Mas Kushner está correndo em oposição ao secretário de Justiça, Jeff Sessions, que prefere endurecer, e não abrandar, as sentenças mínimas obrigatórias.

Alguns colegas, inclusive Bannon e Reince Priebus, o chefe de Gabinete da Casa Branca, veem a lista surpreendente de tarefas de Kushner com um desprezo cômico, segundo uma dúzia de associados de Trump que insistiram no anonimato para falar sobre o casal Kushner-Trump. Depois da viagem de Kushner ao Iraque, assessores da Casa Branca referiram-se a ele como "o secretário de Estado".

Mas eles têm mais medo de Ivanka Trump, que só recentemente chegou à Ala Oeste e até agora foi uma agente mais esporádica que seu ambicioso marido. Inicialmente avessa a um papel formal no governo, Ivanka assumiu um escritório e uma posição no governo --embora, como seu marido, sem aceitar salário-- por preocupação sobre os problemas de seu pai nos primeiros meses no cargo.

Segundo associados, ela vê seu papel em parte como guardiã da reputação da família, e temeu durante e depois da campanha os danos em longo prazo que a carreira política de seu pai poderia causar à imagem empresarial da família.

A Casa Branca não quis comentar.

Mas a suposta contrarrevolução liberal nos bastidores, temida pelos críticos, deu resultados modestos. Na semana passada, o presidente assinou uma lei que permite que os Estados neguem verbas federais a provedores de saúde feminina que oferecem serviços de aborto, como o Planned Parenthood. Ivanka e Kushner estavam esquiando no Canadá, assim como estavam nas encostas de Aspen durante o colapso da iniciativa contra a assistência à saúde.

"Acho que há diversas maneiras de se fazer ouvir", disse recentemente Ivanka à CBS News. "Em alguns casos, é por meio do protesto, ir ao telejornal noturno e falar sobre ou denunciar todas as coisas de que você discorda. Em outras, é de uma maneira tranquila, direta, sincera."

"Então, quando eu discordo do meu pai, ele sabe", acrescentou ela. "E eu me manifesto com total sinceridade. Quando concordo, dedico-me totalmente e apoio a agenda e --espero-- que possa ser útil a ele e... ter um impacto positivo. Mas eu respeito o fato de que ele sempre escuta. É como ele era nos negócios. É como ele é como presidente."

Carl Sferrazza Anthony, um historiador na Biblioteca Nacional das Primeiras-Damas, disse que Ivanka Trump pode ter um papel vital para seu pai, elogiou-a por ser transparente ao aceitar as tarefas, em vez de agir nos bastidores, e previu que sua participação "se mostrará o maior sucesso dos primeiros cem dias da Presidência de seu pai".

Mas Chris Whipple, autor de "The Gatekeepers", uma história de chefes de Gabinete da Casa Branca, disse que parentes na Ala Oeste podem confundir a cadeia de comando. "Pode ser desastroso se eles exercerem sua influência às custas do chefe de Gabinete", disse ele.

No centro da Presidência Trump há um paradoxo: até os aliados reconhecem que Trump é impulsivo, indiferente a preparativos e inclinado a aceitar o último conselho oferecido. Ele precisa de uma mão forte para guiá-lo, mas insiste em parecer firme no comando, por isso qualquer assessor que seja visto como puxando os cordões pode enfrentar sua ira cedo ou tarde.

Foi Trump, e não seus filhos, quem empurrou Bannon para as margens, menos motivado por ideologia do que pela insatisfação com fracassos recentes e sua percepção de que seu principal estrategista estava realizando uma operação encoberta para crescer às custas de Trump.

O presidente continua incomodado porque uma capa da revista "Time" de fevereiro rotulou Bannon de "o grande manipulador", dizendo a um visitante neste mês: "Isso simplesmente não acontece" --uma expressão preferida de Trump para demonstrar raiva contra os subordinados que cuidam de seus interesses antes dos dele.

Ao mesmo tempo, o presidente e sua família monitoraram de perto o antigo site de Bannon, Breitbart, que consideraram uma arma em sua guerra contra rivais na Casa Branca. Confrontado sobre o site, Bannon disse ao presidente que estava operando fora de seu controle e contra seus desejos.

