Líder do Hamas dá sua cartada final e tenta acabar com o status de pária do grupo

Declan Walsh

Em Doha (Qatar)

  • ARIM JAAFAR/AFP

No violento fluxo do Oriente Médio, Khaled Meshal é um dos grandes sobreviventes. Ao longo dos anos, figuras veteranas do Hamas, o grupo militante islamita que resiste de forma violenta a Israel, morreram em quartos de hotéis nas mãos de assassinos israelenses ou foram aniquilados por mísseis guiados durante as guerras em Gaza.

Meshal, que passou sua carreira pulando de uma capital árabe para outra, teve sua própria "fria": em 1997, um ano depois de se tornar líder do Hamas, espiões israelenses borrifaram veneno em seu ouvido em uma rua da Jordânia, deixando Meshal em coma e desencadeando um furioso confronto diplomático entre a Jordânia e Israel que terminou com a entrega de um antídoto salvador.

Agora Meshal está deixando o cargo de líder máximo, dando fim a um reinado de 21 anos durante o qual o Hamas se transformou em uma temível força militar e também entrou para a política, governando Gaza na última década. No entanto, ele se tornou um pária internacional, por seus ataques contra civis.

A despedida de Meshal é um novo documento político, divulgado em um hotel de luxo de Doha no começo da semana, que ele está apresentando como uma tentativa de tirar o Hamas de seu isolamento ao mostrar um rosto mais amigável ao mundo.

Grande parte disso é a diluição da linguagem antissemita da carta original do Hamas de 1988, com sua menção a uma guerra entre árabes e judeus. "Estamos deixando claro que nosso projeto é de libertação —não sobre religião ou judeus", disse Meshal em uma entrevista na terça-feira em Doha, seu lar mais recente.

Sua oferta não encontrou muitos simpatizantes. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu de Israel rejeitou de imediato a proposta, dizendo que era um exercício de insinceridade. "O Hamas está tentando enganar o mundo, mas não conseguirá", disse seu porta-voz. O Hamas é odiado em Israel, por seus bombardeios e foguetes lançados de forma indiscriminada contra áreas civis, e os críticos dizem que o grupo gasta dinheiro demais se preparando para a guerra e não o suficiente com os residentes sitiados de Gaza.

O documento também foi recebido com silêncio por países ocidentais, um reflexo do fato de que o Hamas não conseguiu flexibilizar nenhum dos fatores que fizeram com que ele fosse rotulado como uma organização terrorista —e nem repudiou formalmente a carta de 1988, com sua menção a "obliterar" Israel e criar um Estado Islâmico em "cada centímetro" da Palestina histórica.

A incapacidade de conseguir mesmo esse gesto superficial é um sinal significativo de como o Hamas está paralisado por sua própria ambivalência entranhada em relação a uma reforma, disse Nathan Thrall, um analista do International Crisis Group baseado em Jerusalém, que observou que a carta original foi por muito tempo uma fonte de constrangimento silencioso entre líderes do Hamas mais propensos à reforma.

"Por um lado, eles estão tentando atrair os linhas-duras ao não abrir mão de seus princípios essenciais", disse Thrall, o autor de um livro ainda não lançado sobre o conflito entre Israel e Palestina, "The Only Language They Understand" ("a única língua que eles entendem", em tradução livre).

"Por outro, pessoas como Meshal estavam esperando que o documento pudesse levar a aberturas com os Estados árabes sunitas e o Ocidente. Ele tenta agradar a todos, e ao fazer isso não agrada a ninguém".

Contudo, a tentativa de mudar a imagem do Hamas vem em um momento de mudança súbita no Oriente Médio. Mahmoud Abbas, o líder da rival Autoridade Palestina, foi recebido pelo presidente Donald Trump em Washington na quarta-feira.

Antes, Trump falou sobre seu desejo de resolver o conflito entre Israel e Palestina, mas seu interlocutor, Abbas, de 82 anos, é visto como esgotado do ponto de vista político, e seus adversários começaram a fazer manobras para sucedê-lo.

