Conheça os profissionais de tecnologia estrangeiros deixados no limbo por Trump

Deanne Fitzmaurice e Katie Benner*

  • Deanne Fitzmaurice/The New York Times

    Kaushik Gopal (centro) reza no templo sikh Gurdwara Sahib, em San Jose (EUA)

    Kaushik Gopal (centro) reza no templo sikh Gurdwara Sahib, em San Jose (EUA)

Amanhece na Bay Area da Califórnia, e as pessoas começam a ir para o trabalho. Entre elas, muitas das pessoas que ajudam a fazer nossos smartphones, nossos games favoritos e os aplicativos que baixamos.

Mas muitas delas também vieram para algo diferente, talvez uma vida nova nos Estados Unidos.

Essas são só algumas das 85 mil pessoas que vêm para trabalhar em empresas americanas de lugares tão distantes quanto a Índia e a China, com vistos H-1B, que são concedidos a profissionais altamente qualificados do exterior. Muitos, como Kaushik Gopal, conseguem empregos em empresas de tecnologia que tiveram dificuldades para encontrar cidadãos americanos com conhecimentos avançados em matemática e ciências em número suficiente para preencher seus cubículos.

Muitas vezes eles esperam poder chamar os Estados Unidos de lar.

"O que eu adorava nos Estados Unidos era que não importava de onde você vinha", disse Gopal. "Seu passado, sua cor ou religião não importavam. Se seu trabalho fosse bom, havia lugar para você aqui".

Os planos do presidente Donald Trump de mudar as regras que governam os vistos de trabalho e a imigração jogaram as vidas de muitos detentores de visa no limbo.

Doug Mills - 18.abr.2017/The New York Times
O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa na cidade de Kenosha

"Estou sempre alerta porque existe uma chance de receber do nada a notícia de que não sou mais bem-vindo", disse Gopal, 32, que veio aos Estados Unidos pela primeira vez em 2012.

Assim como muitos dos funcionários do Vale do Silício que estão aqui como parte do programa de vistos H-1B, voltado para profissionais altamente qualificados, Gopal nasceu na Índia, fez faculdade nos Estados Unidos e conseguiu um emprego em uma empresa de tecnologia. Ele disse que a Bay Area atrai os engenheiros mais inteligentes do mundo inteiro porque é conhecida como "ímã para habilidades técnicas".

Hoje ele está na startup de entregas Instacart, trabalhando em um aplicativo que clientes de diversas cidades usam para encomendar suas compras de supermercado. Seu podcast semanal "Fragmented", que ele apresenta junto com um criador de apps chamado Donn Felker, elevou seu perfil profissional e lhe rendeu palestras em conferências em locais tão distantes quanto a Suécia.

Em sua infância na Índia, Gopal era fã de programas de TV e desenhos animados americanos. Depois de se formar na Carnegie Mellon University, ele estava ansioso para levar seus pais para a Disneylândia.

A indústria da alta tecnologia hoje depende muito de profissionais como Gopal: um de cada oito funcionários de tecnologia tem um visto H-1B, de acordo com estimativas da Goldman Sachs.

Detentores de vistos H-1B correspondem a cerca de 15% da força de trabalho do Facebook e da Qualcomm nos Estados Unidos, de acordo com os documentos mais recentes que as empresas submeteram ao Departamento do Trabalho. As startups do Vale do Silício, que costumam impulsionar as inovações tecnológicas, empregam muitos engenheiros com vistos de estudo e de trabalho, assim como gigantes da tecnologia como o Google e a Apple.

Isso permitiu que uma população etnicamente diversificada prosperasse em torno de Bay Area. O Sikh Gurdwara Sahib em San José é um dos maiores templos sikh da América do Norte. A faixa de quase 80 km de cidades e vilarejos entre San José e San Francisco é repleta de restaurantes asiáticos, como o popular Rajwadi Thali, em Sunnyvale.

Alguns detentores de visto, como Sujay Jaladi, estão nos Estados Unidos há tanto tempo que não conseguem se imaginar vivendo em outro lugar. Jaladi, 35, vive aqui há 15 anos, primeiro com um visto de estudante e depois com uma sequência de vistos H-1B. Ele se candidatou a um green card em 2012 e está esperando pela aprovação do pedido. Sua mulher, Priya, também tem um visto H-1B e trabalha em uma empresa de tecnologia.

"Minha família vive na Índia e adoro aquele país", disse Jaladi, "mas passei minha vida adulta nos Estados Unidos e definitivamente me sinto mais em casa aqui".

