Primavera na Transilvânia: molhe ou seja molhado

Palko Karasz

Em Sancraieni (Romênia)

  • Andrei Pungovschi/The New York Times

    Mulher sendo molhada no ritual de primavera da Transilvânia

    Mulher sendo molhada no ritual de primavera da Transilvânia

Desde que é possível se lembrar, os rapazes de Sancraieni acordam cedo na segunda-feira após a Páscoa --assim como as mulheres e meninas, para ser ensopadas com água gelada e borrifadas com patchuli.

O "borrifamento" é um ritual de primavera no coração da Transilvânia, no centro da Romênia, quando as mulheres são regadas como flores. A água, recém-tirada de um poço, teria o poder de dar saúde, beleza e talvez até amor às mulheres que ficarem embaixo de um balde cheio.

Na manhã de segunda-feira (dia 17 neste ano), cerca de duas dúzias de rapazes em trajes tradicionais --botas pretas compridas, chapéu preto, camisa branca e calças cor de creme que parecem culotes de montar-- se reuniram na casa de Koppany Gal, 23, que trabalha em um hospital. Cerveja e salgadinhos já estavam sobre a mesa.

"É um evento importante para nós", disse Gal, que ajuda a organizar o grupo de borrifadores na aldeia há nove anos. Assim como os outros homens ali naquele dia, ele participa de um clube de dança folclórica que revive as antigas tradições desta parte do mundo.

Andrei Pungovschi/The New York Times
Crianças aguardando para participar do ritual de primavera da Transilvânia

Os homens partiram sob nuvens pesadas, marchando pelas ruas de casas térreas com telhados de argila vermelha. Alguns carregavam instrumentos tradicionais, e todos cantavam. Esperavam beber e comer bem naquele dia: as meninas e suas mães em toda a aldeia costumam passar o fim de semana preparando doces, bebidas e lanches, incluindo ovos pintados de vermelho. Os homens seriam bem-vindos a tudo isso, o dia todo.

Nas casas onde eles param, moças com vestidos folclóricos em vermelho, preto e branco saem para escutar. Os homens recitam um poema que termina com "Posso servir?"

Depois que a mulher consente com um alegre e previsível "sim", dois homens a seguram enquanto um terceiro joga água fria de um balde enfeitado com cravos vermelhos.

"Que bom que eles lembraram de mim", disse Hajnalka Cseke, 18, que também dança no grupo folclórico. "É bom ver todos nós reunidos aqui."

Cseke, molhada, acompanhou sua irmã para pegar bandejas de doces da época e vinho e oferecer aos visitantes.

É claro que algumas mulheres da região não gostam da tradição, considerando-a antiquada e até sexista. Algumas apenas a suportam, como uma visita incômoda mas obrigatória de um parente.

Não havia sinal disso naquela segunda-feira em Sancraieni, que se estende para cima de uma estrada rural de duas pistas que serpenteia pelo vale amplo, chegando à beira da floresta de pinheiros que sobe pelas montanhas ao redor. A população local, geralmente de língua húngara, faz parte de uma minoria de húngaros étnicos que viviam principalmente na região da Transilvânia. Eles chamam a aldeia por outro nome, Csikszentkiraly.

Andrei Pungovschi/The New York Times
Homens tocam instrumentos durante o ritual de primavera da Transilvânia

Muitos aqui veem o ritual do borrifamento como uma maneira de manter viva a tradição. O grupo de dança folclórica que inclui os homens que carregam a água reviveu diversas tradições que desapareceram ou se modificaram nos centros urbanos.

"Eventos como este fornecem a base para um sentido de identidade", disse Szilveszter Kelemen, 31, o líder do grupo. "Se uma pessoa não tem cultura, acaba desmoronando."

Na maioria dos lugares, trajes tradicionais e baldes de água deram lugar a roupas domingueiras e vidros de perfume, ou mesmo desodorante spray.

"Esse traje não é muito confortável", disse Kelemen sobre suas calças e camisa. "As calças são feitas de um material áspero, que coça."

A tradição de molhar as pessoas com água não se limita à Transilvânia. Ela atravessa a Europa Central e do Leste, diferindo entre a Romênia e a Polônia, abrangendo a Hungria, a Eslováquia e a Ucrânia.

Na Polônia, o dia é chamado de Segunda-Feira Molhada. Em outras partes da Europa, há bombas e pistolas de água; os bombeiros já foram vistos usando mangueiras contra incêndio. As meninas em certas regiões recebem suaves chicotadas com um ramo jovem de salgueiro; os rapazes recebem água atirada neles no dia seguinte.

Os poemas pedindo permissão tornaram-se mais ousados, e hoje é comum enviá-los como mensagens de texto em vez de realmente visitar as moças.

O ritual data do século 18, mas suas origens são imprecisas, segundo Hannah Foster, curadora do Museu de Etnografia de Budapeste. Muitas fontes o atribuem ao batismo.

"A forma permanece e os dispositivos mudam", disse ela em uma entrevista por telefone. "A tradição é mantida em graus variados de aldeia para aldeia, dependendo do nível de isolamento e dos grupos étnicos."

A Páscoa tornou-se secularizada na maior parte da Europa, com o declínio constante da religião e da frequência a igrejas. É um feriado altamente comercial, sinônimo de ovos de chocolate e um fim de semana prolongado. Neste fim de semana de Páscoa, os bares e clubes na cidade de Miercurea Ciuc, perto de Sancraieni, estavam tão cheios quanto as igrejas, ou mais.

Mas apesar da modernização, da urbanização e da perseguição religiosa sob os antigos governos comunistas o borrifamento sobreviveu.

Andrei Pungovschi/The New York Times
Ritual de primavera da Transilvânia, onde mulheres são molhadas

As crianças também participam do ritual.

Anna Kassay, 14, recebeu a visita de colegas à porta de seu prédio de apartamentos. Mesmo depois de ser molhada por seis garrafas de água mineral ao mesmo tempo, ela agradeceu a seus visitantes.

"Isso me faz sentir realmente importante", disse ela.

Maria Gal, uma funcionária municipal, estava acompanhando equipes de TV da Romênia e da Hungria que estavam curiosas para ver como sua aldeia mantinha os costumes. Ela disse que as tradições como o borrifamento e o grupo de dança folclórica ajudam os jovens a preservar sua identidade e lhes dá um sentido de comunidade.

A aldeia, cuja principal atividade é, exatamente, água, tem pouco mais a oferecer. Muitos moradores trabalham na fábrica que engarrafa água mineral das fontes locais. Outros vão trabalhar em Miercurea Ciuc ou se mudam para a Europa ocidental em busca de melhores salários, principalmente na agricultura sazonal.

O livre movimento no interior da União Europeia trouxe a promessa de uma vida melhor a centenas de milhares de pessoas, mas deixou muitas profissões locais em dificuldades, e as aldeias perderam seus jovens.

"É importante evitar que eles emigrem", disse Gal. "Ou inspirá-los a voltar, mesmo que vão trabalhar no exterior."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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