Com medo da deportação, mulheres imigrantes não relatam abusos nos EUA

Jennifer Medina

Em Los Angeles (EUA)

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O marido de Cristina a agrediu e ameaçou repetidamente, durante décadas, mas foi só no ano passado que ela começou a temer pela segurança de seus filhos pequenos, segundo disse. Com relutância, ela o denunciou e fez uma queixa na polícia.

Cristina, uma imigrante mexicana que chegou aos EUA quando adolescente, nos anos 1980, começou a pedir um visto especial para vítimas de abuso, que a colocaria no caminho da cidadania e de sua própria liberdade. No mês passado, porém, ela disse a seu advogado que não queria mais solicitar. Estava com muito medo, afirmou, não de seu marido, mas do governo.

"Tenho medo de que eles me encontrem", disse Cristina, que vive em um subúrbio de Los Angeles, pedindo na entrevista que seu sobrenome não fosse citado.

A violência doméstica sempre foi um crime difícil de processar. Muitas vezes as vítimas demoram anos para buscar ajuda, e com frequência têm de ser convencidas a testemunhar contra seus atacantes. E para muitas vítimas sem visto de residência dar esse passo tornou-se extremamente difícil, por temerem que o governo as deterá e deportará se elas derem queixa. É o que dizem autoridades policiais, advogados e ativistas de todo o país.

Desde a eleição presidencial, houve uma redução acentuada nos relatos de agressão sexual e violência doméstica entre os latinos nos EUA em geral, e muitos especialistas atribuem o declínio ao medo da deportação. Autoridades policiais de várias cidades grandes, como Los Angeles, Houston e Denver, dizem que a mais perigosa consequência das mudanças nas políticas e das duras declarações sobre imigração é que menos imigrantes estão procurando a polícia.

O número de latinas que relataram casos de estupro em Houston caiu mais de 40% neste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, segundo disse neste mês Art Acevedo, chefe do Departamento de Polícia de Houston (Texas). A queda "parece mostrar que as pessoas começam a não relatar crimes", acrescentou ele.

Em Los Angeles neste ano, os relatos de violência doméstica entre latinos caíram 10%, e os de agressão sexual, 25%, em relação a um ano atrás. Segundo o chefe do Departamento de Polícia, Charlie Beck, o declínio provavelmente se deve ao medo do governo federal. Dezenas de provedores de serviços e advogados entrevistados disseram que as mulheres imigrantes estão decidindo não denunciar abusos ou prestar queixa.

"Sempre dissemos às nossas clientes que mesmo que não tenham documentos não precisam se preocupar --a polícia irá protegê-las", disse Kate Marr, diretora-executiva da Sociedade de Ajuda Jurídica do Condado de Orange, na Califórnia. O nível de medo hoje, porém, é diferente de tudo o que Marr já viu em quase duas décadas de trabalho com sobreviventes de violência doméstica, disse ela.

"Tudo o que dizíamos às nossas clientes foi por água abaixo", disse ela. "É muito desmoralizante e assustador imaginar o que acontecerá se continuar assim."

O medo entre imigrantes foi exacerbado por um caso em El Paso (Texas), onde agentes do Departamento de Imigração e Alfândega (ICE na sigla em inglês) prenderam uma mulher em fevereiro, momentos depois de ela receber uma ordem de proteção contra o homem que teria abusado dela. A Comissão de Direitos Civis dos EUA, uma agência independente bipartidária, pediu na semana passada que as autoridades federais reconsiderem suas táticas de detenção no tribunal. A agência disse que o caso do Texas e outras detenções judiciais estão tendo um efeito assustador nos imigrantes de todo o país.

O Departamento de Justiça não quis comentar as preocupações sobre o medo maior dos imigrantes.

O capitão James Humphries, que supervisiona a Divisão de Investigações de Vítimas Especiais em Montgomery, Estado de Maryland, disse que viu a disposição a denunciar diminuir de forma drástica no condado, onde os imigrantes formam uma grande porcentagem da população. Sua unidade recebeu aproximadamente a metade das ligações de ataque sexual e violência doméstica neste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, segundo ele.

"É um desafio constante para nós tranquilizar a comunidade de que nosso modo de trabalhar não mudou e que a Casa Branca não pode determinar como devemos policiar", disse Humphries. "Isso afeta todos os crimes, mas se você não vê vítimas domésticas se apresentarem é porque na realidade elas não confiam na polícia."

O delegado Chuck Jenkins, do condado próximo de Frederick, também em Maryland, tem defendido com ênfase o policiamento rígido da imigração e disse que não viu redução dos relatos de crimes entre os imigrantes lá.

"Eles não querem ser vitimizados por outra pessoa", disse Jenkins. "Nada que façamos nas ruas tem nada a ver com a situação de imigração, e as pessoas nas comunidades de imigrantes, legais e ilegais, são inteligentes o bastante para saber disso."

O Conselho de Violência Doméstica do Condado de Los Angeles costumava receber meia dúzia de telefonemas por semana, com pelo menos a metade de falantes de espanhol. Mas desde janeiro só recebeu duas ligações, segundo Olivia Rodriguez, sua diretora-executiva.

"Isso não é normal", disse Rodriguez. "Elas pensam que se chamarem um órgão do governo está tudo conectado, que elas serão denunciadas ao ICE e mandadas embora. Então elas simplesmente aguentam a violência."

Yanet, 56, que pediu para não usarmos seu sobrenome por temer a deportação, disse que sofreu mais de uma década de abusos de seu marido em El Salvador, onde as vítimas de agressão têm pouco recurso, antes de decidir fugir para os EUA, vários anos atrás. Ela trabalhou principalmente como cozinheira em restaurantes de Los Angeles, e em 2005 tentou obter um visto para mulheres que escaparam da violência.

Mas o advogado que ela procurou a obrigou a praticar sexo oral em troca de sua ajuda, segundo disse. Yanet inicialmente temeu delatá-lo à polícia, mas abriu uma queixa depois de decidir que não seria vitimizada novamente. Agora ela reluta em seguir adiante com as acusações e seu pedido de visto.

"Todos os dias tenho medo de que aconteça algo, e até de sair de casa", disse ela. "Fazer alguma coisa para chamar a atenção do governo é pior. Não sei em quem acreditar ou o que é seguro fazer para me proteger."

Colaborou Liz Robbins, de Nova York 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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