Checando os fatos: Trump faz afirmações enganosas no discurso dos 100 dias

Linda Qiu

Em Washington (EUA)

  • REUTERS/Carlos Barria

    29.abr.2017 - Donald Trump em frente a placa que diz "promessas feitas, promessas mantidas" no evento que marcou seus primeiros 100 dias à frente da Casa Branca

    29.abr.2017 - Donald Trump em frente a placa que diz "promessas feitas, promessas mantidas" no evento que marcou seus primeiros 100 dias à frente da Casa Branca

Em seu centésimo dia no cargo, o presidente Donald Trump apresentou no sábado (29) à noite seus habituais argumentos enganosos e vanglórias sobre seu progresso inicial, seus reveses e seu antecessor.

Trump começou o evento na Pensilvânia com ataques à mídia noticiosa, antes de dar a si mesmo um crédito exagerado por suas realizações. Ele adotou padrão semelhante em uma entrevista ao programa "Face the Nation", da rede CBS, que foi ao ar na manhã de domingo (30).

Segue-se uma avaliação:

Trump disse que vai tomar uma "grande decisão" sobre o Tratado de Paris, que ele caracterizou como injusto. "Os EUA pagam bilhões de dólares, enquanto a China, a Rússia e a Índia contribuíram e irão contribuir com nada."

PRECISA DE CONTEXTO. Em seu plano para cem dias, Trump prometeu cancelar os pagamentos ao Fundo do Clima Verde da ONU, um programa financeiro destinado a ajudar os países mais pobres a atenuar os efeitos da mudança climática. Seu rascunho de orçamento inclui "eliminar o financiamento dos EUA relativo ao Fundo do Clima Verde", mas a proposta ainda não foi implementada.

Apesar de Trump ter razão de que os EUA disseram que dariam mais US$ 3 bilhões ao fundo, o país é um dos 43 que contribuem, muitos deles com economias avançadas como o Japão (US$ 1,5 bilhão), o Reino Unido (US$ 1,2 bilhão) e a França (US$ 1 bilhão). Os EUA se classificam em 11º lugar mundial em termos de valor per capita, segundo J. Timmons Roberts, professor de estudos ambientais na Universidade Brown.

China, Rússia e Índia ainda não contribuíram com o fundo, mas a China comprometeu bilhões para fornecer ajuda direta em ação climática a outros países e a Rússia prometeu US$ 10 milhões para outro programa climático da ONU.

Trump afirmou que o Tratado de Paris teria um alto custo para a economia.

"O acordo poderá em última instância afundar o PIB americano em US$ 2,5 trilhões em um período de dez anos."

PRECISA DE CONTEXTO. Trump pode ter-se referido a uma estimativa da Fundação Heritage, conservadora, que é desmentida por grupos ambientalistas. O Instituto de Recursos Mundiais, por exemplo, afirma que o estudo da Heritage se baseia em "suposições antiquadas e distantes" e ignora os benefícios do acordo.

Estudos de organizações ambientalistas, da Agência de Proteção Ambiental do governo Obama, de pesquisadores independentes, do Citibank e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômicos avaliaram que não agir em relação ao clima custaria trilhões à economia americana.

Os 100 dias caóticos do governo Trump

Trump assumiu o crédito pelo crescimento dos empregos no início de 2017.

"Somente nestes primeiros meses, criamos 99 mil novos empregos na construção, 49 mil na indústria e 27 mil na mineração. Quem são os mineiros aqui? Finalmente estamos cuidando dos nossos mineiros. Nós amamos nossos mineiros. E temos mais de 600 mil novos empregos."

ENGANOSO. A economia dos EUA criou 533 mil empregos no primeiro trimestre de 2017, segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho. Mas é exagero Trump assumir o crédito por todos esses empregos.

O número de janeiro (216 mil) foi calculado antes de ele assumir o cargo, enquanto o de fevereiro (219 mil) foi calculado cerca de três semanas após sua posse. Em março, o número que reflete o primeiro mês completo da Presidência Trump, a economia ganhou 98 mil empregos.

Trump elogiou seus esforços para "drenar o pântano" de Washington.

"Eu emiti uma proibição de cinco anos para que autoridades federais se tornem lobistas após deixar o serviço do governo. Certo?"

PRECISA DE CONTEXTO. Trump citou esta proibição e outra definitiva para que autoridades do governo façam lobby no exterior. A proibição de cinco anos poderia na verdade enfraquecer uma regra da era Obama que proibia os funcionários federais de fazer lobby até o fim do governo.

Trump culpou o presidente Barack Obama pela presença do bando MS-13 nos EUA.

"O último governo, muito fraco, permitiu que milhares e milhares de membros de bandos [criminosos] cruzassem nossas fronteiras e entrassem em nossas comunidades, onde causaram problemas para nossos cidadãos. O sanguinolento MS-13 se infiltrou em nossas escolas, ameaçando crianças inocentes."

