Seis anos depois, Fukushima recebe suas crianças de volta

Motoko Rich

Em Naraha (Japão)

  • TOMOHIRO OHSUMI/NYT

    Crianças brincam na área de lazer da escola, em Nahara, no Japão

    Crianças brincam na área de lazer da escola, em Nahara, no Japão

As crianças voltaram a Naraha nesta primavera.

Durante mais de quatro anos, os moradores foram proibidos de entrar nesse vilarejo em Fukushima por causa do terremoto e do tsunami que causaram a fusão na usina nuclear ao norte da cidade, em março de 2011. Quando o governo suspendeu a ordem de evacuação, em 2015, os que retornaram eram principalmente idosos que pensaram que voltar para casa valia o risco de radiação residual.

Mas neste mês, seis anos após o desastre, 105 estudantes compareceram à escola elementar e média de Naraha para o início do ano escolar japonês.

Todas as manhãs, os funcionários do refeitório medem a radiação nos ingredientes frescos usados para fazer o almoço. Em algumas séries, apenas seis alunos recebem aulas em classes que foram construídas para receber até 30. No primeiro ano do ensino médio, não há alunos suficientes para formar um time de beisebol no novo campo ao lado da escola.

Mas a volta dos escolares, os mais jovens dos quais nasceram no ano do desastre, foi um sinal poderoso da renovação dessa cidade, que fica na zona de exclusão original de aproximadamente 20 km ao redor da usina de Fukushima.

Reabrir a escola é "muito, muito importante", disse Sachiko Araki, diretora do colégio. "Uma cidade sem escola não é realmente uma cidade."

A nova escola, que custou US$ 18 milhões (cerca de R$ 56 milhões), tem dois andares com piso de madeira brilhante, classes espaçosas, dois laboratórios de ciências, uma biblioteca cheia de novos livros e um grande ginásio para basquete. Um terraço nos fundos do prédio dá para o mar.

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Crianças tem aula em escola primária em Nahara, no Japão

Muitas emoções influíram na decisão das famílias que voltaram a Naraha, que sempre foi uma cidade pequena, com pouco mais de 8.000 habitantes antes do acidente. Até agora, só um em cada cinco moradores voltou.

Um banco, agência de correio e clínica médica já estão abertos, mas o supermercado ainda está em construção. Como os bairros ficaram vazios durante tanto tempo, porcos selvagens às vezes andam pelas ruas.

Com milhares de sacos de solo contaminado empilhados nos campos em torno da cidade, e medidores de radiação colocados em estacionamentos, a memória do desastre nuclear nunca está longe.

Na escola de Naraha, que estava em construção quando houve o desastre ambiental, trabalhadores destruíram um alicerce que tinha acabado de ser feito e recomeçaram, retirando montes de terra na tentativa de descontaminar o local.

Hoje a radiação é monitorada regularmente no terreno da escola, assim como nas ruas que levam a ela. O governo central, com base em recomendações da Comissão Internacional de Proteção Radiológica, estabeleceu uma exposição máxima de 0,23 microsieverts por hora, nível em que não há evidência científica concreta de aumento do risco de câncer. (Os microsieverts [msv] medem os efeitos para a saúde de baixos níveis de radiação.)

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Cuidadoras andam com crianças ao lado de fora da escola, em Naraha, no Japão

Mas alguns professores dizem que tomam um cuidado extra. Aya Kitahara, professora da quinta série, disse que ela e seus colegas decidiram que não é seguro deixar as crianças colherem pinhões ou cones de pinheiros para projetos de arte, por temerem que eles recebam pequenas doses de radiação.

Ali perto, uma escola infantil e creche foi construída principalmente com dinheiro da operadora da usina nuclear, a Tokyo Electric Power Co., em 2007 e reabriu neste mês. Sua diretora, Keiko Hayakawa, disse que ficou surpresa que a cidade tenha pressionado para trazer de volta as crianças antes que todos os sacos de solo contaminado fossem retirados.

"Tivemos de correr para abrir esta escola assim que possível", disse Hayakawa em uma manhã, quando crianças de 3 e 4 anos corriam pelo amplo playground, trepavam numa "gaiola", andavam de triciclo e brincavam numa caixa de areia. "Do contrário, havia o temor de que as pessoas nunca voltassem."

Os cálculos da exposição à radiação são no mínimo imprecisos. Eles não conseguem detectar solo contaminado pela chuva que pode se acumular nas sarjetas ou outras fendas. O risco de doenças depende de muitas variáveis, que incluem idade, atividades e condições gerais de saúde.

"Não quero acusar ninguém de ser conscientemente descuidado", disse Kyle Cleveland, professor-associado de sociologia na Universidade Temple, em Tóquio, que escreveu sobre os efeitos psicológicos do desastre de Fukushima. Mas as autoridades japonesas, segundo ele, "têm todo o interesse em minimizar o nível de risco e dar uma visão positiva da coisa".

Reanimar as cidades de Fukushima também é prioridade para o governo central. Com a Olimpíada de 2020 a ser realizada em Tóquio, o primeiro-ministro Shinzo Abe quer cumprir sua promessa de que a limpeza de Fukushima está "sob controle".

