Grupos 'linha dura' contra imigração ocupam altos cargos públicos nos EUA

Nicholas Kulish

  • MONICA ALMEIDA/NYT

    Pessoas protestam contra a imigração ilegal nos EUA

    Pessoas protestam contra a imigração ilegal nos EUA

Depois de mandar mais de 13 mil mensagens no Twitter em menos de três anos, Jon Feere, um adversário declarado da imigração ilegal, de repente ficou silencioso após a posse presidencial.

Como um analista de política jurídica no Centro de Estudos da Imigração, um grupo sediado em Washington que defende reduções significativas na imigração, Feere tinha manifestado posições duras sobre o assunto, inclusive fez pressão pelo fim da cidadania automática para crianças nascidas nos EUA.

A nova hesitação de Feere não refletiu uma mudança de ânimo, mas um novo patrão. Agora ele trabalha para o Departamento de Alfândega e Imigração (ICE na sigla em inglês), órgão policial encarregado de encontrar e deportar pessoas que vivem ilegalmente no país.

Sua última postagem no Twitter, em 20 de janeiro, dizia simplesmente: "É hora de tornar a política de imigração novamente grande".

Há anos, uma rede de pessoas da linha dura contra a imigração em Washington foi conhecida principalmente por repelir propostas para legalizar a situação de mais imigrantes. Mas com a eleição de um presidente com essa mesma mentalidade esses grupos passaram inesperadamente da ofensiva para a defensiva, com alguns de seus líderes hoje em condições de implementar sua agenda em escala nacional.

"Trabalhamos de perto durante muito tempo com gente que hoje está muito bem colocada no governo", disse Dan Stein, presidente da Federação Americana para a Reforma da Imigração, outro grupo linha-dura.

Julie Kirchner, que serviu durante uma década como diretora-executiva da organização, também conhecida como Fair (a sigla em inglês), hoje trabalha como assessora do comissário de Alfândega e Proteção de Fronteiras. Kellyanne Conway, antes de ficar conhecida por seu trabalho na campanha presidencial e pelas defesas animadas do presidente Donald Trump na TV a cabo, trabalhou regularmente como pesquisadora da Fair.

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Mulheres protestam contra a ordem executiva que proibe a imigração de nacionais de sete países predominantemente muçulmanos

O principal assessor de Trump na Casa Branca, Stephen Miller, trabalhou incansavelmente para derrotar a reforma da imigração como membro da equipe do senador Jeff Sessions, hoje ministro da Justiça. Gene Hamilton, que trabalhou em imigração ilegal como advogado de Sessions na Comissão de Justiça, hoje é um advogado sênior no Departamento de Segurança Interna, a agência matriz da patrulha de fronteiras e do ICE, onde Feere trabalha hoje. Julia Hahn, que escreveu sobre imigração para o site Breitbart --com títulos como "Congresso liderado por republicanos conduz importação em grande escala de migrantes da Somália"--, seguiu seu ex-chefe, Stephen Bannon, à Casa Branca como vice-estrategista de políticas.

Daniel Tichenor, um estudioso de políticas de imigração na Universidade do Oregon, chamou de "altamente incomum" na era pós-Segunda Guerra Mundial ter adeptos da imigração reduzida em cargos tão elevados.

"Teríamos de voltar aos anos 1920 e 30 para encontrar um período comparável, em que você pudesse indicar pessoas nos órgãos executivos e na Casa Branca que favorecessem restrições significativas", disse Tichenor.

Sua influência já está sendo sentida. Trump é conhecido por suas promessas apressadas de deportar milhões de pessoas que estão nos EUA ilegalmente e de construir um muro na fronteira, mas algumas das mudanças mais técnicas e mais críticas nos procedimentos de imigração vieram diretamente de autoridades com antigas ligações com os grupos linha-dura.

Estas incluem expandir a cooperação entre agentes de imigração e policiais locais; repressão às "cidades-santuários"; dificultar a concessão de asilo aos migrantes; permitir que a polícia de fronteiras tenha acesso a todas as terras federais; e reduzir a prática de "pegar e soltar", em que imigrantes sem documentos são liberados da detenção enquanto seus casos se arrastam nos tribunais.

Apesar de sua proposta de orçamento ter cortado US$ 1 bilhão do Departamento de Justiça, Trump incluiu US$ 80 milhões para contratar novos juízes para acelerar os processos de deportação. Sessions disse em um evento na fronteira do Arizona neste mês que acrescentará 50 neste ano e mais 75 no próximo.

"Trump reuniu as pessoas que estão levando essa coisa ao nível de instrução de operações", disse Stein.

Mesmo os que trabalharam durante décadas para reduzir a imigração não esperavam uma mudança tão drástica. "Isto era inconcebível um ano atrás", disse Mark Krikorian, diretor-executivo do Centro de Estudos da Imigração. "Francamente, era quase inconcebível seis meses atrás."

Quando Feere lhe pediu licença para trabalhar na campanha de Trump, Krikorian disse que aceitou sem esperar que levasse necessariamente a algum lugar. "Honestamente, eu não pensava que fosse dar certo", disse ele, mas lembrou que disse a Feere: "Olhe, você sabe que sempre teremos um emprego para você se não der certo".

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Shikha Mittal, fundadora da startup Be.Artsy e Devangi Vishwasrao no escritório, em Mumbai, na Índia

A crescente influência dos grupos também trouxe um novo escrutínio a suas declarações inflamatórias e raízes nativistas comuns. O Centro de Estudos da Imigração, o Fair e outro grupo, o organizador de bases populares NumbersUSA, foram fundados ou patrocinados em suas fases iniciais pelo ativista John Tanton, um oftalmologista de Michigan que teve uma enorme influência no debate sobre imigração por meio de seus esforços de organização.

