O último momento da vida: testemunhando uma execução

Alan Blinder e Manny Fernandez

Em Varner, Arkansas (EUA)

  • ILANA PANICH-LINSMAN/NYT

    Reverendo Carroll L. Pickett, ex-capelão de prisão no Texas que testemunhou 95 execuções

    Reverendo Carroll L. Pickett, ex-capelão de prisão no Texas que testemunhou 95 execuções

Eles com frequência entram em silêncio e quase sempre também saem dessa forma.

A pena de morte ocupa um lugar crucial, conflituoso, em uma nação profundamente dividida em relação a crime e punição e sobre se o Estado tem direito de tirar uma vida. Mas durante o longo e público processo legal, apenas um pequeno número de pessoas vê o que ocorre dentro das câmaras de morte do país.

Testemunhas ouvem as últimas palavras do preso condenado e assistem os últimos suspiros da pessoa. Então partem, geralmente à noite. Não há uniformidade quando olham para trás para as emoções que cercam os minutos em que assistem alguém morrer.

A mais recente pessoa a ser executada, Ledell Lee, morreu na Unidade Cummins daqui, no sudeste do Estado de Arkansas, na noite de quinta-feira. Na próxima manhã de sexta-feira, o Estado esperar ter executado mais três homens.

Em entrevistas separadas por telefone, cinco pessoas que testemunharam execuções (algumas anos atrás, uma a recente de Lee) refletiram sobre o que viram e o que isso significou para elas.

As entrevistas foram condensadas e editadas.

Charles E. Coulson

Promotor público de Lake County, Ohio, que testemunhou duas execuções.

Em ambos os casos, fui convidado pela família a comparecer. Os advogados da vítima comparecem na noite anterior, e você se encontra com eles no jantar, quando é repassado o que vai acontecer passo a passo. Há diagramas desenhados que mostram onde fica a câmara da morte, onde o réu estará, onde a família do réu estará.

Você assiste por detrás de um vidro e então o processo tem início.

Eles têm a chance de fazer uma última declaração e fiquei enojado pelas declarações dessas pessoas, que causaram tanta dor e sofrimento, serem narcisistas e preocupadas apenas com elas mesmas.

Apenas aguardávamos pelo sinal; em uma ocasião, foi quando o diretor do presídio tocou seus óculos. Você fica olhando o relógio e para o réu, vendo se ele ainda está respirando ou não. É tudo muito sereno e respeitoso.

Não é como assistir a um assassinato sangrento em um filme. Quando assisti as execuções, fiquei impressionado com o Estado de Ohio e com a forma digna com que lidaram com aquilo. Na minha opinião, os dois réus não mereciam nenhuma dignidade.

A única vez em que fiquei emocionalmente envolvido foi quando tive que tomar a decisão e tive que dizer ao júri que aquele homem, sentado em uma sala a poucos metros de mim, deveria ser morto pelo crime que cometeu.

Um promotor não pode ter dúvida: não uma prova além da dúvida razoável, mas sim nenhuma dúvida de que a pessoa cometeu aqueles crimes. Desde que não haja dúvida, não acho que haja algum argumento válido contra a pena de morte.

Aquelas duas pessoas eram malignas e suas execuções não me incomodaram nem um pouco. É o que achei que mereciam. Não penso muito a respeito. Está feito. Foi o que deveria ter sido feito. Realmente não penso mais a respeito.

MICHAEL STRAVATO/NYT
Gayle Gaddis, mãe de Guy P. Gaddis, um policial de Houston assassinado

Gayle Gaddis

Mãe de Guy P. Gaddis, um policial de Houston assassinado.

Eu queria ter certeza que chegaria ao fim, por isso fui.

Antes da execução, estávamos em uma sala sem um relógio. É uma experiência terrível. Ficamos ali pelo que pareciam horas, enquanto asseguravam de que o preso não teria a pena suspensa ou adiada. Todos nós nos sentíamos miseráveis.

Então o diretor veio e disse: "Boa notícia: não haverá adiamento e ele será executado" ou algo assim.

Eu entrei na sala e o vi atado a uma maca. Então não consegui mais ver. Eles me deram uma cadeira e simples olhei para outro lado. Um filho estava batendo com o cotovelo no vidro. Meu outro filho perguntou por que ele estava fazendo aquilo. Ele disse: "Quero que ele olhe para mim".

Edgar Tamayo era o nome dele e nem olhou e nem falou nada. Eu esperava que dissesse: "Sinto muito", mas nem mesmo olhou para nós.

Aquilo não doeu para ele: eu preferiria que fosse apedrejado até a morte ou algo horrível. Ele apenas recebeu uma injeção como se fosse ser submetido a uma cirurgia. Foi fácil demais, por toda a dor que causou a minha família por tantos anos.

No final, de forma repentina, era possível ouvir o som de motos acelerando no lado de fora. Percebi que eram os policiais de moto, o apoio desses policiais, e aquilo fez com que me sentisse bem.

Ao sairmos, a filha dele estava do outro lado da rua. Ela estava segurando um grande cartaz: "Não matem meu pai". Fiquei triste por ela. Ele arruinou todas essas vidas por tempo demais.

Sempre achei a pena de morte acertada quando não há dúvida da culpa de alguém. Quando isso aconteceu comigo e minha família, mantive meu apoio à pena de morte e ainda mantenho.

Eles o pegaram em flagrante onde matou meu filho a tiros. Apenas não entendo: a demora de 20 anos para ele ser executado.

