Papel de Ivanka Trump na Casa Branca vai além da moderação de condutas do pai

Jodi Kantor, Rachel Abrams e Maggie Haberman

  • John Locher/AP

Um mês antes de Donald Trump ser eleito presidente, ele e seus assessores viram a compostura fria da superfície de sua filha se desfazer.

Dentro da Trump Tower, o candidato estava se preparando para um debate quando um assessor chegou correndo com a notícia de que o jornal "The Washington Post" estava prestes a publicar um artigo dizendo que Trump tinha se gabado de apalpar partes íntimas de mulheres. Enquanto Ivanka Trump se juntava a outros aguardando para ver o vídeo do episódio, o pai dela insistia que a descrição de seus comentários não soava como algo que teria dito.

Quando a gravação finalmente mostrou que ele estava errado, a reação de Trump foi rancorosa: ele concordou em dizer que lamentava caso alguém tivesse se ofendido. Conselheiros disseram que isso não bastava.

Ivanka argumentou enfaticamente em prol de um pedido de desculpas pleno, segundo várias pessoas presentes na discussão da crise, que se desenrolou no escritório de Trump no 26º andar. Criada em meio a um turbilhão de manchetes de tabloides, ela passou sua vida adulta rotulando a si mesma como a filha equilibrada, focada na família. Ela vendia sua grife de moda com slogans sobre empoderamento feminino e estava concluindo um livro sobre o assunto. Enquanto ela falava, Trump permanecia inflexível. Os olhos de sua filha se encheram de lágrimas, o rosto dela corou e ela saiu às pressas frustrada.

Sete meses depois, Ivanka é a confidente de seu pai na Ala Oeste, uma conselheira cuja pasta parece ter poucos parâmetros, o que a coloca entra as mais altas funcionárias em uma equipe composta quase totalmente por homens.

Os dois trocam ideias do amanhecer até tarde da noite, segundo assessores. Apesar de ela não ter nenhuma experiência em governo ou políticas, ela planeja revisar algumas das ordens executivas antes de serem assinadas, segundo funcionários da Casa Branca. Ela telefona para os membros do Gabinete sobre questões nas quais está interessada. Ela realiza uma reunião semanal com Steven Mnuchin, o secretário do Tesouro.

Em entrevistas na semana passada, ela disse que pretende agir como força moderadora em um governo repleto de sentimento nacionalista. Outros funcionários acrescentaram que ela opina sobre assuntos incluindo mudança climática, deportação, educação e políticas para refugiados.

Ao mesmo tempo que Ivanka diz estar buscando exercer maior influência, ela reconhece ser uma novata em relação a Washington. "Ainda estou nos primeiros estágios de aprendizado sobre como tudo funciona", ela disse, "mas já sei o suficiente para ser uma voz mais proativa dentro da Casa Branca".

Ivanka, uma ex-modelo de 35 anos, empreendedora e desenvolvedora de hotéis, diz que se concentrará na desigualdade de gênero nos Estados Unidos e no exterior, buscando criar um programa federal de licença remunerada, creches a preços mais acessíveis e um fundo global para mulheres que são empreendedoras, entre outros esforços. Seu interesse por questões de gênero surgiu do hashtag "Womem Who Work" (mulheres que trabalham) e uma campanha de marketing que ela concebeu poucos anos atrás, para ajudar a vender sapatos de US$ 99 e vestidos de US$ 150. Na terça-feira, o livro de conselhos de carreira no qual ela estava trabalhando antes da eleição, cujo título remete ao seu hashtag, será publicado.

Ao se inserir na dinâmica escaldante de gênero, ela está se tornando uma compensação para os sonhos desfeitos de uma presidência feminina e para o debate sobre o retrospecto de Trump em relação às mulheres e os pontos de vista dele sobre elas. Os críticos veem os esforços dela como uma tentativa descarada de promoção de Trump por uma mulher de privilégio extraordinário, que aprendeu que o feminismo pode ser uma marca poderosa (Ivanka não está promovendo seu livro por razões éticas.)

Em duas entrevistas na semana passada, Ivanka conversou sobre liberar o potencial econômico das mulheres, com algumas de suas frases soando curiosamente como as de Hillary Clinton, e dizendo sobre como encontrou um novo modelo em Eleanor Roosevelt.

"De repente, após meu pai declarar sua candidatura, todas as coisas que eu estava fazendo e pelas quais eu era elogiada, as mesmas pessoas, os críticos, passaram a vê-las sob um prisma diferente", ela disse. "De alguma forma, todas as coisas pelas quais me aplaudiam por ser da geração do milênio, como mulher empreendedora, passaram a ser vistas cinicamente como sendo oportunistas."

