Em Angola, minas terrestres da época da guerra civil ainda ameaçam população

Norimitsu Onishi

Em Cuito Cuanavale (Angola)

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    Lino Domingos, usando um detector de metais para localizar mina terrestre no solo em Humabo, Angola

    Lino Domingos, usando um detector de metais para localizar mina terrestre no solo em Humabo, Angola

Domingos Luis, um agricultor de 20 anos, passou toda a vida em uma aldeia cercada por minas terrestres --uma ameaça constante, sempre à espreita. Ele se lembra do idoso que foi morto depois de pisar em um explosivo enquanto cuidava da plantação. Porcos selvagens e cervos ainda detonam minas no mato próximo.

"Eu cresci com o medo de que atrás de cada arbusto podia haver uma mina", disse Domingos.

Quando ele era menino, os velhos da aldeia lhe diziam "aonde ir, onde se movimentar, como se movimentar". Mas manter-se dentro de limites rígidos não combinava com o desejo irreprimível da criança de passear e explorar o terreno.

Sua avó, Diana Tchitumbo, disse que lhe explicou de modo geral os perigos.

"Se você for lá, será morto e nunca voltará. Não vá mais lá", disse ela ao neto. "E se ele fosse eu lhe dava uma surra."

Quinze anos depois do fim de uma das guerras mais longas da África, Angola ainda é um dos países mais cheios de minas explosivas. Grandes áreas do país estão lotadas de minas, algumas produzidas décadas atrás em países que não existem mais.

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Mulher e crianças em vila próxima a campo minado, em Cuito Cuanavale, Angola

Em nenhum lugar há mais minas que aqui em Cuito Cuanavale, uma cidade no sudeste de Angola que foi um dos maiores campos de batalha da Guerra Fria.

Enquanto os EUA e a União Soviética se enfrentavam globalmente, seus representantes depositaram milhares de minas em Cuito Cuanavale, uma área de Angola considerada tão distante e pobre que era conhecida como a Terra do Fim do Mundo.

Hoje, enquanto a população cresceu com a recuperação econômica do país, as comunidades cercam os arredores da cidade e aldeões vivem junto de campos minados ativos. Mas as minas terrestres impediram o crescimento de Cuito Cuanavale e os planos do governo de transformar o campo de batalha em uma atração turística no estilo de Gettysburg, nos EUA.

O centro da cidade foi liberado, mas as aldeias se espremem contra campos minados que contêm explosivos instalados pelos cubanos, que apoiavam o governo angolano. Do outro lado da cidade, uma faixa defensiva de aproximadamente 30 km, que teve minas meticulosamente plantadas por soldados da África do Sul, que apoiavam os rebeldes angolanos, continua intocada.

"Angola tem mais variedades de minas que a maioria dos países afetados por esse problema", disse Gerhard Zank, o diretor no país da Halo Trust, uma organização britânica privada que remove minas terrestres em Angola e em outros países.

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Avelino Catombela, perdeu sua perna em 1978 quando o ônibus em que ele estava atingiu uma mina

Com o passar dos anos, os desminadores encontraram minas de pelo menos 22 países em Angola, incluindo as extintas União Soviética e Alemanha Oriental, disse Zank.

Imediatamente depois de conquistar a independência de Portugal, em 1975, Angola entrou em uma guerra civil entre dois antigos movimentos de libertação.

A guerra civil tornou-se mais tarde um dos mais aquecidos conflitos da Guerra Fria no continente. O bloco oriental apoiava o governo liderado pelo Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), com tropas enviadas por Cuba. O Ocidente apoiava a União Nacional pela Independência Total de Angola (Unita), e a África do Sul, aliada dos EUA na Guerra Fria, enviava tropas a Angola.

Os angolanos e seus respectivos aliados se chocaram em Cuito Cuanavale no final dos anos 1980, em uma das maiores batalhas do último século na África.