DEANNA ALEJANDRA DENT/NYT
Jennifer Garcia, advogada federal assistente em Phoenix que testemunhou uma execução

Jennifer Garcia

Advogada federal assistente em Phoenix que testemunhou uma execução.

Ele era meu cliente. O nome dele era Richard Stokley e foi executado em dezembro de 2012.

Com frequência nossos clientes não tinham pessoas com as quais podiam contar ou que lutassem por eles. Assim que pegávamos um caso, geralmente permanecíamos até o fim.

O motivo para termos testemunhado foi porque ele nos pediu. Se precisasse ser tranquilizado, ele poderia ver um de nós sorrir para ele.

Quando chegamos lá e entramos na sala das testemunhas, eu estava cansada demais, emotiva demais e sabia que teria que me manter firme por ele, e assegurar que ele estava OK ao longo de todo o procedimento.

A execução em si foi surreal. Não posso descrever quão inacreditável é ver pessoas deliberadamente se preparando para matar seu cliente. No caso do sr. Stokley, eles não conseguiam encontrar sua veia. Ficamos sentados lá por um longo tempo enquanto começaram por suas mãos e então procuraram por uma veia em outras partes do corpo. Tentei manter a compostura pois não queria que ele me visse chorando ou perturbada. Mas foi muito difícil ver alguém fazendo aquilo ao seu cliente e me senti impotente.

Quando o declararam morto, acho que me senti feliz por ele não mais estar sendo ferido como parte do processo. O fato de saber que tinha terminado e que nada de pior ocorreria como parte da execução, isso foi um alívio. Mas no todo, você se sente em choque.

Eu não diria que necessariamente sou assombrada por isso, mas estou ciente. Se tiver um cliente que me peça para estar lá, eu estarei. Até estar retida ali naquela sala sob controle rígido da prisão, não há como saber como você reagirá à execução de alguém bem à sua frente, de modo que é difícil saber como você se sentirá. Mas não há nada que você tenha feito em sua vida que faça você dizer: "Isso é algo bom".

JACOB SLATON/NYT
Marine Glisovic, repórter da "KATV" em Little Rock, Arkansas, que foi testemunha para a mídia da execução de Ledell Lee

Marine Glisovic

Repórter da "KATV" em Little Rock, Arkansas, que foi testemunha para a mídia da execução de Ledell Lee.

Você entra e todos os assentos estão à sua esquerda. É quase como se fosse uma mini sala de cinema. Então seguimos para três assentos à frente reservados para nós. Havia uma cortina preta em frente a quatro janelas.

Eles abriram a cortina e o preso já estava deitado, com um cateter em cada braço. Ele estava na horizontal diante de nós. Ele nos olhava o tempo todo. Quando abriram a cortina, eles apagaram a luz em nossa sala, a sala das testemunhas, de modo que apenas a câmara da morte estava iluminada.

Enquanto prosseguia, tudo permanecia em silêncio. Ninguém dizia nada. Foi tudo bastante estéril e clínico. Era como assistir alguém sendo anestesiado para dormir, se preferir.

Depois dirigimos uma hora e meia até chegar em casa. Eu cheguei a Little Rock, paramos na estação, entrei no meu carro. Apenas quando cheguei à casa de minha amiga à noite, aquilo me afetou como pessoa, assim que saí do meu modo jornalístico. Nem sei mesmo como descrever como aquilo me afetou.

Quando cheguei à casa da minha amiga, ela abriu a porta e, no início, não consegui dizer muita coisa. Apenas me sentei. Quero dizer que cheguei à casa dela por volta das 2h da madrugada e dormi apenas por volta das 5h. Apenas falava com ela e repetia aquilo sem parar.

Foram provavelmente os 11 minutos mais curtos e ao mesmo tempo mais longos da minha vida. Não importa o que alguém diga, não há nada que realmente prepare você para o que está prestes a ver.

ILANA PANICH-LINSMAN/NYT
Reverendo Carroll L. Pickett, ex-capelão de prisão no Texas que testemunhou 95 execuções

Reverendo Carroll L. Pickett

Ex-capelão de prisão no Texas que testemunhou 95 execuções.

Certa vez, foram três noites seguidas. Eles chegavam de manhã e realizamos três execuções em noites consecutivas. Submeter pessoas a isso é terrível.

Já vi um repórter desmaiar. Ele tinha 1,90 m. Eu estava dentro da câmara da morte, mas tinha um espelho, de modo que pude vê-lo desmaiar na última fila. E o prefeito não pôde retirá-lo, porque a lei diz que a porta não pode ser aberta até que tudo esteja concluído.

Essa é uma das consequências que as pessoas não percebem. Familiares adoecem. Testemunhas adoecem. Alguns dos meus melhores guardas que estiveram com eles durante o dia todo, eles adoecem. O diretor mudou para que fosse acompanhado pelas mesmas pessoas o dia todo, e são essas pessoas que acabam sofrendo um colapso nervoso, o que considero horrível, ver bons capitães e tenentes deixarem o sistema por não poderem suportar as execuções. Isso afeta todos, de um jeito ou de outro.

A família da vítima sofre, assim como a família do indivíduo. Você não está matando apenas a pessoa. Está matando a família toda. Há muitas pessoas envolvidas nisso, não apenas o pobre coitado deitado na maca.

As pessoas não percebem que você nunca supera isso, a menos que seja frio e calculista. Eu nunca esquecerei. Não passa um dia sem que lembre. Não passa um dia. E não espero que passe. Se passar, então não fiz o que deveria fazer, como cristão, como capelão e como ser humano.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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