Quem está alimentando as mentiras dos que espalham teorias de conspirações?

Clyde Haberman

  • REUTERS/Sean Adair

Os italianos têm uma palavra para isso: "dietrologia".

Ela deriva da palavra para "por trás". É o estudo do que está por trás de tudo, "dietro". Para muitos italianos, a verdade raramente é tão descuidada a ponto de permanecer na superfície, especialmente em assuntos públicos. Alguém ou algo deve estar manipulando os eventos, sem ser visto, como se estivesse por trás de uma cortina.

O inglês não conta com uma palavra específica para expressar esse conceito. Mas a ideia existe assim mesmo. De forma mais sucinta, poderíamos chamar de teoria de conspiração e isso há muito existe entre nós. Mas os americanos nunca tiveram até agora um presidente que possa ser descrito de forma razoável como um teórico de conspiração em chefe.

Por anos, Donald Trump carregou a tocha do "birtherism", a premissa infundada de que o presidente Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos. Na campanha presidencial do ano passado, Trump alegou ter testemunhado algo que ninguém mais viu: milhares de muçulmanos em Nova Jersey celebrando a devastação do 11 de Setembro de 2001. A ascensão ao mais alto cargo da nação não o mudou nesse aspecto. Sem oferecer qualquer evidência, ele insiste, por exemplo, que Obama grampeou seus telefones e que milhões de não-cidadãos votaram ilegalmente em Hillary Clinton.

O programa de TV "Retro Report", que revê grandes notícias do passado para demonstrar que continuam relevantes, analisou o atual estado da dietrologia americana ao reexaminar o avô da especulação conspiratória moderna: quem matou o presidente John F. Kennedy? Há muito está claro que muitos americanos, talvez a maioria, não aceita o veredicto oficial de que Lee Harvey Oswald agiu sozinho em Dallas em 22 de novembro de 1963.

"Não há nada como o assassinato de Kennedy, eu acho, no reino das teorias de conspiração", disse Alexandra Zapruder ao "Retro Report".

Zapruder se encontra em uma posição singular. A família dela e a morte de Kennedy, como ela narrou em um livro recente, estão inextricavelmente ligadas desde que seu avô, Abraham Zapruder, o dono de uma confecção de roupas femininas, registrou a cena fatal com sua câmera Bell & Howell Zoomatic de 8 milímetros.

O filme Zapruder, um total de 486 quadros durante 26,6 segundos, não foi o único registro visual do assassinato. Filmes caseiros fornecendo entendimentos do caso também foram feitos por outras testemunhas, Orville Nix e Marie Muchmore. Mas Zapruder, que morreu em 1970, por acaso se encontrava em um ponto na rota da coluna de automóveis onde pôde filmar o horror em sua plenitude. A passagem de mais de meio século não diminuiu o poder de choque da filmagem que realizou.

Desde quase o momento em que os disparos foram feitos, teóricos de conspiração passaram a florescer: Oswald não agiu sozinho ou nem mesmo esteve envolvido. O plano para matar Kennedy foi preparado pela Máfia. Ou teria sido pela CIA (Agência Central de Inteligência americana). Ou pelos cubanos. Ou pelos petroleiros do Texas. Ou por vários democratas, principalmente o homem que então assumiu a presidência, Lyndon B. Johnson. Uma hipótese defende que o verdadeiro alvo era John B. Connally, o governador do Texas que estava no carro com Kennedy.

Durante a campanha de 2016, Trump entrou na conversa com a sugestão caracteristicamente vaga e infundada de que o pai do senador Ted Cruz, um imigrante cubano, tinha ligação com a morte.

O assassinato de Kennedy foi um momento divisor de águas, quando começou a ruir a fé da população no governo e em outros pilares da vida cívica americana. A ruína está bem avançada, com teorias de conspiração em pleno florescimento.

O "Retro Report" examina uma velha notícia recente particularmente incendiária: a afirmação bizarra de que Hillary Clinton estava por trás de uma máfia de pedofilia que atuava em uma pizzaria de Washington. Exceto pela existência da pizzaria, nada na história tem qualquer semelhança com a realidade. Ela deveria ser risível. Mas algumas pessoas a levaram a sério. Um homem iludido foi até a pizzaria com um fuzil de assalto para que pudesse, como ele colocou, "investigar pessoalmente". Ele foi preso e posteriormente se declarou culpado por ataque à mão armada.

Pouco dissuade os propagadores americanos de dietrologia, como Alex Jones e Mike Cernovich. Eles e outros disseminam paranoia pelo rádio e pelas redes sociais. E contam com seguidores dispostos a acreditar em intrigas sombrias: os ataques terroristas do 11 de Setembro foram um plano elaborado pelo governo Bush; o massacre de 2012 na escola primária de Sandy Hook, em Connecticut, foi uma farsa. No ano passado, uma importante candidata a uma cadeira no poderoso Conselho Estadual de Educação do Texas chamou atenção nacional ao postar uma série de teorias de conspiração no Facebook, incluindo a alegação de que Obama trabalhou como prostituto em sua juventude. (Ela perdeu a disputa.)

O tráfico de conspirações não é exclusivamente americano. Funcionários de saúde que buscavam vacinar as crianças contra pólio foram mortos no Paquistão por militantes que detectavam uma trama antimuçulmana. A morte repentina do papa João Paulo 1º, em 1978, passados meros 33 dias de seu papado, gerou teorias de conspiração que duram até hoje. Em algumas sociedades árabes, é procedimento padrão culpar o Mossad, o serviço secreto israelense, por praticamente qualquer calamidade.

Mesmo assim, o fenômeno floresceu nos Estados Unidos. A morte é um terreno notavelmente fértil para os sussurradores de conspirações, como aqueles que insistem que o casal Clinton matou seu amigo Vincent Foster e aqueles que insinuam que morte do ministro Antonin Scalia, da Suprema Corte, foi criminosa.

Suspeita paira como nunca agora. Isso difere demais dos Estados Unidos de 1963. As pesquisas de opinião mostram um declínio acentuado na confiança em instituições como a mídia, academia, conselhos diretores corporativos, Wall Street e, com certeza, no governo. Durante sua campanha, Trump explorou essa desconfiança e a incitou, com alertas ominosos de que "eles estão atrás de você". Todo o sistema é "manipulado", ele disse repetidas vezes.

É claro, ferramentas modernas de comunicação possibilitam a disseminação de mentiras com a velocidade de um raio. Uma frase atribuída a Mark Twain diz que uma mentira pode percorrer meio mundo antes que a verdade calce suas botas. Com a tecnologia atual, a mentira pode ir até Netuno e voltar.

O próprio Twain tinha uma queda por dietrologia. Uma frase de seu "Tom Sawyer's Conspiracy" (A conspiração de Tom Sawyer, em tradução livre, obra inacabada e publicada postumamente, não lançado no Brasil) permanece válida em meio às realidades atuais. "O certo não tem nada a ver com isto", diz Tom. "Quanto mais errada a conspiração, melhor ela é."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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