Sul-coreanos ignoram tensão com país vizinho e tocam a vida

Motoko Rich

Em Seul (Coreia do Sul)

  • LAM YIK FEI/NYT

    Crianças aprendem a utilizar máscara de gás em caso de ataque químico ou biológico, na Coreia do Sul

    Crianças aprendem a utilizar máscara de gás em caso de ataque químico ou biológico, na Coreia do Sul

Os alunos do quarto ano sentados em uma fileira de bancos no centro de Seul usavam capuzes emborrachados amarelos, parecendo o elenco de um musical com um adorável coral de Minions.

Na verdade, eles estavam aprendendo como usar máscaras de gás em caso de ataques químicos ou biológicos por parte da Coreia do Norte. Vários deles davam risadas e arrancavam fora as máscaras, enquanto outros recuperavam o fôlego.

Isso é o que alunos da escola primária fazem às vezes em excursões para o Memorial de Guerra da Coreia, construído como uma lembrança dos custos da guerra na Península Coreana. Ultimamente, tem-se falado novamente sobre guerra nos noticiários, mas as pessoas aqui em Seul em sua maior parte dão de ombros e têm reagido com risadas nervosas, mais do que com exercícios de emergência.

Eles já passaram por isso antes.

Para as cerca de 25 milhões de pessoas na Coreia do Sul que vivem a menos de 80 km da fronteira com a Coreia do Norte —incluindo residentes da capital Seul— há muito tempo tem sido uma realidade deprimente o fato de que eles são os mais vulneráveis a um ataque por parte do regime de Pyongyang, com o qual a Coreia do Sul tem estado tecnicamente em guerra há décadas.

LAM YIK FEI/NYT
Estudantes visitam o Memorial de Guerra da Coreia, em Seoul

Essa ameaça perene tem se intensificado nas últimas semanas, com o alerta do governo Trump de que ele consideraria todas as opções, incluindo ataques militares, para frustrar as ambições nucleares da Coreia do Norte. Enquanto isso, a Coreia do Norte conduziu testes de mísseis e imensos exercícios de artilharia com tiros de verdade, e analistas dizem que ela está preparada para conduzir seu sexto teste de uma arma nuclear.

Para alguns moradores —como Hyun Jae-gyun, um dos professores que trouxeram as crianças para o memorial de guerra— isso levou a uma sensação crescente de temor e de urgência para se prepararem. "Os professores estão cientes de que essa é uma questão, e que deveríamos preparar nossas crianças", ele disse.

Mas muito mais gente em Seul parecia responder com completa indiferença.

"Não estou preocupado", disse Chun Ho-pil, 30, um gerente de construção que estava voltando do trabalho no bairro de Jongno, na capital. "Estou ocupado demais trabalhando e ocupado demais cuidando de minha vida para me preocupar".

Chun, com seu rosto diminuído por óculos de armação redonda e preta, deu de ombros e disse que não havia estocado água engarrafada ou comida enlatada em sua casa, nem comprado uma máscara de gás. Tampouco sabia a localização do abrigo mais próximo, em caso de bombardeio.

Em Seul, cidade densa e agitada com uma população de 10 milhões de habitantes, não havia nenhum sinal este mês de qualquer tipo de pânico. Restaurantes e bares continuavam lotados, e as estradas estavam congestionadas como sempre nas horas de rush.

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Crianças aprendem como usar máscara de gás em caso de ataque biológico, no centro de treinamento próximo ao Memoria de Guerra da Coreia, em Seoul

Os sul-coreanos elegerão um novo presidente no início de maio para suceder a líder Park Geun-hye, que sofreu um impeachment, e as políticas dos candidatos em relação à Coreia do Norte definitivamente são um tema de campanha. O candidato na liderança, Moon Jae-in, sugeriu que ele assumiria uma abordagem menos confrontadora em relação a Pyongyang.