Algumas ex-funcionárias expressaram surpresa por seu novo interesse em políticas, dizendo que ela já relutou em lhes conceder licença maternidade. Mas outros observadores a consideram a melhor esperança no governo para progresso em questões de gênero e se disseram encorajados ao ver a filha do presidente, assim como uma integrante importante de uma Casa Branca republicana, defender uma licença remunerada familiar federal.

"Torço para que ela se torne uma grande campeã nessa área", disse Jim Yong Kim, o presidente do Banco Mundial, que está trabalhando com Ivanka no financiamento de empreendedores do sexo feminino.

Pessoas próximas de Ivanka dizem que ela costuma ser pró-negócios e socialmente liberal. Mas ela diz que em muitas questões não conta com posições já formadas. (Na Casa Branca, ela usa termos corporativos, como "plano de negócios", tanto quanto partidários ou políticos.)

Mas ela tem uma habilidade quase sem igual, dizem familiares e assessores: ela consegue transmitir críticas de forma eficaz a um homem que com frequência as recusa quando vindas de outros, além de poder apelar para que ele mude de ideia.

"Sou a filha dele. O conheço por toda minha vida. Ele confia em mim", ela disse. "Não tenho uma agenda oculta. Não estou buscando atingi-lo para me beneficiar."

A filha leal

Assim que Ivanka ingressou nos negócios imobiliários da família em 2005, o nome Trump se tornou ainda mais uma fonte de poder e oportunidade devido ao novo brilho do reality show de televisão "O Aprendiz", estrelado por seu pai. Ivanka se apresentava como uma figura de autoridade no programa, avaliando os méritos dos candidatos durante as tensas cenas na sala de reuniões.

A atenção lhe ajudou a licenciar seu nome para produtos: joias (2007), calçados (2010), roupas (2010) e bolsas (2011), todos promovidos no programa. Seus negócios estavam estreitamente entrelaçados ao nome e organização de seu pai, onde ela continuava passando grande parte de seu tempo.

Mas penetrar no mercado de massa representava um desafio: a vida privilegiada de Ivanka parecia algo distante para as mulheres que compravam na Macy's. Assim, no final de 2013, ela e seu marido reuniram alguns poucos funcionários em frente a um quadro branco no apartamento deles no Upper East Side. "Faça Acontecer" de Sheryl Sandberg estava no topo dos livros best-seller e a equipe de Ivanka queria seu próprio slogan cativante, porém acessível.

A sessão de "brainstorm" resultou em novo mote: "Mulheres Que Trabalham".

Posteriormente, Ivanka e pessoas próximas a ela descreveram o período pouco antes do anúncio da candidatura de seu pai como um dos mais satisfatórios de sua vida. Ela conseguiu atualizar a velha marca da família com designs mais elegantes. Ela estava desenvolvendo pessoalmente um hotel no endereço do antigo prédio dos Correios em Washington, um imóvel histórico. E a revista "Vogue" publicou um perfil dela como modelo do gosto e realizações da geração do milênio.

Mas o primeiro dia da campanha presidencial de seu pai já lhe causou problemas: os comentários dele sobre o envio, pelo México, de estupradores para o outro lado da fronteira fez com que dois chefs célebres abandonassem o projeto no velho prédio dos Correios.

Um papel não familiar

Ivanka ficou chocada com a exaltação e fúria da campanha. Antes, ela recebia cartas de admiração, a chamando de modelo; agora, muitas das cartas que recebia eram de críticas. "Tudo o que era atribuído a ele de repente, para meus críticos, também passou a ser válido para mim", ela disse.

Na semana passada, falando em seu novo gabinete repintado na Ala Oeste, Ivanka parecia alternadamente energizada, defensiva e assustada. Nos bastidores, dizem conselheiros, ela se mostra frustrada e infeliz por abrir mão de sua vida em Nova York, e determinada a vencer e fazer o melhor possível em uma passagem pela Casa Branca que nunca esperava.

"Há muito que não sei sobre como o governo funciona e como as coisas são feitas, mas sinto que já conheço o suficiente agora para ser mais proativa a respeito do tipo de mudanças e reformas que gostaria que acontecessem", ela disse.

Exercer o papel de defensora centrista em um governo de inclinação de direita seria um desafio para qualquer pessoa, mesmo aquelas imersas na política. Assim como para seu pai, a falta de experiência em Washington e a preferência por negociações diretas de negócios podem resultar em colisões dolorosas.

Por ora, Ivanka reconhece o quanto tem que aprender e pede ao público que seja paciente com ela.

"Acredito que com o tempo chegarei ao lugar certo", ela disse. "A curto prazo enfrentarei tropeços e, em alguns casos, receberei críticas que poderiam ter sido evitadas caso tivesse dito publicamente o que penso."

"Estou realmente tentando aprender", ela acrescentou.

Michael Barbaro e Alison Smale contribuíram com reportagem. Kitty Bennett e Rachel Quester contribuíram com pesquisa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos