Uma epidemia de furto de combustível no México se torna uma crise

Kirk Semple

Em San Salvador Huixcolotla (México)

  • RODRIGO CRUZ/NYT

    27.mar.2017 - Homem vendendo combustível em mercado negro em San Salvador Huixcolotla, no México

    27.mar.2017 - Homem vendendo combustível em mercado negro em San Salvador Huixcolotla, no México

Alguns dos primeiros clientes do dia chegam ao mercado de hortifrúti de madrugada, mas não com frutas e legumes em mente. Eles vêm atrás de gasolina barata roubada.

Na beira do mercado, dezenas de ambulantes montaram seus negócios, com pilhas de recipientes de 5 galões (quase 20 litros) cheios de combustível roubado e mangueiras de borracha para puxá-lo.

"Quanto, primo?", gritam os vendedores enquanto abordam as centenas de motoristas que passam por lá todos os dias. O preço é menos da metade que os clientes pagariam em postos de gasolina da região.

Esse comércio aberto e intenso é uma das manifestações mais óbvias da epidemia nacional de furto de combustível do México. Os ladrões estão puxando gasolina e diesel do sistema em índices recorde de velocidade —muitas vezes colocando "bicas" nos dutos, protegidos pela escuridão— e vendendo no mercado negro do México e talvez até mesmo nos Estados Unidos e na América Central.

É uma crise cada vez pior que está tirando do governo federal mais de US$ 1 bilhão (R$ 3,17 bilhões) por ano em combustível roubado e colocando em risco os esforços do México para atrair investimentos estrangeiros em sua indústria da energia enquanto acaba com mais de sete décadas de monopólio estatal.

RODRIGO CRUZ/NYT
Homem abastece seu carro com combustível furtado

E o governo parece incapaz de deter o fenômeno.

"O problema é que o estado de direito é fraco no México", disse Dwight Dyer, um analista do setor de energia do México. "Essa é uma parte do mercado em que o estado de direito realmente precisa funcionar para o setor privado dizer: 'Eu realmente quero investir'".

O aumento implacável nos roubos tem sido impulsionado pelo envolvimento e pela sofisticação crescente de algumas das maiores, mais bem organizadas e mais cruéis organizações criminosas do país, que usaram o suborno e a violência para cooptar funcionários de diversos níveis do governo, incluindo empregados da Pemex, a estatal de energia.

Os grupos criminosos também cultivaram um apoio amplo entre moradores locais, sendo que alguns deles foram empregados lucrativamente pelas gangues e muitos deles ficam felizes em pagar os preços muito menores pelo combustível do mercado negro. Em alguns lugares —especialmente aqui no Estado de Puebla, que emergiu como epicentro da crise— os ladrões são vistos como heróis à la Robin Hood, que da noite para o dia mudaram a sorte de vilarejos empobrecidos com as receitas do comércio entrando nas economias locais.

Mais de 55 milhões de litros de combustível são roubados diariamente de todo o sistema, desde as refinarias até as bombas de gasolina, segundo autoridades federais. De tempos em tempos, caminhões-tanque são sequestrados. Embora a quantia levada seja equivalente a 1-2% do volume total transportado todos os dias, ele tem um efeito maior sobre a capacidade do governo mexicano de atrair investidores privados.

"É realmente uma barreira para os negócios", disse Carlos Murrieta Cummings, diretor-geral de transformação industrial para a Pemex. "Não quero soar otimista porque o problema é muito difícil. Não quero minimizar o problema."

"Precisamos tomar conta disso desde os campos de produção até as refinarias, o centro de distribuição, os terminais, os dutos— tudo", ele acrescentou. "Temos esse problema em muitos lugares diferentes, não somente em uma parte".

O roubo de gasolina, que durante anos foi um problema preocupante, mas administrável para a Pemex, começou a piorar no final dos anos 2000 em meio a um ataque contra o crime organizado liderado por Felipe Calderón, o presidente na época. Sua estratégia para desmantelar as organizações transnacionais de tráfico de drogas criou subgrupos menores que diversificaram seus empreendimentos criminosos, incluindo o furto de gasolina.

RODRIGO CRUZ/NYT
26.mar.2017 - Vestígios de explosão que ocorreu em duto de gasolina em Tepeaca, no México

Com o aumento nos preços internacionais da gasolina, o roubo de combustível se tornou particularmente lucrativo, segundo autoridades, e muitas vezes bem mais fácil do que traficar drogas.

