Motivada pelo Brexit, ilha escocesa quer a sua independência

Stephen Castle

Em Sandness (Ilhas Shetland)

  • PAULO NUNES DOS SANTOS/NYT

    6.abr.2017 - Enseada próxima a Braewick, em Shetland Islands, na Escócia

    6.abr.2017 - Enseada próxima a Braewick, em Shetland Islands, na Escócia

Com nuvens cinza se formando e a chuva caindo sobre o Atlântico, Stuart Hill aponta para um pequeno monte de terra habitado por uma lontra, algumas focas e diversas aves marinhas.

Para o resto do mundo, essa rocha estéril, inóspita e amplamente inacessível ao largo das Ilhas Shetland é parte da Escócia, na ponta mais ao norte do Reino Unido. Para Hill, esse é o Estado soberano de Forvik, cuja independência ele proclamou em 2008, argumentando que ele, juntamente com as próprias Ilhas Shetland, ricas em petróleo, não é parte nem da Escócia, nem do Reino Unido legalmente.

Desnecessário dizer que as autoridades daqui não concordam. A política confiscou três veículos de Hill depois de ele ter entrado dirigindo em Shetland com placas de Forvik criadas por ele, e ele passou 28 dias na prisão (incluindo uma breve greve de fome) por desafiar a autoridade da Justiça.

No entanto, enquanto muitos habitantes de Shetland veem Hill como um excêntrico, há um número cada vez maior deles sendo atraídos pelos clamores por mais independência para suas pitorescas e remotas ilhas.

Nesse belo arquipélago exposto ao vento, mais próximo da Noruega do que da Escócia continental, Wir Shetland, um grupo que promove o "autogoverno", conta com cerca de 400 membros e afirma ter o apoio de quatro vezes esse número.

Embora Gary Robinson, líder do Conselho das Ilhas Shetland, seja contra a independência, ele é a favor de mais autonomia. Para isso, ele está buscando conexões para além de Edimburgo e Londres, através do Conselho Nórdico, que inclui a Dinamarca e a Noruega, bem como das Ilhas Faroë e Aland. Robinson também está trabalhando com as vizinhas Órcades, cujo conselho produziu recentemente um relatório sobre a autodeterminação.

PAULO NUNES DOS SANTOS/NYT
6.abr.2017 - Barco próximo a Cunningsburgh, em Shetland Islands, na Escócia

Desencadeado pelos planos do Reino Unido de saída da União Europeia, conhecida como Brexit, o debate põe em evidência as forças de fragmentação que ameaçam transformar o Reino Unido em um grande paradoxo.

Os efeitos-dominó do Brexit foram sentidos nitidamente na Escócia, onde têm surgido novas pressões pela independência escocesa, e na Irlanda do Norte, onde têm surgido apelos por uma votação sobre a unificação das Irlandas. Mas agora a onda está chegando a Shetland, que tem uma população de 23 mil habitantes mas uma identidade distinta.

Em 2014, Shetland votou contra a independência para a Escócia, em 63,7% contra 36,2%, em um referendo que rejeitou a separação.

Mas o referendo do ano passado sobre o Brexit, no qual uma maioria de escoceses votou a favor da permanência, trouxe mais para perto outro plebiscito sobre a independência escocesa, fazendo com que os habitantes de Shetland imaginassem se eles estariam melhor controlando suas próprias questões—e as lucrativas reservas energéticas e estoques de peixes nos mares que os circundam.

Moldadas por suas raízes viking, mais do que celtas, as Ilhas Shetland têm uma cultura singular. Pequenos pôneis de Shetland são vistos com frequência em boa parte de sua paisagem, e as casas vermelhas e azuis de partes de sua capital, Lerwich, parecem mais nórdicas do que britânicas.

Hill (que vem da Inglaterra) argumentaria que isso deve ao fato de que as Ilhas Shetland não são escocesas. As ilhas foram penhoradas para o Rei Jaime 3º da Escócia em 1469 por Cristiano 1º da Dinamarca e da Noruega, em troca de um dote de casamento para sua filha.

No entanto, até hoje historiadores têm dificuldades para identificar o ponto no qual eles teriam se tornado legalmente escoceses. Daí a argumentação de Hill de que as Ilhas Shetland não pertencem nem à Escócia nem ao Reino Unido.

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Andre Manson, membra do conselho de Shetland Islands, que é a favor da independência da região

Para os críticos, a discussão sobre a independência para um pequeno grupo de ilhas, embora improvável, ressalta o risco crescente da balcanização do Reino Unido pós-Brexit.

"Nós vivemos em um mundo globalizado. Estamos em tempos de apagar linhas do mapa, e não criar novas linhas", disse o membro local do Parlamento Britânico, Alistair Carmichael. Contudo, ele admite que a relação das Ilhas Shetland com os centros de poder pode ser tensa.

"Temos um histórico de precisar dar murros em ponta de faca com Edimburgo", ele disse. "De Londres você recebe uma negligência benigna, mas você é tratado com condescendência por Edimburgo".

Enquanto inspeciona caixas de hadoque e bacalhau no movimentado mercado de peixes por atacado de Lerwich, Gary Smith, capitão de um barco pesqueiro, concorda.

"Eu nunca diria para ninguém que sou escocês, nunca", ele disse.

Shetland tem suas preocupações específicas, como os serviços de balsa e a sustentabilidade das escolas rurais, ele diz, contra um fundo um porto onde as focas sobem regularmente à superfície.

A forma como as pessoas se comportam também é diferente, e em geral elas são mais simpáticas, ele acrescentou. "Elas são mais tolerantes e não são tão voláteis", ele disse. Em Shetland, as pessoas não conseguem se evitar por muito tempo, segundo ele, então antes de começar uma discussão que possa escalar para uma briga pessoal pesada, você pensa: "Para quê tornar a vida mais difícil para você mesmo?"

No entanto, coletivamente os habitantes de Shetland estão se tornando mais briguentos. Considerando o petróleo que há abaixo do mar e os pescados das águas do entorno, existe um ressentimento furioso com a redução dos gastos públicos.

"Há um sentimento de que em Shetland todos estão trabalhando e nós estamos pagando para um fundo e sendo passados para trás", disse Smith. Ele acha que Hill tem uma boa argumentação histórica, mas brinca que ele "provavelmente está uns 400 anos atrasado".

O Conselho das Ilhas Shetland tem um fundo de reserva, financiado pela indústria do óleo, atualmente avaliada em substanciais US$375 milhões (R$1,18 bilhão), mais de US$16 mil (R$50 mil) por habitante, mas há preocupações de que ele esteja sendo esvaziado por cortes de financiamento de Edimburgo.

No St. Magnus Bay Hotel, que ela administra na bela Hillswick, Andrea Manson, membro do conselho e partidária do Wir Shetland, argumenta que se as ilhas tivessem conquistado a independência décadas atrás, "nós seríamos ricos na mesma escala que a Noruega, com milhões de libras no banco para cada pessoa. Seríamos tratados com mais respeito".

A sala de jantar é decorada com escudos viking, e Manson também insiste que os habitantes de Shetland "não se veem como escoceses", acrescentando, com uma risada, que nas ilhas "venta demais para se usar kilts".

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Stuart Hill morador da região de Lerwick, em Shetlands Islands, na Escócia

As autoridades em Edimburgo calculam que "ano após ano eles podem cortar os financiamentos e de alguma forma vamos conseguir arranjar dinheiro", ela disse.

"Talvez eles não estivessem esperando que o Wir Shetland dissesse 'basta'", ela disse, alegando que tem havido cada vez mais apoio à independência ou pelo menos ao status de um território ultramarino britânico, como as Ilhas Malvinas.

Na prefeitura de Lerwick, Robinson, líder do conselho, argumenta que os cortes de financiamento vêm mais do sistema do governo local da Escócia do que de decisões políticas, mas ele acredita que as consequências sejam injustas.

Os subsídios foram reduzidos em 23% desde 2010, segundo ele, o que levou à perda de 600 dos 2.900 funcionários do conselho.

Robinson diz que as leis feitas em Edimburgo ou Westminster muitas vezes não conseguem se adequar a uma área rural, e que o debate sobre o Brexit e a independência da Escócia fornece uma "oportunidade política" para trazer mais poder a Shetland.

Quanto a Hill, Robinson acredita que "provavelmente existe uma dúvida quanto ao status constitucional de Shetland", mas acrescentou que "as palhaçadas de Hill passaram a irritar as pessoas com o tempo".

Hill, hoje com 74 anos, chegou aqui em 2001 depois de sofrer um naufrágio ao largo de Shetland, em uma viagem infeliz ao redor do Reino Unido em um barco de 15 metros que, segundo ele, provocou o chamado a nove barcos salva-vidas e uma missão de resgate por helicóptero, rendendo-lhe o apelido de "Capitão Calamidade".

É tão difícil chegar a Forvik, que segundo Hill significa ilha da baía das ovelhas, que ele só a visita cerca de duas vezes por ano, embora ainda esteja de pé um abrigo que ele construiu no local em 2008. Hill, que é uma fonte de conhecimento jurídico e histórico autodidata, descreve a si mesmo como o primeiro-ministro interino de Forvik.

Com planos de criar um passaporte de Forvik e outra tentativa de testar a autoridade da Justiça de Shetland —desta vez a respeito de licenças de planejamento— Hill diz que acredita que ele consiga fazer das Ilhas Shetland o epicentro do "rompimento de Estados monolíticos".

Manson acredita que as gerações futuras erguerão estátuas para Hill, embora neste momento até ele admita que divide opiniões.

"Tem muita gente que apoia o que eu faço, porque sabem que meu coração está em Shetland", ele disse, antes de reconhecer: "Existe o outro lado que acha que sou simplesmente um doido, que eu deveria ir embora e cuidar da minha vida".

Tradutor: UOL

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