Casas abandonadas de vilarejos mostram destruição do patrimônio histórico francês

Alissa J. Rubin

Em Joinville (França)

  • Pierre Terdjman/The New York Times

    Porta com placa de 'Vende-se', em Joinville, na França

    Porta com placa de 'Vende-se', em Joinville, na França

O prefeito de fala mansa deste vilarejo ancestral no rio Marne coloca sua mão em meu braço enquanto tremíamos no frio de fim de inverno, em frente a uma casa estreita. Neve polvilhava os telhados e não se via ninguém na rua de paralelepípedos.

"Está pronta para isto?" perguntou o prefeito, Bertrand Ollivier, com expressão de dor.

"É violento", ele disse.

O assessor do prefeito para planejamento urbano, Anthony Koenig, com as mãos congelando, tateava à procura da chave da casa do século 16 e a colocou na fechadura da porta da frente.

Ele a forçou para abrir: a violência era visível.

O piso de madeira foi removido. O ambiente antes usado como cozinha estava sem os azulejos e o piso cerâmico. Sob os pés, apenas terra e cascalho. Os painéis de madeira que antes revestiam as paredes foram arrancados, restando apenas os tijolos e, em alguns lugares, aberturas expostas aos elementos, com a entrada do vento frio.

Não havia teto, apenas as vigas estruturais do prédio no alto. Se alguma vez houve um espelho sobre a cornija da lareira, ou mesmo uma cornija, eles há muito desapareceram. Assim como os batentes de madeira das portas e janelas.

Pierre Terdjman/The New York Times
Armazém do Jean Claude Lebert, que compra e vende objetos que foram utilizados em construções, em Joinville, França


Por todo o interior da França, especialmente nas áreas rurais menos visíveis do leste e centro do país, algumas casas sucumbiram a especuladores que removem seus tesouros arquitetônicos e os vendem, com frequência para o exterior, transformando estruturas históricas antes graciosas em pouco mais que conchas vazias por trás de fachadas pintadas. Em outras casas, os próprios proprietários venderam os elementos arquitetônicos para levantar algum dinheiro.

As perdas de Joinville estão longe de ser exceção. As vendas são em grande parte legais, mas o fenômeno é um elemento no gradual despovoamento de muitos vilarejos na França, e o que alguns temem ser um afastamento da cultura e tradições francesas. A questão da identidade e patrimônio franceses está no coração da campanha presidencial, e está entre as questões que ajudaram a impulsionar a populista de direita Marine Le Pen ao status de líder na disputa. O primeiro turno será realizado em 23 de abril.


"O mercado para arte arquitetônica desse tipo na França movimenta milhões, dezenas de milhões de euros por ano", disse Emmanuel Étienne, vice-diretor de monumentos históricos e espaços tombados do Ministério da Cultura e Comunicação da França.

Dentre as milhares de licenças de exportação requisitadas por ano para esses bens, apenas cerca de 10% são negadas, disse Étienne. As vendas impedidas pelo governo são para itens considerados parte do patrimônio nacional da França e com frequência retirados de locais tombados.

Pierre Terdjman/The New York Times
Cidade de Joinville, França

A maioria dos elementos arquitetônicos retirados de vilarejos como Joinville é relativamente mundana e tem valor apenas limitado, em comparação a arte e arquitetura das maiores casas da França, que costumam ter peças singulares.

Mas há um mercado maior para itens relativamente comuns, como pisos cerâmicos antigos, painéis de madeira, cornijas de lareira e chaminés, às vezes até mesmo por escadarias. Eles costumam parar em casas caras na Alemanha, nos Estados Unidos e, ocasionalmente, no Japão, mas alguns acabam no Sul da França, comprados por estrangeiros para reforma de suas casas de férias.

Um elemento arquitetônico padrão de Joinville poderia ser um piso cerâmico de terracota do século 19 para cozinha, no valor de cerca de US$ 6.500 (cerca de R$ 20.150), dependendo do tamanho da cozinha e da condição do piso. Ou uma cornija no valor de até US$ 10 mil (cerca de R$ 31 mil), ou uma porta antiga de carvalho no valor de talvez US$ 600 (cerca de R$ 1.860).

O prejuízo para Joinville é maior do que a soma em dinheiro: uma casa destituída desses detalhes se torna quase impossível de ser vendida devido ao custo da reforma, ou até mesmo da estabilização da estrutura. A casa vizinha também se torna menos desejável e perde valor, e a cidade pequena encontra ainda mais dificuldade para reter sua população, sua atratividade e sua vida.