Mas as pesquisas indicam que os eleitores estão mais interessados em políticas econômicas do que na segurança nacional. Em uma sondagem recente feita pelo "Dong-a Ilbo", um jornal de direita, mais de 45% dos entrevistados disseram que estavam focados nas propostas econômicas dos candidatos, enquanto somente pouco mais de 9% disseram que sua principal prioridade era como os candidatos lidariam com a ameaça nuclear norte-coreana.

Mesmo perto da fronteira com o Norte, onde milhares de foguetes de artilharia estão alinhados do outro lado da zona desmilitarizada que divide as Coreias, os moradores viam o tema da crise com indiferença.

Somente dois dias depois de o vice-presidente Mike Pence ter visitado a zona desmilitarizada e alertado a Coreia do Norte a não testar a determinação dos Estados Unidos, ônibus carregados de alunos primários visitavam um ponto de observação próximo onde eles podiam depositar moedas em grandes binóculos e olhar as florestas revoltas e montanhas da Coreia do Norte.

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Soldados esperando para atravessar rua em Seoul, na Coreia do Sul

Enquanto corriam em torno de um deque atrás de um prédio com o slogan "Fim da Separação, Começo da Unificação", não havia uma sensação de perigo iminente.

Em Munsan, uma cidade de cerca de 50 mil habitantes a aproximadamente 8 km da zona desmilitarizada, Gwon Hyuck-chae, um barbeiro de 72 anos, disse que ele não achava que o conflito estouraria após mais de 50 anos de tensões flutuantes.

"Vivo aqui há tanto tempo que não tenho mais medo", disse Gwon do lado de fora de sua loja em uma manhã recente. Ele disse estar convencido de que o impasse continuaria sem uma guerra, mas era fatalista sobre a possibilidade de que não continuaria.

"Mesmo que tivéssemos uma guerra agora, não teríamos tempo suficiente para fugir", ele disse. "Todos nós simplesmente morreríamos em um instante".

No final da rua, em uma loja da rede de cafeterias A Twosome Place, Kong Dong-min, um jovem funcionário, disse que não estava prestando muita atenção às notícias recentes sobre a Coreia do Norte.

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Kong Dong-min,19 anos, trabalha em cafeteria em Paju, na Coreia do Sul

Enquanto borrifava e limpava as mesas, Kong, um magricela de 19 anos usando um chapéu fedora cinza, disse que havia crescido observando soldados patrulharem a região.

"Não pensei tão à frente assim", ele disse quando lhe perguntamos se ele estaria se preparando para um possível ataque. "Estou acostumado".

Sul-coreanos mais velhos, com lembranças vívidas da Guerra Fria, tendem a se preocupar mais com a ameaça norte-coreana. Em pesquisas sobre as eleições que serão realizadas em breve, os mais preocupados com as relações com Pyongyang eram os que tinham mais de 60 anos.

No Parque Tapgol em Seul, três homens sentados em um banco disseram que estavam discutindo as atrocidades que testemunharam durante a Guerra da Coreia no início dos anos 1950, que, por não ter tido um tratado de paz assinado, nunca terminou formalmente.

"Os jovens sul-coreanos não acham que vai de fato acontecer", disse Kim Baek-choon, 79, referindo-se a outro estouro de guerra. "Mas estamos preocupados porque aconteceu antes, e nós vimos isso".

Mas muitos habitantes de Seul descreviam uma sensação de repetição que soava quase como algo saído de uma peça de Samuel Beckett, com uma ameaça que paira, mas nunca chega.

Kim Yun-hwa, uma fisioterapeuta de Seul, disse que seus pacientes haviam relatado recentemente estar sofrendo de estresse a respeito da possibilidade de um ataque norte-coreano. "Eles até dizem: 'Eu devia comprar mais comida e água no supermercado para estocar'", disse Kim, 35.

"Mas eles nunca de fato compram nada disso", ela acrescentou. "Eles só falam".

Kim disse que entendia a hesitação deles. "Não sinto isso na pele ainda", ela disse. "Não é uma ameaça tangível".

Tradutor: UOL

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