Antes 'celebrado' na cultura mexicana, machismo começa a ser questionado no país

Paulina Villegas

Na Cidade do México

  • Adriana Zehbrauskas/The New York Times

    Grupo se reúne em sessão para discutir a cultura do machismo, na Cidade do México

    Grupo se reúne em sessão para discutir a cultura do machismo, na Cidade do México

O machismo há muito está entranhado na sociedade mexicana. O privilégio masculino, que se reflete em telenovelas, filmes, ambientes de trabalho, famílias e relacionamentos amorosos, é tolerado e até mesmo celebrado.

Mas os tempos estão mudando para o machista mexicano.

Os índices crescentes de crimes contra mulheres nos últimos anos e um movimento de direitos das mulheres que vem se fortalecendo forçaram os mexicanos a começarem a falar sobre o machismo e os danos que ele causa através do sexismo, da misoginia e da violência.

A iniciativa ganhou um impulso no Dia Internacional da Mulher em março, quando o presidente Enrique Peña Nieto convocou o México a "lançar um ataque frontal contra todas as expressões do machismo". Ele fez um apelo pela erradicação de uma "cultura profundamente machista", que "acaba gerando uma violência verdadeira contra as mulheres".

Embora ativistas dos direitos das mulheres vejam o reconhecimento público do problema —bem como algumas conquistas políticas e legislativas para as mulheres— como um bom começo, eles estão céticos quanto à mudança da sociedade. Eles dizem que isso só pode acontecer confrontando-se as ideias arraigadas que alimentam o machismo.

Gendes, um grupo de pesquisa e ativismo na Cidade do México que procura melhorar o comportamento masculino através de terapia, educação e campanhas de conscientização pública, está tentando fazer exatamente isso.

Jorge, um professor universitário da Cidade do México que pediu para não ter divulgado seu sobrenome para proteger a privacidade de sua família, viu um panfleto anunciando uma terapia de grupo e decidiu fazer uma tentativa.

A relação com sua mulher havia se deteriorado após um episódio de violência. Uma noite, sua mulher chegou 30 minutos atrasada para encontrá-lo para um filme, e ele sentiu que ela não parecia suficientemente arrependida. A briga migrou da calçada para o apartamento deles, onde, em um acesso de fúria, Jorge a jogou no chão e deu um soco em seu rosto, fazendo seu nariz sangrar.

Ele disse que era a primeira vez no relacionamento deles que sua raiva havia se tornado física, e ele temia que sua mulher fosse deixá-lo.

"Eu precisava fazer alguma coisa", disse Jorge em uma entrevista. "Eu tinha curiosidade em saber se era algo que eu de fato poderia mudar e se eu conseguiria aprender novas formas de me relacionar com as pessoas, especialmente as mulheres".

Ruben Guzmán, um orientador da Gendes, disse que o objetivo era "se libertar da pessoa que lhe ensinaram a ser".

A terapia gratuita, oferecida três vezes por semana, procura questionar e abordar as crenças culturais que estão no cerne do machismo, disse Antonio Vargas, diretor e fundador da Gendes, que recebe financiamento privado.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times
Homens em sessão que discute a cultura do machismo, na Cidade do México

Em uma pequena sala de reuniões no escritório da Gendes, cerca de uma dúzia de homens, incluindo Jorge, tentavam trabalhar sua propensão à raiva e à misoginia.

Para essa sessão, Jorge trouxe o relato de um novo acesso de fúria. Sua mulher o havia pego olhando para fotos de outra mulher em seu iPad.

Ele tentou justificar seu comportamento. "Olhar não é pecado. É parte de ser homem, e todo mundo faz isso", ele disse. "Sou muito burro de não apagar o histórico de buscas".

Guzmán, o orientador, o interrompeu: "O que você estava fazendo naquele momento?"

Jorge, um veterano de muitas sessões, permaneceu calado, e outro membro do grupo, Héctor, que assim como os outros homens não quis revelar seu sobrenome,  quebrou o silêncio. "Justificando-se", ele disse.

"Que tipo de violência é essa?", o orientador perguntou a Jorge.

