Ex-monge ergue praticamente sozinho uma 'Catedral da Fé' na Espanha

Raphael Minder

Em Mejorada del Campo (Espanha)

  • Gianfranco Tripodo/The New York Times

    Justo Gallego, trabalhando na catedral em Mejorada del Campo, na Espanha

    Justo Gallego, trabalhando na catedral em Mejorada del Campo, na Espanha

Em fevereiro, Justo Gallego cavou sua própria cova, literalmente, na cripta da igreja que ele vem construindo aqui, um tijolo por vez, desde o início dos anos 1960.

Gallego, 91, também mudou recentemente de moradia, trocando a casa de parentes pelo ambiente mais espartano do templo que ele mesmo fez. Ele quer ter certeza de que morrerá no lugar que se tornou a missão de sua vida.

"Foi para cá que minha vocação me trouxe e é aqui que estou preparado para sofrer, assim como Jesus Cristo nos ensinou a sofrer pelos outros", disse Gallego, enquanto jogava lenha em um fogão ao lado de seu quarto rudimentar, próximo ao altar, onde ele dorme sobre uma tábua sem colchão.

Gallego pode estar pronto para enfrentar a morte, mas alguns moradores daqui estão preocupados com o que poderá acontecer ao seu extraordinário projeto sem ele. Gallego nunca recebeu uma licença de construção ou qualquer financiamento público, mas ele conseguiu erguer um notável marco nessa cidadezinha de 23 mil habitantes na periferia de Madri que, não fosse por isso, não teria nada demais.

Seu ambicioso projeto recebeu o nome de "Catedral da Fé" em mapas da internet, embora não tenha recebido um apoio oficial de autoridades da Igreja Católica. Cercada por dois claustros e coroada por uma cúpula não terminada de 38 metros de altura, ela atrai turistas aos finais de semana, ajudando a levantar a economia local.

"Esse homem construiu algo incrível, contrariando todas as expectativas, e a transformou em um símbolo de nossa cidade", disse Victor Morillo, um morador que consegue ver a cúpula da sacada de seu apartamento. "A prefeitura deveria ter feito muito mais para ajudar e certamente não deveria permitir que nada de mau aconteça a esta catedral depois que ele morrer".

Gianfranco Tripodo/The New York Times
Catedral que está sendo construída por Justo Gallego, em Mejorada del Campo, na Espanha

No entanto, Gallego não se comove com esse tipo de apoio, assim como ele não se abalou com críticas no passado ao seu projeto e à sua própria personalidade, que às vezes é ridicularizada, sendo visto como um ex-monge exaltado. Ele também não se perturba com o fato de nunca ter recebido qualquer financiamento público, mesmo em um país majoritariamente católico e cuja infraestrutura recebeu grandes subsídios.

"Não estou construindo isto para ganhar dinheiro ou fama, assim como não estou aqui para ouvir as pessoas decidirem se sou maluco ou excêntrico", ele disse. "Sou inteiramente responsável pelo meu trabalho e não estou esperando que as autoridades tenham qualquer opinião".

Apesar da falta de licenças, não há ninguém falando em demolir a igreja, mas tampouco há certezas sobre o futuro do projeto a longo prazo.

Encarnación Martín Álvarez, um funcionário encarregado do planejamento urbano aqui, disse que a prefeitura não poderia financiar Gallego por causa de restrições orçamentárias e não fez nenhum plano para garantir a continuidade do projeto, por maior que seja sua importância para a cidade e sua identidade.

Gallego nasceu aqui em 1925, no dia da padroeira da cidade, a Nossa Senhora das Dores. Aos 27 anos de idade, ele entrou para um monastério na província de Soria, ao norte, mas recebeu a ordem de ir embora oito anos mais tarde, depois que ele contraiu tuberculose e corria o risco de contaminar os outros monges.

Depois de se recuperar em um hospital de Madri, Gallego voltou à sua cidade natal, onde ele decidiu transformar um terreno da família em um lugar de devoção, sem a bênção da Igreja Católica.