MENTIRA. O bando Mara Salvatrucha, ou MS-13, antecede a Presidência Obama em décadas. Ele foi formado nos anos 1980 em Los Angeles por imigrantes que fugiam da guerra civil em El Salvador e ganhou notoriedade nos anos 1990 por sua violência brutal.

Em 2005, o MS-13 tinha 50 mil membros firmes no plano internacional e 10 mil ativos em 31 Estados americanos e na capital, Washington --o mesmo número que o ministro da Justiça, Jeff Sessions, citou no início de abril.

Alguns canais conservadores afirmaram que o programa de Obama que dava refúgio a menores centro-americanos que tentavam escapar da violência dos bandos permitiu que o MS-13 florescesse, admitindo potenciais recrutas. (A afirmação de Trump é menos matizada e mais imprecisa.)

Trump segue com popularidade em baixa e sem apoio

Trump reivindicou o crédito pelas economias no custo de jatos de caça militares.

"Eu já economizei mais de US$ 725 milhões em uma simples encomenda de aviões F-35."

ENGANOSO. Trump pode ter acelerado o processo, mas os custos estavam diminuindo antes que ele se envolvesse. A Força Aérea projetou cerca de US$ 600 milhões em economias em 19 de dezembro, dois dias antes que Trump se reunisse com o executivo-chefe da Lockheed.

Trump assumiu o crédito por aumentar a contribuição dos membros da Otan às iniciativas de defesa da aliança.

"Também estamos fazendo os países da Otan finalmente contribuírem com sua parcela justa."

ENGANOSO. Todos os países membros contribuem com um valor proporcional a seu Produto Interno Bruto para os gastos diretos da Otan. Poucos cumprem o compromisso de gastar 2% de seu PIB para as iniciativas de defesa da aliança, mas os membros da Otan concordaram em setembro de 2014 em cumprir o compromisso na próxima década, nove meses antes de Trump anunciar sua candidatura.

Trump criticou reportagens na imprensa sobre como mudou de posição para declarar a China um manipulador do câmbio.

"Mas quando eles falam sobre manipulação do câmbio, e eu disse que ligaria para a China, se eles fossem um manipulador de câmbio, no início de meu mandato. E então eu chego lá. Nº 1, eles --assim que fui eleito-- eles pararam."

ENGANOSO. Trump prometeu declarar a China um manipulador de câmbio durante a campanha, e o fez no início de abril, em uma entrevista à "Financial Times". Ele disse ao "Wall Street Journal" mais tarde nesse mês que não mais o faria, e o Departamento do Tesouro seguiu sua indicação.

Trump tem razão de que a China costumava manter o valor de sua moeda, o iuane, artificialmente baixo, mas sua linha do tempo está defasada. A China tentou evitar que sua moeda se depreciasse mais nos últimos anos, o que impede que Trump rotule o país de manipulador do câmbio.

Trump criticou reportagens sobre sua lei para abolir e substituir a Lei de Acesso à Saúde.

"Mas quando eu vejo algumas reportagens, que são tão injustas, e elas dizem que não cobrimos as condições preexistentes, nós as cobrimos lindamente."

ENGANOSO. Não está claro a que versão da lei Trump se referia, mas o plano republicano original e uma versão com emendas divulgada na semana passada mudaria o seguro para os que tivessem condições preexistentes.

Trump lamentou o crescimento econômico lento.

"Então eu falo com os chefes dos países. 'Como vão vocês?' 'Não muito bem, não muito bem.' 'Por quê?' 'O PIB está em 8%. O PIB está em 9%. Estamos indo mal.' O PIB --o nosso PIB é tipo 1%."

PRECISA DE CONTEXTO. Os países com crescimento do PIB acima de 5% tendem a ser economias em desenvolvimento, como o Vietnã, o Uzbequistão e a Tanzânia, segundo dados do Banco Mundial. O crescimento dos EUA é equivalente ao de outros países desenvolvidos, como Dinamarca, França e Japão.

Trump sugeriu que Michael Flynn, o ex-assessor de segurança nacional, não foi adequadamente sancionado por seu antecessor.

"Eu não percebi isso, quando ele foi à Rússia, foi em 2015 e ele estava sob a aprovação de Obama. Quando o general Flynn chegou até nós, como vocês sabem hoje, ele já tinha a maior aprovação que poderia ter."

ENGANOSO. Flynn renunciou em fevereiro, depois que foi revelado que ele tinha enganado o vice-presidente Mike Pence sobre o contato com autoridades russas. "The New York Times" relatou no final de abril que Flynn tinha deixado de revelar adequadamente um pagamento feito por um governo estrangeiro ao Departamento da Defesa em 2014.

Flynn, que serviu como diretor da Agência de Inteligência da Defesa sob Obama, foi demitido em 2014, mas tinha uma aprovação de confiabilidade até janeiro de 2016. Trump o nomeou como assessor de segurança nacional depois da eleição, em novembro.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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