"Emocional e sexual", respondeu Agustín, outro membro.

"Por quê?", continuou o orientador.

"Porque é um rompimento de acordos de sinceridade e fidelidade", disse Jorge.

Em uma entrevista posterior, Jorge disse que tem se esforçado muito para extirpar seu machismo. Ele diz que essa tendência se originou em sua infância, que ele passou em um bairro pobre na periferia da Cidade do México.

"Era um lugar onde se você não fosse violento com os outros, você era uma vítima da violência", ele disse. "Mas não quero que meu filho se torne um pequeno machista, ou que minha filha pense que a única forma de se resolver as coisas é através da violência".

As mulheres fizeram conquistas significativas em cargos eletivos no México, em parte por causa de uma série de medidas que garantiam uma maior participação delas na política. Mais recentemente, uma lei de 2014 requeria que metade de todos os candidatos apresentados por um partido político em eleições legislativas federais ou estaduais fossem mulheres.

ADRIANA ZEHBRAUSKAS/NYT
Ruben Guzman em sessão onde se discute a cultura do machismo, sexismo, misoginia e violência, na Cidade do México

E, uma década atrás, o Congresso mexicano aprovou uma lei que esboçava uma estrutura legal para todos os níveis de governo para prevenir, abordar e punir a violência de gênero.

Gloria Careaga, uma professora de estudos de gênero na Universidade Nacional Autônoma do México, disse que os papeis de gênero começaram a mudar, mas os homens não aprenderam como encontrar novas formas de se relacionar com as mulheres.

"Os homens daqui não aprenderam nenhuma forma alternativa de como ser um homem neste país", disse Careaga.

Segundo ela, essa tensão levou muitos homens a usarem de violência.

O Observatório Cidadão Nacional do Feminicídio, uma coalizão de grupos de direitos humanos e da mulher no México que estuda a violência contra mulheres, relatou que os números anuais de homicídios de mulheres mais do que dobrou entre 2007 e 2015, passando de 1.086 para 2.555.

No ano passado, mexicanos de dezenas de cidades foram às ruas na primeira manifestação de coordenação nacional contra o machismo e a violência contra mulheres.

Grandes empresas mexicanas também estão entrando na discussão. A Tecate, uma popular marca de cerveja, estreou uma campanha publicitária televisiva no verão passado que trazia uma mulher coberta de machucados. "Um homem é definido pela forma como ele trata uma mulher", dizia a narração. "Se você não respeita mulheres, a Tecate não é para você. Não queremos que você compre nossa cerveja".

Mas é difícil abandonar hábitos antigos.

"É muito conveniente e confortável ser homem no México, tem várias vantagens", disse Vargas, fundador da Gendes. "Não é fácil abrir mão dos privilégios".

Os homens das sessões de terapia de grupo da Gendes sabem disso muito bem, considerando as dificuldades que eles tiveram para reconhecer, entender e mudar seu comportamento.

Em uma sessão recente, os homens olhavam fixamente para o chão. A conversa foi pontuada por suspiros profundos.

Um homem chamado Alejandro disse que sua namorada havia descoberto que ele enviara mensagens de cunho sexual pelo WhatsApp a uma vizinha. Os orientadores o incentivaram a examinar seu comportamento.

"Eu tentava controlá-la flertando com nossa vizinha pelas suas costas", ele admitiu. "É uma violência emocional e sexual".

Outro homem, Federico, admitiu que tentou intimidar sua irmã chutando uma porta e quebrando uma janela. Fabián disse que respondeu às acusações de infidelidade feitas por sua namorada empurrando-a para fora de sua cama. Héctor confessou que agarrou sua mulher pelos braços e exigiu que ela o ouvisse.

Guzmán, o orientador, pediu que os homens dessem nomes às emoções que eles estavam sentindo depois de ouvir às confissões uns dos outros. Medo, eles disseram. Tristeza. Esperança.

Após a sessão, Jorge refletiu sobre seu progresso e o caminho incerto que o aguardava pela frente.

"A questão agora é: o que mais posso fazer para mudar?", ele disse. "É de fato possível viver sem violência? Tenho esperanças de que seja".

 

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos