Mudando a presidência, Trump também não é o mesmo que tomou posse em janeiro

Peter Baker

Em Washington (EUA)

  • Mike Stewart/AP

Em seus primeiros 100 dias no poder, o presidente Donald Trump transformou o mais alto cargo do país de formas tanto profundas quanto mundanas, passando por cima de limites tradicionais, ignorando velhos protocolos e descartando precedentes históricos ao mudar a Casa Branca de acordo com sua própria imagem.

Mas da mesma forma que Trump mudou a presidência, conselheiros e analistas dizem que ela também o mudou. Ainda um provocador de humor imprevisível e que se ofende fácil, capaz de mudanças vertiginosas na política e nas políticas, ainda assim Trump às vezes adaptou sua abordagem tanto ao cargo quanto aos importantes desafios que traz.

Enquanto Washington faz uma pausa para avaliar a fase inicial da presidência de Trump, a única coisa em que todos parecem concordar é que, para o bem ou para o mal, a capital penetrou profundamente em território não mapeado. Em quase cada um desses primeiros 100 dias, Trump fez ou disse algo que levou historiadores presidenciais ou profissionais calejados da capital a usarem a frase "nunca antes".

Ele adotou ainda mais poder para a presidência, ampliando o uso de ordens executivas em comparação ao presidente Barack Obama para compensar a incapacidade de aprovar grandes legislações e a tornando ainda mais independente do establishment de Washington. Ele tem sido mais agressivo do que qualquer outro presidente no uso de sua autoridade para desfazer o legado de seu antecessor, particularmente em comércio, regulação de setores e meio ambiente. E tem dominado a conversa nacional mais amplamente do que qualquer presidente em uma geração.

Ao mesmo tempo, ele descartou convenções que restringiam outros no cargo. Ele manteve seus negócios, que ele cultiva implicitamente com visitas regulares às suas propriedades. Ele tem sido ao mesmo tempo mais e menos transparente do que outros presidentes, ocultando suas declarações de imposto de renda e os registros de visitas à Casa Branca de escrutínio público, ao mesmo tempo parecendo deixar poucos pensamentos sem serem expressados, independente de quão incendiários ou equivocados. E transformou a Casa Branca em um empreendimento familiar com intriga ao estilo reality show, "quem será expulso da ilha?"

"Os primeiros 100 dias dele são um reflexo de quanto a presidência mudou", disse Janet Mullins Grissom, uma alta funcionária da Casa Branca e do Departamento de Estado do presidente George W. Bush. "A maior diferença entre o presidente Trump e seus antecessores é que ele é o primeiro presidente na minha vida política a chegar ao cargo sem obrigações para com qualquer interesse especial para seu sucesso eleitoral, portanto imune às típicas pressões políticas."

Na prática, ela disse, isso compensa pela vitória que ele obteve no Colégio Eleitoral sem vencer no voto popular.

"Isso lhe dá mais poder do que alguém que venceu por grande margem de votos, assim como liberdade para governar ao seu modo", ela disse. "E os eleitores o adoram por isso."

Enquanto os veteranos de Washington se irritam com os desvios em relação às normas do passado, os apoiadores de Trump veem um presidente disposto a sacudir as coisas. Enquanto Washington se importa com decoro e processo, eles querem um presidente que lute por eles contra os poderes entrincheirados.

Mas o líder que quebra louças exibiu sinais de evolução. O presidente atuando no 100º dia não é o mesmo que tomou posse em janeiro, quando estava determinado a se aproximar da Rússia, a causar problemas para a China e fazer guerra contra as elites.

Segundo ele próprio, Trump descobriu que questões como o atendimento de saúde e a Coreia do Norte são muito mais complicadas do que ele imaginava, e descartou algumas de suas promessas de campanha mais radicais após aprender mais sobre os assuntos.

"Estou mais inclinado a dizer que a presidência mudou Trump em vez de Trump ter mudado a presidência", disse H.W. Brands, um professor da Universidade do Texas que escreveu biografias de múltiplos presidentes, incluindo Ronald Reagan e ambos os Roosevelts. "Ele moderou ou mudou na maioria das posições que assumiu como candidato. A realidade falou mais alto, como acontece com todo novo presidente."

Ainda mais para o primeiro presidente na história americana que nunca passou um dia no governo ou nas Forças Armadas, e que se cercou de altos funcionários que também não. Apesar de Trump ter presumido que sua experiência nos negócios e entretenimento poderia ser facilmente adaptada à Casa Branca, eles descobriu que não.

"Nunca percebi quão grande era", ele disse sobre a presidência em uma entrevista para a agência de notícias "The Associated Press". "Toda decisão é muito mais difícil do que normalmente seria", ele acrescentou.

Em uma entrevista separada para a agência de notícias "Reuters", ele disse: "Há muito mais trabalho do que na minha vida anterior. Eu achei que seria mais fácil".

Trump chegou à Casa Branca não impressionado pelas convenções que governam a presidência. No início, ele descartou a ideia de receber briefings diários de inteligência porque era "uma pessoa inteligente" e não precisava ouvir "a mesma coisa todo dia". Ele telefonou para líderes estrangeiros durante a transição sem consultar ou mesmo informar os especialistas do governo sobre esses países.