Tanton recebeu duras críticas por se corresponder com nacionalistas brancos e por tratar a luta para diminuir a imigração como uma luta racial e demográfica. "Para que a sociedade e a cultura europeia-americana persistam, é necessário uma maioria europeia-americana muito clara", escreveu certa vez Tanton a um amigo, enquanto manifestava em outro lugar seu medo de um "ataque latino".

O Centro Sulino de Direito e Pobreza rapidamente apontou como o Centro de Estudos da Imigração divulgou artigos "escritos por nacionalistas brancos, negadores do Holocausto e material de sites explicitamente racistas", e acrescentou o Centro de Imigração à sua lista de grupos de ódio ativos. Krikorian declarou-se contra o rótulo, dizendo que ele só servia para encerrar o debate legítimo sobre o assunto.

O Centro de Direito e Pobreza há muito é especialmente crítico da Fair, que no passado recebeu dinheiro da Pioneer Foundation, que financiou pesquisas sobre a relação entre raça e inteligência. Stein rejeitou os ataques como tendo motivação política, provocado pelo sucesso do grupo em ajudar a derrubar a revisão da imigração no Congresso.

Neste mês, a Fair apresentou uma queixa ao Serviço do Imposto de Renda acusando o Centro de Direito e Pobreza de cometer violações "flagrantes e intencionais" de sua isenção fiscal, ao criticar candidatos republicanos durante a campanha presidencial de 2016.

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Abhishekh Singh, cervejeiro que trabalha em Mumbai, na Índia

Richard Cohen, presidente do centro, disse que nunca cruzou a linha das atividades políticas impróprias. "Acho que temos a obrigação de denunciar o ódio não apenas nos recantos escuros de nossa sociedade, mas também na corrente dominante", disse Cohen. "Entramos sob a pele da Fair diversas vezes, e agora eles sentem que têm aliados no governo e vão aproveitar."

Embora os defensores da imigração os chamem de xenófobos, membros dos três grupos dizem que não gostam de ser rotulados de anti-imigrantes; o Centro de Estudos da Imigração usa o lema "baixa imigração, pró-imigrante" em seu site na web. Eles dizem que esperam apenas ver as leis de imigração do país aplicadas e que os que vivem aqui ilegalmente sejam apanhados e deportados.

Eles também dizem querer que a imigração ilegal seja reduzida a níveis que consideram mais sustentáveis, em particular para ajudar a aumentar os salários dos americanos de baixa renda que competem com migrantes não capacitados nos escalões inferiores da força de trabalho.

"O americano médio basicamente gosta da ideia da imigração, talvez ame o conceito --ele teve um papel importante na história de nosso país--, mas ficaria perfeitamente bem se não tivéssemos mais imigrantes durante 50 anos", disse Stein.

A Fair faz lobby junto a congressistas e seus funcionários nos escritórios da Massachusetts Avenue, perto do Capitólio, enquanto mantém fortes contatos com apresentadores de rádio. Há até um estúdio de rádio no escritório do grupo.

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Funcionários da empresa Amrut Software, em Mumbai, na Índia

Com aproximadamente duas dúzias de funcionários, o Centro de Estudos da Imigração oferece pesquisas, preenchendo o papel do grupo de pensadores tradicional.

A NumbersUSA talvez seja mais conhecida por instigar seus membros a soterrar os senadores com fax --mais de um milhão foram enviados-- durante uma iniciativa em 2007 para aprovar uma lei que oferecia um caminho para a cidadania a milhões de imigrantes ilegais e criar um novo programa de trabalho temporário. O grupo gosta de apontar que tem "ativistas em todo distrito congressional", como disse seu fundador, Roy Beck, em uma recente entrevista em seu escritório em Arlington, Virgínia. A NumbersUSA afirma ter 8 milhões de "participantes" entre seus seguidores no Facebook e listas de e-mails.

Os três recebem pequenas doações de indivíduos, mas também milhões de dólares nos últimos anos da Colcom Foundation, uma organização sediada em Pittsbrurgh fundada por Cordella Scaife May, uma herdeira da família de banqueiros Mellon, que doou muito dinheiro a causas anti-imigração. Seu irmão, Richard Mellon Scaife, foi conhecido por patrocinar causas conservadoras e ataques a Bill e Hillary Clinton.

Apesar de suas recentes vitórias políticas, os grupos continuam cautelosos sobre se o governo manterá todas as suas promessas. Em particular, apontam o fracasso de Trump em pôr fim imediatamente à política de Obama de Ação Adiada para Chegadas de Crianças, permitindo que os chamados Sonhadores que vieram ilegalmente quando crianças ficassem no país, assim como sua escolha de um economista pró-imigração para chefiar seu conselho de assessores econômicos.

"Sentimos que vamos continuar precisando trazer a influência das bases para este governo, porque há muitos interesses conflitantes", disse Beck.

Ao mesmo tempo, ele indicou uma lista de dez prioridades que a NumbersUSA apresentou no último verão para reforçar o policiamento, e comentou que o governo Trump já abordou oito delas. Uma das outras duas é pôr fim ao direito de cidadania por nascimento para crianças cujos pais não sejam cidadãos, uma ideia polêmica que provavelmente exigiria uma emenda constitucional.

"O maior inimigo que enfrentamos hoje é a complacência", disse Stein, "porque o pessoal de Trump já tem nossas ideias."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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