Mas o negócio também pode ser fatal, uma vez que "bicas" ilegais às vezes causam explosões. Em 2010, pelo menos 27 pessoas morreram, muitas outras ficaram feridas e diversas casas foram destruídas quando um duto explodiu em San Martín Texmelucan de Labastida, uma cidade de Puebla.

Apesar das promessas de Calderón de acabar com as quadrilhas do combustível, elas continuaram a crescer.

"A verdade é que a Pemex não deu muita importância a isso", disse Eduardo Guerrero, um consultor de segurança da Cidade do México. "Essas eram vistas como perdas insignificantes".

Em 2009, as autoridades descobriram 462 "bicas" clandestinas nos dutos do país e estimaram que menos de 477 mil litros estavam sendo perdidos por dia. No ano passado elas descobriram 6.873 "bicas", um aumento de quase 15 vezes.

As gangues em geral visam os 9 mil km de dutos que serpenteiam por todo o México e muitas vezes atravessam regiões rurais pouco habitadas, carregando gasolina de refinarias até pontos de distribuição.

Os dutos em sua maior parte estão enterrados a uma profundidade rasa, e são facilmente descobertos por uma pá. Os ladrões perfuram os dutos com furadeiras de alto impacto e instalam "bicas" pelas quais retiram o combustível. Eles chegaram a cavar túneis até os dutos e desviaram combustível através de mangueiras de borracha até caminhões-tanques roubados situados em pontos distantes.

O saque é então vendido em mercados como o de San Salvador Huixcolotla, em beiras de estrada, de porta em porta ou para donos de postos de gasolina suspeitos que então o revendem.

Parte da gasolina roubada também chegou a parar nos Estados Unidos e na América Central, segundo autoridades e analistas.

Em Puebla, as autoridades descobriram mais de 1.500 "bicas" ilegais em dutos no ano passado, quase o dobro do número descoberto em 2015 e quase um quarto do total nacional, segundo representantes da Pemex.

O crime está concentrado nessa região do Estado, um agrupamento de municipalidades rurais conhecido como Triángulo Rojo, ou Triângulo Vermelho, através do qual um grande duto carrega gasolina e diesel até a Cidade do México a partir de uma refinaria e um porto no Estado vizinho de Veracruz.

RODRIGO CRUZ/NYT
Soldados mexicanos que fazem a patrulha na região de Puebla, conhecida como 'Triângulo Vermelho', para combater o roubo de combustível

O disparo de empregos no crime causou um brusco aumento de renda para muitas famílias nessa região empobrecida. A renda obtida com o trabalho rural, historicamente a principal ocupação da região, não consegue competir. Enquanto um ajudante rural consegue ganhar de US$7 a US$11 (R$22 a R$35) por dia, segundo residentes, um olheiro para ladrões de combustível consegue arrecadar mais de US$54 (R$171) por dia.

Em ocasiões especiais como o Dia das Mães, as quadrilhas entram nos vilarejos com caminhões carregados de presentes para os moradores, incluindo televisões, liquidificadores e outros eletrodomésticos. As quadrilhas também começaram a pagar por tratamentos médicos e outros serviços comunitários.

Uma autoridade policial municipal de alto escalão no Triângulo Vermelho, que pediu por anonimato temendo ser morto por falar publicamente sobre o assunto, disse que a lealdade local aos ladrões era tão profunda que seus policiais muitas vezes eram impedidos de entrar em certos bairros mesmo quando vinham em resposta a problemas que não tinham nada a ver com furto de combustível.

Mas a principal ferramenta dos grupos criminosos é a corrupção. Desde funcionários da Pemex dando dicas aos criminosos sobre a hora mais oportuna para se fazer as perfurações, até policiais locais pagos para fazer vista grossa, os ladrões de gasolina construíram suas operações com base em suborno e violência.

A oferta dos criminosos é clara, disse um ex-policial municipal do Triângulo Vermelho que pediu por anonimato: ou você colabora e aceita o dinheiro ou você resiste e leva um tiro.

Guerrero, o consultor de segurança, previu que uma maior pressão sobre o Triângulo Vermelho poderia acabar provocando uma revolta popular, incluindo greves e bloqueios.

"A cada dia que passa, há cada vez mais famílias, mais pessoas dependendo desse mercado", ele disse. "Pode esquecer. Será um pesadelo quando o governo tentar controlar o mercado".

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos