No México, jornalistas temem pela morte e gritam por socorro

Azam Ahmed

Em Tierra Blanca (México)

  • DANIEL BEREHULAK/NYT

    Familiares e amigos de Pedro Tamayo Rosas, jornalista que foi assassinado, em momento de silêncio de seu funeral

    Familiares e amigos de Pedro Tamayo Rosas, jornalista que foi assassinado, em momento de silêncio de seu funeral

As ligações chegam com frequência agora: mais um corpo encontrado, quebrado e deixado em frangalhos, morto a balas. Eles surgem durante o dia, no meio da noite e de madrugada. As mortes não têm hora.

Membros da tribo se reúnem para prestar respeito, as fotografias granuladas e notícias em colunas testemunham que mais um jornalista foi morto aqui no Estado de Veracruz. É o lugar mais perigoso para ser um repórter no hemisfério ocidental hoje.

"Vivemos nesse inferno há algum tempo já", disse Octavio Bravo, um jornalista, olhando fixamente para o caixão de um colega abatido em Veracruz no ano passado. "Você não pode imaginar a frustração, a impotência que sentimos."

O México é um dos piores países do mundo para alguém ser um jornalista. Pelo menos 104 profissionais da imprensa foram assassinados no país desde 2000, enquanto outros 25 desapareceram e estão supostamente mortos.

Na lista dos lugares mais mortíferos do mundo para ser um repórter, o México fica entre o Afeganistão dilacerado pela guerra e o Estado falido da Somália. No ano passado, 11 jornalistas mexicanos foram mortos, o maior número no país neste século.

E há pouca esperança de que 2017 seja melhor.

Março foi o pior mês registrado no México, segundo o Article 19, grupo que acompanha os crimes contra jornalistas em todo o mundo. Pelo menos sete deles foram alvos de tiros no mês passado --diante de sua casa, descansando numa rede, saindo de um restaurante, cobrindo um acontecimento. Três deles morreram, atingidos por homens armados que desapareceram sem deixar vestígios.

Os motivos dessas mortes são vários: assassinos de cartéis incomodados pela cobertura agressiva, autoridades corruptas que querem calar os críticos, violência aleatória e até repórteres que passam para o mundo criminoso que antes cobriam.

Segundo dados do governo, funcionários públicos como prefeitos e policiais ameaçaram jornalistas com maior frequência do que os cartéis de drogas, criminosos ou qualquer pessoa nos últimos anos, pondo em risco investigações e levantando dúvidas sobre o compromisso do governo de denunciar os suspeitos.

DANIEL BEREHULAK/NYT
Polícia estadual patrulha a região de Xalapa, em Veracruz, no México

Os casos incluem jornalistas torturados ou mortos sob ordens de prefeitos, repórteres espancados por homens armados em suas redações por ordem de autoridades locais e policiais que ameaçam ou matam jornalistas por fazerem o noticiário.

Dos mais de 800 casos graves de assédio, ataque ou homicídio cometidos contra jornalistas nos últimos seis anos, o órgão federal criado para processar crimes contra a liberdade de expressão condenou os suspeitos em apenas dois.

"Não é que eles não consigam resolver esses casos, é que não querem ou não têm permissão para isso", disse uma autoridade graduada da polícia que falou sob a condição do anonimato. "Essa é uma questão política. Jornalistas mortos dão uma imagem negativa para o governo, mas é ainda pior quando são encontrados mortos em consequência de seu trabalho."

O governo rejeita as críticas, comentando que aprovou leis para proteger os jornalistas, dando-lhes botões de pânico, equipamento de vigilância e até guardas armados quando a ameaça é muito grave.

"É um fato inegável que a liberdade de expressão existe no México", disse em um comunicado o gabinete do ministro da Justiça mexicano, notando que "o exercício constante dela criou riscos e obstáculos".

Ataques à mídia são totalmente investigados, e medidas exaustivas são tomadas para proteger os jornalistas, acrescentou ele, demonstrando o cuidado "que o Estado mexicano está tomando para preservar esse direito e se opor a qualquer ameaça contra seu livre exercício".

Nenhum, das centenas de jornalistas sob a proteção do governo nos últimos anos, foi morto --até o último verão, quando um repórter policial com diversas ameaças a sua vida foi morto a tiros na frente de casa.

Mas até as autoridades que dirigem o programa de proteção reconhecem que gastar milhões para impedir que os jornalistas sejam mortos não pode solucionar o problema.

"Sabemos que essa não é uma situação que podemos consertar caso a caso", disse Roberto Campa, o vice-secretário para direitos humanos do Ministério do Interior. "O desafio da impunidade é enorme."