Ivanka Trump nunca foi próxima de Bannon, embora ela apreciasse a ferocidade de seu trabalho. Ela o coloca na categoria dos personagens pitorescos e mal delineados que seu pai coleciona, com pessoas como Roger Stone, um antigo agente de Trump.

Nas últimas semanas, ela falou abertamente sobre os fracassos de Bannon com o presidente. Foi especialmente elogiada em artigos que, na sua opinião, foram plantados por aliados de Bannon, sugerindo que ele, e não Trump-pai, cunhou a mensagem econômica populista que ajudou a atrair o Meio-Oeste. Ela defendeu essa teoria nos termos mais fortes diante de seu pai, que concordou, segundo um amigo da família.

Donald Trump preferiria que a situação com Bannon se estabilize, segundo pessoas inteiradas de suas ideias, e manter Bannon a bordo, embora num papel mais circunscrito, do que vê-lo se tornar um crítico populista fora dos portões.

Bannon intuitivamente compreende a conexão do presidente com os eleitores brancos trabalhadores e seu instinto de demolir as normas políticas. E nem Ivanka nem seu marido até agora mergulharam em operações cotidianas do governo ou nos dias de 18 horas que o infatigável Bannon trabalha habitualmente.

Eles têm aliados importantes, porém, incluindo dois veteranos do Goldman Sachs: Gary Cohn, o assessor econômico nacional, e Dina Powell, uma vice-assessora de segurança nacional. Cohn, um democrata, foi projetado como futuro chefe de Gabinete, e Powell, uma veterana republicana do segundo governo Bush, serviu como consertadora-mor da Ala Oeste.

Enquanto Cohn foi atacado pela direita, Powell é elogiada por conservadores como o senador republicano Tom Cotton, do Arkansas, e ela e Ivanka têm trabalhado com Kelly Conway, a conselheira da Casa Branca que continua sendo uma favorita das bases republicanas.

Talvez seja revelador que Stephen Miller, o assessor de políticas de Donald Trump, tenha se afastado de Bannon, seu antigo aliado. Ele trabalhou com Ivanka Trump desde a campanha sobre creches e outras questões, e colegas disseram que ele se aproximou dela e de Kushner para ter mais liberdade para aplicar as políticas anti-imigração que o animam.

A maior mudança provocou consternação entre os apoiadores de Donald Trump. Scott McConnell, um editor e fundador da revista "The American Conservative", zombou da filha e do genro do presidente como "nova-iorquinos inteligentes, yuppies de sabedoria convencional que nunca tiveram de formular ou defender uma posição complexa de política externa em suas vidas".

Escrevendo no site Vox, ele disse: "Eu certamente não votei nas preferências de política externa de Jared e Ivanka, ou numa política conduzida por quaisquer imagens de TV que por acaso comoveram o presidente".

A expectativa de que Ivanka Trump empurre seu pai à esquerda em questões sociais não ajudou, segundo pessoas próximas a ela. Ivanka compartilha sua visão econômica conservadora e não entrou na Casa Branca para ser uma guerreira em questões sociais, disseram elas.

Kushner, por sua vez, teve sucesso em parte porque nunca tentou "explicar o que Jared quer", disse Gingrich. "Ele é muito sintonizado com Trump e tenta descobrir do que Trump precisa e o que Trump está tentando fazer."

Kushner serviu como os olhos e ouvidos do presidente. "Jared está constantemente procurando feedback fora dos círculos íntimos de Trump", disse Kathy Wylde, presidente da Parceria para a Cidade de Nova York, de cujo conselho Kushner fez parte. "Isso é realmente causar uma impressão nas pessoas de que há uma oportunidade para influenciar o que acontece na Casa Branca."

Kushner fica calmo quando outros são assustados pelo temperamento explosivo de Trump. Durante a campanha, quando o candidato estava furioso com o desempenho de seus assessores, ele lembrou ao sogro que quatro pessoas não podiam ser demitidas --ele mesmo e os três irmãos Trump.

Mas se Trump vive de acordo com algum ditado da administração de empresas, talvez seja este: o único empregado indispensável é aquele que o olha do espelho.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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