Gianfranco Tripodo/The New York Times
Justo Gallego limpando o altar da catedral que ele está construindo em Mejorada del Campo, na Espanha

Ele disse que seu projeto era um ato de fé, motivado em parte pelo seu desejo de fazer as pazes pela profanação que ele testemunhou durante a Guerra Civil Espanhola. Durante a guerra, "Eu vi os comunistas destruírem todas as igrejas aqui, com as pessoas rindo e dançando nas ruínas", ele disse. "Mas, quando você acredita, você também pode reconstruir com suas próprias mãos um lugar novo bonito".

De fato, Gallego construiu a maior parte da igreja sozinho, sem nenhum treinamento como arquiteto ou engenheiro civil, usando materiais reciclados que vão desde latas de alimentos até tijolos com defeito e outras sobras de fábricas e obras locais.

Os capiteis de alguns dos pilares de concreto da igreja são feitos de pneus de carro usados, pintados de cinza para lembrar a cor do concreto usado para o pilar. Ainda falta parte do teto, mas já há afrescos nas paredes.

Gallego financiou seu trabalho vendendo terras da família, e também através de doações.

Ele realizou cerimônias religiosas no local, mas o chão não foi consagrado.

"Muitos membros da igreja institucional o veem como um fanático que não deveria ser levado a sério, mas eu o considero como um exemplo para a humanidade", disse María Teresa Alonso, uma aposentada de um vilarejo próximo, que de vez em quando visita o local e doou dinheiro para ajudar Gallego. "Dizem que a fé move montanhas, mas aqui vemos que a fé também pode construir uma catedral incrível".

Gallego recebeu algum apoio informal de membros do clero local. "Houve queixas contra eles, mas nós o apoiamos o quanto conseguimos", disse Pedro Luís Jiménez Langa, um padre da paróquia na cidade. "É um trabalho excepcional, e ele é um bom homem".

Gallego, com sua saúde cada vez mais frágil, passou a contar mais com amigos e voluntários para ajudar na construção. Um empresário local ofereceu um guindaste para erguer a cúpula, enquanto alguns admiradores doaram esculturas e decorações religiosas, no lugar de dinheiro.

Gianfranco Tripodo/The New York Times
Justo Gallego dentro da catedral que ele está construindo

Mas nada é acrescentado sem a aprovação de Gallego, especialmente se destoar dos arcos e outros padrões circulares que ele adora, que são ligeiramente baseados no estilo romanesco.

"Isso não vai ficar bom em nenhum lugar aqui", disse Gallego, enquanto estudava uma pomba azul feita de ráfia vinda de uma doação, mas que Gallego deixou no chão.

Embora algumas pessoas questionem a saúde mental de Gallego, seus apoiadores negam que exista nada de doentio em sua obsessão.

"Você realmente acha que alguém maluco poderia ter construído algo assim?", disse Pablo Cantuel Gallego, um sobrinho de 64 anos que tem ajudado seu tio desde que era criança. "O único problema com meu tio é que ele pertence a um outro século. Ele pensa e trabalha de uma forma que ninguém poderia imaginar hoje."

Curiosamente, a construção de Gallego se situa em uma rua chamada Antoni Gaudí, o arquiteto da mundialmente famosa e inacabada basílica de Barcelona, a Sagrada Familia.

Gaudí morreu em 1926, mas outros arquitetos assumiram o trabalho e esperam concluir sua basílica em 2026, para o centenário de sua morte. Gallego, por outro lado, não tem um cronograma e nem mesmo um único esboço do projeto de sua catedral. Mas ele tem um assistente em quem confia, Ángel López, que disse que assumiria os trabalhos quando Gallego morrer.

"O único plano é feito na minha cabeça, é desenhado dia a dia", disse Gallego, com um sorriso que revela a falta de vários dentes. "Mas Jesus Cristo é quem faz os planos verdadeiros e decide o que deverá acontecer".

Tradutor: UOL

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