Presidente do Uber desrespeita regras para dominar mercado

Mike Isaac

Em San Francisco (EUA)

  • JULIE GLASSBERG/NYT

    Travis Kalanick presidente-executivo e fundador do Uber, em Nova York

    Travis Kalanick presidente-executivo e fundador do Uber, em Nova York

Travis Kalanick, o presidente-executivo do Uber, visitou a sede da Apple no início de 2015 para se encontrar com Timothy D. Cook, que comanda a fabricante do iPhone.

Por meses, Kalanick conseguiu enganar a Apple, orientando seus funcionários a ajudarem a camuflar o aplicativo de transporte compartilhado dos engenheiros da Apple. O motivo? Para que a Apple não descobrisse que o Uber estava secretamente identificando e marcando iPhones, mesmo após seu aplicativo ser deletado ou o aparelho ter a memória apagada, uma manobra de detecção de fraude que violava as diretrizes de privacidade da Apple.

Mas a Apple estava ciente do logro, de modo que quando Kalanick chegou para a reunião no meio da tarde, Cook estava preparado. "Soube que você vem violando algumas de nossas regras", disse Cook. O presidente-executivo da Apple então exigiu ele deixasse de trapacear ou o aplicativo do Uber seria removido da loja de aplicativos de sua empresa.

Se o aplicativo do Uber fosse removido da loja da Apple, ele perderia o acesso a milhões de usuários do iPhone, basicamente destruindo o negócio da empresa de transporte urbano. Assim, Kalanick cedeu.

Na busca por transformar o Uber na entidade dominante de carona compartilhada do mundo, Kalanick abertamente desprezou muitas regras e normas, recuando apenas quando pego ou acuado. Ele desrespeitou regras de transporte e segurança, se opôs a concorrentes arraigados e explorou brechas legais e áreas cinzentas para obter vantagens nos negócios. No processo, Kalanick ajudou a criar um novo setor de transportes, com o Uber se espalhando por mais de 70 países e a empresa valorizando para quase US$ 70 bilhões, além de seus negócios continuarem crescendo.

Mas o encontro antes não noticiado com Cook mostrou que Kalanick também foi responsável por assumir riscos além dos limites.

RYAN YOUNG/NYT
Funcionários na sede do Uber, em São Francisco


Segundo entrevistas com mais de 50 atuais e ex-funcionários, investidores e outros com os quais o executivo teve um relacionamento pessoal, Kalanick, 40 anos, é movido pelo desejo de vencer a qualquer custo naquilo que dedica sua atenção, uma característica que agora mergulha o Uber em uma série sustentada de crises como nunca visto desde sua fundação em 2009.

"O ponto mais forte de Travis é que colidirá com um muro para atingir suas metas", disse Mark Cuban, o dono do time de basquete Dallas Mavericks e investidor bilionário que foi mentor de Kalanick. "O ponto mais fraco de Travis é que colidirá com um muro para atingir suas metas. Essa é a melhor forma de descrevê-lo."

O desprezo por limites levou Kalanick a um padrão de excessos por parte do Uber, sabotando concorrentes e permitindo que a empresa usasse uma ferramenta secreta chamada Greyball para ludibriar algumas agências de manutenção da lei.

Essa característica também se estende a sua vida pessoal, onde Kalanick se mistura com celebridades como Jay Z e empresários como o principal assessor econômico do presidente Donald Trump, Gary D. Cohn.

Nos últimos meses, o Uber sofreu um baque após alegações de alimentação de machismo no local de trabalho, onde os gerentes rotineiramente abusavam verbal, física e às vezes até sexualmente dos funcionários.

Os detratores do Uber deram início a uma campanha popular com o hashtag #deleteUber. Executivos se afastaram. Alguns investidores do Uber criticaram abertamente a empresa.

HIROKO MASUIKE/NYT
Trânsito de Nova York


A liderança de Kalanick se encontra em uma situação precária. Ele pediu desculpas publicamente por parte de seu comportamento e está entrevistando candidatos para o cargo de diretor de operações. Ele também tem trabalhado com gerentes seniores para corrigir alguns dos valores declarados da empresa.

Por meio de um porta-voz do Uber, Kalanick recusou um pedido de entrevista. A Apple se recusou a comentar sobre a reunião com Cook. Muitas das pessoas entrevistadas para este artigo pediram para permanecer anônimas, por terem assinado acordos de confidencialidade com o Uber e por temerem prejudicar seu relacionamento com o presidente-executivo.

Vendendo eficiência

Após cursar engenharia de computação na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Kalanick abandonou o curso em 1998 para formar uma startup com vários colegas de classe. A empresa, Scour, se transformou em uma de troca de arquivos peer-to-peer semelhante ao Napster.

A Scour, que posteriormente foi processada em US$ 250 bilhões por suposta violação de direitos autorais, pediu falência em outubro de 2000, uma decisão que a protegeu do processo. O fracasso não impediu Kalanick de fundar outra startup em Los Angeles, a Red Swoosh, quatro meses depois. A Red Swoosh criou uma tecnologia para transferência eficiente de grandes arquivos de dados digitais. Um de seus investidores era Cuban.