O Hamas também está mudando: há eleições secretas em andamento para decidir quem sucederá Meshal como líder nas próximas duas semanas. Isso, por sua vez, levanta a questão do quê o Hamas pode se tornar.

Em uma entrevista de uma hora de duração, Meshal, que usava seu costumeiro terno escuro com uma camisa branca de gola aberta, demonstrou o lustro político que ele trouxe à organização ao longo de duas décadas, uma vez que ela passou de grupo de combate localizado que explodia ônibus e cafés em Jerusalém para uma força que hoje se posiciona como líder em potencial de todo o povo palestino.

Quando o documento foi divulgado na noite de segunda-feira, ele estava dando entrevistas no salão de baile de um hotel até 1h da manhã, uma enxurrada atípica de publicidade para uma organização furtiva.

Meshal disse que o documento, produto de quatro anos de diálogo entre líderes em Gaza, na prisão e no exílio, no mínimo mostrava que o Hamas estava aberto a mudar suas ideias.

Ao se reformular como um movimento de libertação nacional, mais do que parte de uma luta islâmica mais ampla, o Hamas parece estar se distanciando da Irmandade Muçulmana, o que ficou evidente por sua ausência no texto.

Essa omissão foi interpretada como uma tentativa de bajular o presidente do Egito, Abdel-Fattah el-Sissi, cujas tropas controlam parte da fronteira com Gaza e cujo serviço de inteligência determina quando e quais líderes do Hamas podem sair de Gaza.

Igualmente importante é o fato de Meshal ter dito que esperava que o documento fosse aproximar o Hamas da Arábia Saudita, que, assim como o Egito, é firmemente contrária à Irmandade Muçulmana. "Nós já temos um diálogo com partes ocidentais, e se fazemos isso com o Ocidente, podemos muito bem fazer isso com nossos irmãos árabes", ele disse.

No entanto, logo depois Meshal reconheceu que uma aproximação como essa seria complicada com o principal fornecedor de armas do Hamas, o Irã, que está envolvido em guerras por procuração contra a Arábia Saudita nos conflitos mais explosivos da região.

"Estamos bastante cientes do tanto de raiva que há contra o Irã por causa dos conflitos intensos no Iraque, na Síria e no Iêmen", disse Meshal. "Nossa prioridade é servir à nossa própria causa sem nos emaranhar em disputas internas".

Olhando em retrospecto para seu período no comando, Meshal cita a mera sobrevivência como uma de suas maiores conquistas.

"Sinto orgulho pelo fato de o povo de Gaza ter permanecido inabalável sob o comando do Hamas apesar de três guerras devastadoras", ele disse. Durante o último conflito com Israel, em 2014, 1.462 civis palestinos em Gaza foram mortos, de acordo com um relatório da ONU, e foguetes do Hamas mataram seis civis israelenses. Mas a relativa paz dos últimos anos —com relativamente poucos foguetes disparados contra território israelense a partir de Gaza desde 2014— também apresenta desafios.

No último capítulo da longa briga entre o Hamas e a Autoridade Palestina, Abbas cortou recentemente os salários de funcionários da Autoridade Palestina em Gaza, o golpe final em um território cujas condições miseráveis de vida muitas vezes é comparada com um campo de concentração gigante.

O bloqueio egípcio e israelense de Gaza significa que seus 2 milhões de habitantes se sentem presos, disse o analista Thrall. "Estudantes com bolsa, pessoas que querem viajar para fora, ninguém pode sair. É uma das maiores pressões que o povo de Gaza sente".

A obstinação tem seu preço, e Meshal está tentando equilibrar essa rigidez com a necessidade de se abrir, em uma reflexão sobre a mudança do cenário político— e talvez pender para políticas mais expansivas que talvez um dia possam tirar o Hamas do isolamento.

Os favoritos para a sucessão de Meshal são Ismail Haniya, um líder do Hamas em Gaza, e Abu Marzouk, que estaria vivendo em exílio no Cairo.

Muitos presumem que Meshal assumirá outro cargo de alto nível no Hamas depois de sua saída. Ele, que normalmente é reservado, disse somente que "um lutador da resistência nunca se aposenta".
 

Tradutor: UOL

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