Ele atacou empresas específicas pelo Twitter sobre transferência de empregos para o exterior e chamou o presidente-executivo da Lockheed Martin para se queixar do custo do caça F-35, sem se importar com o fato de que presidente não costuma se envolver pessoalmente nos assuntos de empresas individuais ou negociar diretamente contratos federais.

Igualmente, Trump alegremente assume o crédito nos dias em que as ações apresentam alta e comenta publicamente sobre a valorização do dólar, coisas que presidentes geralmente não fazem, ambas por serem vistas como interferências indevidas no mercados e por convidar receber a culpa quando passarem por dias ruins.

Sua arrogância conhece poucos limites. "Realmente acredito que os primeiros 100 dias do meu governo foram os mais bem-sucedidos na história de nosso país", ele disse em seu discurso semanal na sexta-feira.

Sua conta no Twitter, é claro, tem sido veículo para todo tipo de repente que desafia a tradição, com frequência alimentado pelo mais recente segmento da "Fox News". Presidentes raramente zombam de apresentadores de reality shows por causa de baixa audiência, se queixam de esquetes de programas humorísticos de fim de noite, repreendem juízes ou membros de seu próprio partido que os desafiam, insultam astros de Hollywood e a Suécia, declaram a mídia de "notícias falsas" de ser "inimiga do povo americano" ou acusam o presidente anterior de grampeá-los ilegalmente sem apresentar qualquer prova.

David Gergen, um assessor da Casa Branca para quatro presidentes, incluindo Reagan, notou que Franklin D. Roosevelt falava sobre a "liderança moral" da presidência.

"Infelizmente, perdemos essa visão nos últimos anos e ela praticamente desapareceu durante os primeiros 100 dias do governo Trump", disse Gergen.

Outra mudança na presidência envolve a recusa de Trump em divulgar suas declarações de imposto de renda, uma prática dos presidentes por 40 anos, e sua manutenção de seu vasto império de negócios, que inclui propriedades tanto no exterior quanto a poucas quadras da Casa Branca.

"Ele violou os limites da ética impostos a todos os outros presidentes por décadas", disse Normal L. Eisen, um alto conselheiro de ética da Casa Branca durante o governo Obama.

Além disso, Trump tem sido lento para criação de uma estrutura como em governos anteriores. Ordens e memorandos nem sempre são revisados por todas as autoridades relevantes. As reuniões nem sempre contam com a presença de assessores fundamentais, que temem sair do lado do presidente.

"A noção de cadeia de comando desapareceu", disse David F. Gordon, o diretor de planejamento de políticas do Departamento de Estado sob o presidente George W. Bush.

Mas se a presidência se tornou um tanto rançosa sob as velhas normas, à medida que seus ocupantes cada vez mais se prendiam a pontos de discussão cuidadosamente roteirizados e evitavam a espontaneidade, Trump trouxe de volta uma certa autenticidade e disposição de se engajar. Suas frequentes coletivas de imprensa e entrevistas podem ser altamente francas, desinibidas, até mesmo cruas. Ele faz pouco mistério sobre o que se passa em sua mente.

"A eleição de 2016 não foi um pedido delicado para contestar as tradições existentes, mas sim uma exigência para que nosso próximo presidente fizesse as coisas de modo diferente", disse Jason Miller, um alto conselheiro de Trump durante a campanha. "E apesar da classe política profissional ter dificuldade em entender o que aconteceu ao controle dela do poder, os apoiadores do presidente Trump, os homens e mulheres esquecidos aos quais ele se referiu em seu discurso de posse, adoram a mudança que estão vendo."

Presumivelmente, Trump permanecerá impulsivo, até mesmo impetuoso, mas também tem se mostrado aberto a conselhos. Ele foi dissuadido a suspender as sanções contra a Rússia, a transferir a embaixada americana para Jerusalém, a abandonar a política "uma só China", a rasgar o acordo nuclear com o Irã, a reverter a abertura diplomática com Cuba, a fechar o Banco de Exportação-Importação, a declarar a China como sendo manipuladora cambial em nos últimos dias, a abandonar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Ele ainda pode fazer algumas ou todas essas coisas, mas ao esperar, ele tem a oportunidade de estabelecer as bases em vez de agir de modo precipitado.

Ele agora recebe seus briefings de inteligência na maioria dos dias. E assessores disseram ter notado sinais de crescimento no cargo, apontando para sua decisão de atacar a Síria após o uso por ela de armas químicas contra civis, assim como seus esforços privados para persuadir o Egito a soltar um trabalhador de ajuda humanitária americano que foi preso. Ambos os casos mostram que Trump "absorveu as responsabilidades do cargo e o impacto das decisões que toma", disse um funcionário da Casa Branca, falando sob a condição de anonimato para poder discutir seu chefe.

Meena Bose, diretora do Centro Peter S. Kalikow para o Estudo da Presidência Americana na Universidade Hofstra, disse que a presidência de Trump até o momento parece diferente de qualquer outra, exceto talvez a de Andrew Jackson. Ela notou que Jackson era visto como errático na época, mas foi posteriormente avaliado pelos historiadores como um quase grande presidente.

"Será que a presidência de Trump poderá ser vista da mesma forma algum dia?" ela perguntou. "É difícil ver isso na marca de 100 dias, mas essa é uma medida artificial, com grande parte de sua presidência ainda por vir."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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