Com a Red Swoosh, Kalanick começou a exibir sua agressividade característica. Quando a empresa começou a ter dificuldades, Kalanick e um sócio pegaram o dinheiro do percentual dos contracheques dos funcionários que deveria ser retido na fonte para a Receita Federal e o reinvestiu na startup, mesmo com amigos e conselheiros o alertando que a ação era potencialmente ilegal.

Em 2007, Kalanick vendeu a Red Swoosh para a Akamai, uma empresa de serviços de nuvem, por cerca de US$ 19 milhões. O acordo transformou o executivo, que se mudou para San Francisco, em um milionário.


A ascensão do Uber
 

A ideia para o Uber veio em 2009 por Garrett Camp, um amigo de Kalanick que estava fixado em chamar um carro de luxo privado por meio de um aplicativo no smartphone após não conseguir pegar táxis em San Francisco.

O UberCab, como era chamado na época, iniciou seu serviço em San Francisco em maio de 2010.

Kalanick posicionou rapidamente a startup como uma alternativa aos serviços de táxi. Regulamentações em várias cidades exigiam procedimentos como estações de base para os táxis, medidas de segurança e outras estipulações. Kalanick ignorou essa regras.

A empresa tipicamente enviava uma pequena equipe de ataque a uma nova cidade para recrutar agressivamente novos motoristas por meio da empresa de anúncios online Craigslist e outras. Então a equipe divulgava o aplicativo UberCab para aumentar o número de passageiros.

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Taxistas protestam contra o Uber, em Nova York


Isso chamou a atenção dos reguladores. Em outubro de 2010, a empresa encurtou seu nome para Uber, após receber uma carta das autoridades de San Francisco para cessar a atividade, por se apresentar como uma empresa de táxi sem as licenças e permissões apropriadas.

O Uber ingressou na China em 2013, e Kalanick gastou bilhões de dólares para superar a empresa local Didi Chixing, apenas para recuar no ano passado, em parte devido a prejuízos elevados. Kalanick agora está gastando em peso na Índia para vencer lá.

Pela vitória

Com Kalanick estabelecendo o tom no Uber, os funcionários passaram a agir para assegurar que a empresa de transporte compartilhado vencesse a qualquer custo.

Eles dedicaram grande parte de sua energia para superar rivais como o Lyft. O Uber dedicou equipes para inteligência competitiva, comprando dados de um serviço de análise chamado Slice Intelligence. Usando um serviço de lista de e-mails chamado Unroll.me, a Slice coletou as faturas do Lyft enviadas às caixas de entrada de e-mails de seus clientes e as vendeu ao Uber com a identidade dos clientes protegida. O Uber usou os dados para avaliar a saúde dos negócios do Lyft.

A Slice confirmou que vende dados anônimos baseados nas faturas do Uber e Lyft, mas se recusou a revelar como compra a informação.

A ideia de ludibriar a Apple, a principal distribuidora do aplicativo do Uber, começou em 2014.

Na época, o Uber lidava com ampla fraude de contas em lugares como a China, onde vigaristas compravam iPhones roubados que tinham sua memória apagada e os revendiam. Alguns motoristas do Uber dali passaram a criar dezenas de endereços falsos de e-mail para inscrição em novas contas de passageiros do Uber ligadas a cada telefone, e chamavam carros a partir desses telefones, que então aceitavam. Como o Uber dava incentivos aos motoristas para realizarem mais viagens, os motoristas conseguiam ganhar mais dinheiro dessa forma.

Para acabar com essa atividade, os engenheiros do Uber passaram a atribuir uma identidade persistente aos iPhones na forma de um pequeno código, uma prática chamada de "impressão digital". O Uber então podia identificar um iPhone e impedir de ser enganado, mesmo após o aparelho ter seu conteúdo apagado.

Mas havia um problema: marcar os iPhones violava as regras da Apple. Cook acreditava que apagar os dados de um iPhone assegurava que nenhum traço da identidade do proprietário permaneceria no aparelho.

Assim, Kalanick instruiu seus engenheiros a estabelecerem um perímetro virtual em torno da sede da Apple, em Cupertino, Califórnia, como forma de identificar digitalmente pessoas analisando o software do Uber em um local específico. O Uber então ofuscava seu código de pessoas dentro da área estabelecida, basicamente prendendo em um laço digital as pessoas que queria manter no escuro. Os funcionários da Apple na sede da empresa eram incapazes de ver a marcação dos iPhones pelo Uber.

Mas os engenheiros da Apple fora de Cupertino pegaram os métodos do Uber, levando Cook a chamar Kalanick a seu escritório.

Kalanick saiu abalado com a repreensão que recebeu de Cook, segundo uma pessoa que o viu após a reunião.

Mas isso foi apenas momentâneo. Afinal, Kalanick enfrentou a Apple e o Uber sobreviveu. Ele estava vivo para lutar outro dia.

*Doris Burke contribuiu com pesquisa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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