As consequências para o México são muito maiores que algumas mortes a mais em um país onde 98% dos assassinatos ficam sem solução. Aos olhos de muitos jornalistas mexicanos, o crime, a corrupção e a indiferença estão matando a promessa básica de uma imprensa livre no México --e com ela um esteio central da democracia do país.

"A liberdade de expressão aqui se torna uma vitória", disse Daniel Moreno, diretor-geral da Animal Político, uma organização noticiosa independente do México.

Diante "do fato de que as autoridades provaram que são incapazes de resolver a maioria dos crimes contra jornalistas, e são muitas vezes os perpetradores dessa violência, podemos legitimamente dizer que o jornalismo está em estado de emergência neste país".

DANIEL BEREHULAK/NYT
Funeral do jornalista Pedro Tamayo Rosas em Tierra Blanca, em Veracruz, no México

Depois de quase uma década de crescente violência contra a mídia, seja de autoridades locais ou do crime organizado, a imprensa se adaptou reduzindo severamente o que relata. A autocensura é não apenas comum, como muitas vezes o padrão.

No mês passado, quando uma respeitada repórter foi morta com oito tiros quando saía de casa, um jornal para o qual ela escrevia subitamente anunciou que estava fechando as portas, advertindo sobre a paisagem mortal em que os jornalistas são obrigados a viver.

"Nós lutamos contra a maré, recebendo ataques e punições de indivíduos e do governo por termos denunciado suas práticas erradas e atos corruptos", escreveu o editor do jornal "Norte" em uma carta na primeira página. "Tudo na vida tem um começo e um fim, um preço a pagar", acrescentou ele, dizendo: "Não estou pronto para que mais um de meus colaboradores pague por isso, ou eu mesmo".

O presidente Enrique Peña Nieto, que chegou ao cargo prometendo levar o país a vencer a guerra das drogas, prometeu abordar a violência contra a mídia.

Mas o governo federal com frequência decidiu que os crimes contra jornalistas não são ataques à liberdade de expressão, o que significa que não exigem envolvimento do governo. Os investigadores federais revisaram 117 assassinatos de jornalistas que remontam a 2000, mas decidiram processar apenas oito. Um foi solucionado.

Às vezes o governo declara, horas depois de um jornalista ser encontrado morto, que o assassinato não teve nada a ver com o trabalho da pessoa, bem antes que a investigação tenha começado.

A Suprema Corte do país recusou o critério do governo no mês passado, escrevendo que todos os crimes contra jornalistas devem ir à Justiça federal. Mas a decisão ainda não é compulsória e pode se aplicar apenas a novos crimes, o que significa que dezenas de casos de assassinato ficarão onde estão, nos tribunais locais, onde os recursos são poucos e a vulnerabilidade à corrupção é alta.

"Em Veracruz, é fácil matar um jornalista", disse Jorge Sánchez, cujo pai, Moisés, foi assassinado dois anos atrás.

Moisés Sánchez publicou o jornal "La Unión" durante mais de uma década. Mas entrou em território proibido, segundo sua família, quando começou a escrever reportagens sobre um prefeito que esbanjava dinheiro enquanto a pequena cidade ficava mais perigosa.

Em janeiro de 2015 homens armados chegaram à casa de Sánchez e o arrastaram enquanto sua família olhava impotente. Dias depois, partes de seu corpo foram encontradas em três sacos plásticos pretos.

Durante meses, parentes e jornalistas em Veracruz pediram que o governo federal investigasse o caso como um ataque à liberdade de expressão. Mas o gabinete do promotor federal especial criado para proteger a livre expressão resistiu.

"Não pudemos encontrar uma única evidência que sustente essa alegação", disse Ricardo Celso Nájera Herrera, o promotor federal chefe.

A recusa deixou atônita a família de Sánchez, porque as autoridades de Veracruz tinham obtido evidências de que a morte teve motivos políticos. Um guarda-costas do prefeito, Medellín de Bravo, admitiu que recebeu ordens para abduzir e assassinar Sánchez em nome de seu chefe.

"Este caso é absolutamente relacionado ao jornalismo", disse no final do ano passado o ex-promotor-chefe do Estado de Veracruz Luis Ángel Bravo Contreras.

Depois de dois anos de pressão constante, o governo federal concordou em aceitar o caso. Mas os anos passaram, apenas um dos seis suspeitos foi capturado e o ex-prefeito não é encontrado, tendo se escondido há muito tempo.

Como dezenas de jornalistas entrevistados em Veracruz, a família de Sánchez tem pouca esperança de justiça. As mortes de jornalistas, segundo eles, caem em um túmulo de impunidade, como quase todos os assassinatos no México.

"A única coisa que podemos é fazer barulho", disse Jorge Sánchez, que continuou a publicar o jornal de seu pai.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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