Nenhum dos lados teve uma vitória decisiva. Mas em Angola e no resto da África meridional a batalha --e não a queda posterior da União Soviética-- é considerada o ponto de inflexão que afinal levou à libertação de grande parte da África meridional e ao fim do apartheid [segregação racial] na África do Sul.

"Se não fosse por essa batalha, certamente posso dizer que Nelson Mandela teria morrido na prisão e a Namíbia não teria conquistado a independência", disse o brigadeiro José Roque Oliveira, diretor da Comissão Intersetorial Nacional para Desminagem e Assistência Humanitária, um órgão oficial.

Seja qual for a importância da batalha, ela transformou Cuito Cuanavale no que Zank chama de "a cidade mais minada da África".

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Tanque de guerra sul-africano destruído em Cuito Cuanavale, Angola

Das 93 mil minas que a Halo Trust removeu em Angola nas últimas duas décadas, mais de um terço foram tiradas de Cuito Cuanavale. Acredita-se que ainda restem na cidade outras dezenas de milhares.

Em todo o país, cerca de 13 mil hectares de campos minados confirmados precisam ser limpos, e 35 mil hectares de áreas suspeitas devem ser verificadas, segundo o Monitor de Minas Terrestres e Munição de Fragmentação.

Angola teria de retirar todas essas minas de seu território até 2018, segundo um tratado global que proíbe as minas antipessoais. Mas autoridades angolanas dizem que não conseguirão terminar o trabalho antes de 2025.

No ritmo atual de desminagem, Angola não ficará livre de minas até "depois do ano 2040", disse Constance Arvis, o vice-chefe da missão na Embaixada dos EUA em Angola.

Os EUA, que foram o maior doador para esforços de desminagem em Angola, reservaram para isso US$ 4 milhões neste ano.

A diminuição das verbas internacionais também afetou grupos não governamentais, forçando organizações privadas de desminagem, como a Halo, a cortar sua força de trabalho.

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Mina terrestre sendo removida do solo em Cuito Cuanavale, Angola

Autoridades da Comissão de Desminagem do governo disseram que o financiamento também é um problema para o governo angolano. Por causa da queda do preço global do petróleo, a principal exportação do país, o orçamento do governo para desminagem foi cortado em 60%, disseram eles. O governo angolano concentrou seus esforços de desminagem exclusivamente em áreas de obras públicas, deixando outros locais para doadores estrangeiros e organizações privadas.

Os críticos dizem que o governo --que desfrutou de uma alta do petróleo durante a maior parte da última década-- não precisaria contar com forasteiros para financiar o trabalho de desminagem.

"Eles poderiam ter feito muito mais eles mesmos", disse Alcides Sakala, um membro graduado da Unita, hoje o principal partido político de oposição.

Remover uma mina custa para a Halo mais de US$ 1.500, segundo Zank. É um trabalho minucioso, que exige que os desminadores trabalhem em uma pequena área de solo durante horas, avançando lentamente de joelhos.

Em Huambo, uma província que a Halo quase terminou de limpar, três novos contratados concluíam seu trabalho recentemente.

Um deles, Lino Domingos, 27, vivia em San Antonio, um bairro perto do centro da cidade de Huambo, que a princesa Diana de Gales visitou duas décadas atrás para despertar a consciência dos perigos das minas antipessoais.

Domigos sabia do duro custo que as minas infligiram a sua comunidade. Uma de suas irmãs mais velhas foi morta ao pisar numa mina, enquanto caminhava para as plantações da família a alguns quilômetros de distância. No dia seguinte, outra irmã foi morta por uma mina enquanto procurava lenha.

"Eu sempre tive medo depois disso", afirmou Domingos. "Quando minha mãe me dizia para ir ao campo com ela, eu me recusava. Ficava em casa cuidando de meus irmãos menores."

Uma década depois, com a área já desminada, Domingos disse que finalmente se sente livre.

"Agora as pessoas podem se mover de um lugar para outro sem medo", afirmou.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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