"Realmente cabe a cada indivíduo se irá aceitar o meio ambiente atual ou não", disse Kentaro Yanai, superintendente do distrito escolar de Naraha. "Mas nós fizemos o melhor que pudemos até agora para reduzir os níveis de radiação."

Para as famílias jovens, outros fatores além dos riscos de radiação pesaram na decisão de retornar. Alguns tinham saudade do local que é o lar de suas famílias há gerações, enquanto outros gostavam do fato de ter mais espaço em Naraha.

Como o pagamento de indenizações para os evacuados começará a expirar no próximo ano, alguns moradores garantiram empregos trabalhando para o governo municipal ou para empreiteiras envolvidas na reconstrução. Outros são empregados da Tokyo Electric, que está coordenando a enorme faxina na usina de Fukushima Daiichi.

Ayuka Ohwada, 29, tinha pensado originalmente que ela e sua família ficariam em Iwaki, cidade com cerca de 340 mil habitantes a mais de 30 km ao sul, onde muitos moradores de Naraha moraram durante a evacuação. Quando seus pais voltaram para a antiga casa, porém, Ohwada e seus filhos, de 8 e 6 anos, começaram a visitá-los nos fins de semana.

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Ryuya Kusano lendo história em quadrinhos, na biblioteca da escola primária em Nahara, no Japão

"Eu comecei a pensar que talvez o campo seja um ambiente muito melhor para meus filhos", disse Ohwada, cujos pais lhe ofereceram um terreno para construir uma nova casa. Ohwada, que estava empregada em uma loja de conveniência antes de conseguir um emprego na Prefeitura, disse que ela e seu marido, que trabalha em uma cidade próxima numa empresa que participa da descontaminação, não poderiam pagar por uma casa familiar em Iwaki.

Em Naraha, a escola está fazendo o possível para ajudar no retorno das jovens famílias.

O prédio, que foi projetado inicialmente para a escola de segundo grau, hoje também abriga duas escolas elementares. Há mais conselheiros para ajudar os estudantes a superar suas ansiedades, e as classes de quinta e sexta séries têm dois professores cada. Todos os alunos receberão tablets, e o almoço e o uniforme escolar são gratuitos.

Yuka Kusano, 37, disse que seus filhos se acostumaram com grandes classes enquanto estiveram em Iwaki. Mas depois de se matricular na escola de Naraha neste mês, disse ela, eles gozam de uma atenção individualizada, rara nas escolas japonesas.

Sua filha Miyu, de 12 anos, está na sétima série com apenas mais cinco colegas, e seu filho, Ryuya, 9, numa classe de quarta série com 13 alunos.

"É realmente um luxo", disse Kusano. Mas como há poucas crianças em Naraha ela leva Ryuya até Iwaki nos fins de semana para ele jogar no time de softball, um tipo de beisebol infantil.

Há indícios do turbilhão que os estudantes suportaram nos seis anos desde o tsunami. Durante uma apresentação recente para os pais, uma menina com grandes óculos pretos disse que sofreu com tantas mudanças.

"Agora estou bem", disse ela. "Só quero manter a estabilidade em minha vida."

Essa estabilidade é um dos motivos pelos quais muitas famílias com crianças pequenas decidiram não voltar.

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Casas não habitadas em Naraha, no Japão

Tsutomu Sato, diretor de uma casa de repouso e pai de três meninas, de 9, 5 e 2 anos, disse que a família se mudou sete ou oito vezes depois de ser evacuada de Naraha.

"Eu apenas quero construir uma base para minha família assim que possível", disse Sato, que comprou uma casa em Iwaki, no bairro de Yumoto. Ele disse que sua filha mais velha chorava sempre que ele levantava a possibilidade de voltar para Naraha, onde seus pais e sua avó estavam reformando sua casa e pretendiam voltar no próximo ano.

No exílio, Sato mantém uma forte ligação com sua cidade natal e formou um grupo de voluntários, o Naranoha, que organiza eventos culturais para reunir os ex-moradores espalhados por toda a região. Ele disse que se seus pais ficassem muito frágeis para cuidar de si mesmos ele consideraria voltar.

"Com ou sem o desastre, temos de tomar decisões na vida conforme nossas circunstâncias", disse.

Em Naraha, o prefeito Yukiei Matsumoto disse que pesquisas mostram que quase 75% dos ex-moradores querem voltar um dia.

"Para eliminar o estigma que as pessoas têm", disse ele, "nós voltamos para mostrar ao resto do país e do mundo que estamos vivendo bem." Mas ele admitiu que se mais jovens não voltarem a cidade terá um futuro sombrio.

Kazushige Watanabe, 73, disse que voltou apesar de o tsunami ter destruído sua casa e seus filhos morarem fora do município de Fukushima.

Ele se mudou para um pequeno chalé construído pela Prefeitura em uma nova subdivisão no centro da cidade, onde mora sozinho desde a morte de sua mulher, em janeiro.

Watanabe mostrou uma casa depois da esquina, para onde uma família com três filhos se mudou recentemente. "Posso ouvir as vozes das crianças. Isso é muito bom", disse.

*Hisako Ueno colaborou na reportagem.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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