500 anos após serem expulsos, judeus da Sicília reivindicam sua história

Elisabetta Povoledo

Em Palermo (Sicília)

  • GIANNI CIPRIANO/NYT

    Placa de rua com escritos em árabe e hebreu, colocada na parede para sinalizar que a área uma vez foi ocupada por uma grande sinagoga

    Placa de rua com escritos em árabe e hebreu, colocada na parede para sinalizar que a área uma vez foi ocupada por uma grande sinagoga

Os judeus da Sicília foram banidos dessa ilha em 1492, vítimas de um decreto espanhol que forçou milhares de pessoas a irem embora e outras a se converterem ao catolicismo romano.

Passados mais de 500 anos, uma comunidade judaica emergente está criando novas raízes na capital siciliana, reivindicando uma história perdida, muitas vezes dolorosa, desta vez com a ajuda da diocese local.

O arcebispo de Palermo, Corrado Lorefice, concedeu à comunidade emergente o uso de um oratório desocupado, a ser transformado na primeira sinagoga permanente de Palermo em cinco séculos.

E, para muitos, já não era sem tempo.

"A comunidade judaica é parte de Palermo, parte de sua história; os judeus estiveram aqui por 15 séculos", disse Evelyne Aouate, uma argelina de nascimento criada em Paris que se mudou para o local, cuja exploração cada vez mais profunda de suas próprias raízes impulsionou os esforços para se encontrar um lar para a comunidade.

Esse lar será naquilo que era conhecido como Giudecca, o antigo bairro judaico de Palermo. O labirinto de prédios em ruínas ainda não gentrificados no centro da cidade é repleto de ruas estreitas cujos nomes ainda remetem a parte dessa história, como Piazza Meschita, a palavra em árabe tanto para sinagogas quanto para igrejas, ou Via dei Calderai, para os funileiros cujas oficinas preenchem a rua desde sempre praticamente.

GIANNI CIPRIANO/NYT
Rabiscos de prisioneiros nas paredes do Palazzo Chiaramonte-Steri, local que já foi prisão e tribunal da Inquisição e hoje faz parte da Universidade de Palermo

Alguns anos atrás, placas de rua trilíngues —em italiano, hebraico e árabe— foram colocadas de sinalização na região como uma referência ao rico passado da cidade. Mas "o hebraico está errado, está malfeito"—uma transliteração incorreta, de acordo com Maria Antonietta Ancona, uma anestesista aposentada que atende por seu nome judaico, Miriam. "Eles não traduziram, só substituíram os caracteres italianos por caracteres hebraicos, então não faz sentido", ela disse.

Ela deve saber, uma vez que começou a estudar hebraico há 10 anos como parte de sua conversão ao judaísmo.

Assim como outros membros da comunidade emergente de Palermo, Ancona, que foi criada como uma católica romana embora seu pai fosse judeu, começaram a recuperar suas raízes há 30 anos como parte de uma "necessidade premente" de aceitar sua identidade judaica.
 
A nova sinagoga —na Vicolo Meschita, parte de uma área outrora ocupada pela Grande Sinagoga de Palermo— será abrigada em um antigo oratório barroco conhecido como Santa Maria del Sabato.

É um nome atípico para uma igreja, observou Luciana Pepi, que ensina língua, cultura e filosofia hebraica na Universidade de Palermo, e é também um membro convertido e ativo da comunidade judaica local.

"Alguns acadêmicos levantaram a hipótese de que o nome pode estar relacionado com a memória da celebração do Shabbat", o dia judaico de descanso semanal, segundo ela.

Recentemente, Pepi, Ancona e Aouate —que lideraram os esforços para abrir uma sinagoga— cismaram com a entrada para o oratório, tendo se atrapalhado com um cadeado em um portão de ferro. Usando uma chave grande demais, com alguma dificuldade, elas finalmente abriram uma porta alta de madeira.

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Oratório barroco conhecido como Santa Maria del Sabato, em Palermo

As três mulheres pararam na entrada, admirando uma nave suavemente iluminada, onde bancos de madeira dilapidados e uma tinta amarela descascando revelavam décadas de abandono. O elaborado altar ainda estava na abside, mas uma miscelânea de estátuas e crucifixos já havia sido retirada.

"Aqui está", disse Aouate. "É linda, mas ainda há muito a ser feito".

Isso inclui a reintrodução de cidadãos de Palermo a uma história que muitos nem sabiam que eles tinham.

Por muitos anos "os livros de história ignoraram a presença judaica na cidade, como se fosse uma tentativa de anulá-la", disse Ancona. Pepi acrescentou: "Palermo não conhecia sua própria história".