Deanne Fitzmaurice/The New York Times
Priya e Sujay Jaladi na casa do casal, em um subúrbio de São Francisco (EUA)

Jaladi leva uma hora para chegar ao trabalho, como chefe de segurança de informação na Gusto, uma empresa que fornece serviços de recursos humanos para pequenos negócios. Ele gosta de comer em casa e de fazer compras aos finais de semana na Costco. Ele e sua mulher adoram cozinhar.

Mas a questão do visto não sai de sua cabeça, juntamente com a possibilidade de ele ter de voltar para a Índia.

"Nossa capacidade de permanecer nos Estados Unidos, em conformidade com a lei, depende do processo do visto", ele disse. "Ser esforçado no trabalho é só um dos fatores. Se os mercados financeiros sofrerem uma crise e seu empregador começar a demitir as pessoas, detentores de vistos H-1B têm um tempo limitado para encontrar outro emprego e permanecer em conformidade com a lei, antes de termos de deixar o país. Se o mercado estiver ruim e os empregos diminuírem, haverá mais detentores de H-1B no mercado procurando emprego".

Jaladi não é o único que se viu em um limbo de imigração na Gusto. Shub Jain, um engenheiro de informática de 26 anos da empresa, se formou na Universidade da Califórnia, em San Diego, em 2014, trabalhou na Microsoft e no último outono se mudou para San Francisco para um emprego na startup de RH. Ele tem trabalhado com um visto de estudante prorrogado e perdeu na loteria do visto H-1B três vezes. Este é o último ano em que ele poderá se candidatar. "Se não der certo", ele disse, "vou embora do país".

A vida de Jain é como a de muitos profissionais na faixa dos 20 anos. Ele gosta de carros e de dirigir pela Califórnia, além de descobrir restaurantes novos com amigos. Mas o sentimento de acolhimento que ele sempre vivenciou nos Estados Unidos mudou, à medida que os políticos foram mudando seus pontos de vista sobre a imigração.

"Minhas conversas com os amigos mudaram", ele disse. "Eu costumava olhar as notícias todas as manhãs, mas agora não faço isso porque não quero que influencie meu trabalho. Eu olho à noite. Você não sabe o que vai ler".

Deanne Fitzmaurice/The New York Times
Shub Jain dirige seu Mustang conversível em São Francisco (EUA)

Assim como muitos profissionais de tecnologia, Jain apostou em uma startup menor. Mas sua decisão veio com um risco extra. Na Microsoft, ele podia lidar com problemas de visto sendo transferido para um dos muitos escritórios da empresa pelo mundo. Com a Gusto, ele não tem essa opção.

Jain conversa sobre suas ansiedades com seus colegas de equipe como Nicholas Gervasi, um canadense de 32 anos que está trabalhando na Gusto com um visto H-1B. Graças a condições do Tratado Norte Americano de Livre-Comércio, Gervasi teve mais facilidade para viver e trabalhar nos Estados Unidos do que seus colegas da Índia, e ele espera ter seu pedido de green card aprovado em breve.

A irmã de Jain frequentou a Universidade de Illinois, trabalhou em um pregão da bolsa de Chicago e deixou o país depois de não conseguir um visto H-1B. Desde então ela fundou sua própria empresa e conversa com Jain quase todos os dias, enquanto ele se prepara para a possibilidade de ter que ir embora.

Antes da sua situação de incerteza, o melhor amigo de Jain da época de faculdade o visitou recentemente por um mês, para jogar vídeo games, passear de carro e passar o máximo de tempo possível juntos.

Alguns críticos do programa de vistos H-1B dizem que há um número mais do que suficiente de americanos com formação em tecnologia para preencher todos os cargos técnicos nos Estados Unidos. Outros dizem que as empresas do Vale do Silício não ampliaram a procura o suficiente por candidatos americanos. Mas executivos da área de tecnologia há muito tempo dizem que não há um número suficiente de americanos com os conhecimentos avançados em matemática e ciências necessários para terem sucesso em suas empresas.

Gervasi disse que as empresas "deveriam ter o poder de contratar os melhores". Joshua Reeves, CEO e fundador da Gusto, concorda, observando que 8% de sua força de trabalho tem um visto ou o green card. A política de contratação da Gusto nunca levou em conta a cidadania de um candidato, e Reeves disse que a empresa estava "comprometida em se manter fiel a essa mentalidade".

Esse comprometimento pode ser colocado à prova nos próximos anos, considerando que a Casa Branca está continuamente procurando por formas de conter a imigração na tentativa de colocar em prática as políticas do "Estados Unidos em primeiro lugar".

"É quase como viver com essa…talvez não medo, mas preocupação, com o que virá pela frente", disse Jain. "Esse sentimento de não se sentir bem-vindo no país. Eu nunca havia sentido isso antes".

*Com reportagem de Vindu Goel

Tradutor: UOL

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