Com frequência especuladores compram as casas com a intenção de despojá-las. Outras vezes, os proprietários se veem em situação financeira difícil ou simplesmente querem reformar, percebendo que podem ganhar algum dinheiro extras vendendo a arquitetura interna, disse Koenig.

Simon de Monicault, o diretor de móveis da casa de leilão Christie's, em Paris, disse: "É um mercado importante para a França. A maioria das pessoas que querem comprar algo antigo se volta para a França, mais do que qualquer outro país na Europa".

A Christie's negocia apenas peças excepcionais, mas antiquários locais e empresas de materiais de demolição com frequência reviram o interior francês à procura de elementos; eles batem de porta em porta, anunciam nos jornais locais.

Apesar da França ter leis rígidas de proteção do patrimônio nacional, poucas autoridades locais fazem uso delas. Em parte, isso se deve a reforma e preservação os colocarem em atrito com empreendedores imobiliários poderosos ou atrapalharem projetos de modernização que visam melhorar a atividade econômica.

Em Joinville nos anos 50, por exemplo, um mercado coberto do século 17 foi demolido sob o pretexto de que a madeira estava apodrecendo, em parte porque na época havia pouco interesse na restauração. Um shopping foi construído no local.

Alexandre Gady, um professor de história da arte da Universidade de Paris-Sorbonne, disse que os franceses sofrem de esquizofrenia cultural, adorando de forma alternada o passado e a modernidade.

"Os franceses um dia colocarão uma turbina eólica no meio da Galeria dos Espelhos e dirão: 'Qual é o problema?'" ele disse, referindo-se à galeria central do Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris.

Destemido, Ollivier, o prefeito de Joinville, segue em frente com um projeto para salvar as casas de seu vilarejo, que para ele são quase seres sencientes, carregando em suas madeiras, tijolos e pedras a história da região: sua ascensão e queda, sua riqueza e pobreza, sua proeminência e obscuridade.

Ollivier deu início a meia dúzia de iniciativas, inclusive usando as leis disponíveis e contratando Koenig, um enérgico homem de 33 anos com um compromisso fervoroso com a preservação, e Noémie Faux, uma natural de Joinville que ama suas casas antigas.

Faux está compilando um registro de todas as casas antigas de Joinville, incluindo os itens de patrimônio histórico no interior. Também trabalhando estreitamente no projeto está o vice-prefeito, Thierry Paquet, que disse que deseja preservar os imóveis, para que mais pessoas possam se mudar para o vilarejo e criar seus filhos aqui.

Pierre Terdjman/The New York Times
Anthony Koenig, andando nos escombros de uma casa abandonada em vila de Joinville, na França

Eles têm utilizado uma lei raramente usada que permite que o prefeito intervenha quando construção (ou, neste caso, desconstrução) torna uma edificação insegura e necessite de restauração. Eles também lançaram um programa de adoção de edificação para fornecimento de uma fonte de fundos para estruturas que necessitam de reparos.

Hoje, apesar de ainda haver muitas placas de "vende-se" pela cidade, o gabinete do prefeito busca com frequência assegurar que o comprador não seja um especulador e, às vezes, até mesmo usa sua verba limitada para comprar imóveis para assegurar sua preservação, antes de trabalhar para encontrar um bom comprador.

"Eu propus muitos projetos semelhantes em outras cidades", disse Koenig. "Mas outros prefeitos disseram: 'É ambicioso demais. Não podemos fazer isso. É complicado, trata-se de propriedade privada'."

"Mas", ele acrescentou, "quando propus isso a este prefeito, ele disse: 'Sim, é normal, temos que fazê-lo. Há cidades que não fazem isso?'"

Para torná-las mais atraentes para os compradores, Ollivier mobilizou moradores locais para trabalharem nas casas para melhorá-las. Muitos dos imóveis estavam abandonados há anos. Em alguns casos, o Estado forneceu ajuda financeira.

Uma casa para a qual Ollivier teve sucesso em encontrar um morador é uma espaçosa que, diferente de muitas em Joinville, tem um pequeno quintal com grama aparada. No interior há ricos assoalhos de tacos, acabamentos de madeira curvilíneos, espelhos no espaço acima das cornijas de mármore e pinturas pintadas diretamente na parede acima das portas duplas entre os cômodos.

"Sou realmente natural de Joinville", disse Ollivier. "Sou muito ligado a tudo o que tem a ver com nosso patrimônio histórico aqui."

"É preciso ser bastante modesto", ele acrescentou, "porque ao ver todo esse patrimônio histórico do século 17, o castelo do século 16, tudo o que foi construído, há a obrigação de protegê-lo. É realmente nossa principal missão".

Benoît Morenne, em Paris, contribuiu com reportagem.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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