Isso tem mudado, em grande parte como resultado do trabalho de Aouate e de um pequeno grupo de entusiastas, inclusive católicos, que há 25 anos fundaram o Instituto Siciliano de Estudos Judaicos, dedicado a recuperar a identidade judaica da ilha.

"Aos poucos estamos tentando renovar essa memória", disse Aouate.

Os estudos acadêmicos também preencheram muitas das lacunas do passado judaico da Sicília.

Documentos mostram que os judeus estiveram na Sicília pelo menos desde o primeiro século d.C., e permaneceram na ilha até o decreto de 1492. A certa altura, havia 51 comunidades aqui, sendo Palermo a maior e mais importante de todas.

Os historiadores dizem que o decreto afetou pelo menos 35 mil judeus sicilianos, incluindo pelo menos 5 mil em Palermo. Alguns judeus decidiram ficar, convertendo-se ao catolicismo contra sua vontade. Alguns, conhecidos aqui como marranos, continuaram a praticar o judaísmo secretamente.

Os arquivos municipais de Palermo —cujo grande salão do final do século 19 pode ter sido inspirado na Grande Sinagoga— exibiram recentemente recordações de afrontas mais recentes aos judeus da Sicília.

Entre eles havia documentos dos anos que se seguiram às leis raciais de 1938 de Mussolini, mostrando como os judeus da cidade foram demitidos sem cerimônia de empregos na universidade local e na prefeitura, para "defender a raça italiana", dizia um documento.

Levou tempo até a comunidade se reconstruir.

"Cheguei aqui pela primeira vez em 1959, e durante 20 anos achei que fosse a única judia em Palermo", disse Aouate. Ao longo dos anos, ela conheceu outros judeus e com o tempo seu elegante apartamento em Palermo se tornou um ponto de referência para a comunidade durante os dias santos.

O número de judeus que residem atualmente em Palermo permanece incerto. "Depende, porque se você pensa em todas as pessoas nascidas de uma mãe judia ou de um pai judeu, então são muitas", mas nem todos se consideram judeus, ela disse.

Até hoje, de qualquer forma, não surgiu um número suficiente de homens para formar um minian regular, o quórum de 10 ou mais judeus adultos necessários para um culto comunal, como é o caso na Ortodoxia, a única corrente judaica reconhecida na Itália.

Um turismo especializado pode mudar isso porque Palermo oferece diversos pontos judaicos pela cidade, alguns deles com sinais de sofrimentos passados.

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Via dei Calderai, rua conhecida por ter diversas lojas no antigo bairro judeu

Um mikvah, ou banho ritual judaico, foi encontrado embaixo do pátio do Palazzo Marchesi, que no século 16 abrigava os cárceres da Inquisição.

Mais tarde, entre 1601 e 1782, o Palazzo Chiaramonte-Steri—hoje parte da Universidade de Palermo—serviu como a prisão e o tribunal da Inquisição. Suas paredes preservam os rabiscos agoniados de detentos passados, inclusive alguns em hebraico.

Há pouco mais de três anos, velas de Hanukkah começaram a ser acesas no Palazzo Steri, um sinal tangível do comprometimento da universidade e da prefeitura para com a comunidade judaica.

O líder spiritual da comunidade, o rabino Pierpaolo Pinhas Punturello, que é emissário da Shavei Israel, uma organização baseada em Jerusalém que ajuda aqueles que estão buscando seu histórico judaico, disse que ele havia notado um interesse crescente na tradição judaica da Sicília e de outras partes do sul da Itália.

"Toda vez que vou lá, conheço novas pessoas curiosas em relação às suas origens, que querem explorá-la", disse o rabino.

A sinagoga era o passo seguinte natural e em junho do ano passado Aouate, Pepi e Ancona perguntaram ao arcebispo se alguma igreja sem uso não estaria disponível.

Três semanas depois, Lorefice ligou para oferecer o oratório.

O reverendo Pietro Magro, que é responsável pelo diálogo inter-religioso para a arquidiocese de Palermo, disse que o arcebispo ficara feliz em se comunicar com a comunidade em sua busca por um local de culto.

"A igreja da Virgem do Sábado parecia ideal porque fica no bairro judaico, e esperamos que ela fique pronta logo", disse Magro.

A expectativa é de que a restauração comece em breve; a prefeitura cobrirá a maior parte dos custos. A comunidade tem outra longa lista de despesas, desde a arca para os pergaminhos da Torá até um sofisticado sistema de segurança, segundo Aouate. "E gostaríamos de uma bela menorá!"

Tradutor: UOL

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