Ex-líder estudantil comanda grupo que derrubou veto de Trump sobre imigrantes

Miriam Jordan

  • HILARY SWIFT/NYT

    Becca Heller, fundadora do Projeto Internacional de Assistência aos Refugiados, durante evento de arrecadação de fundos em sua casa, em Nova York

    Becca Heller, fundadora do Projeto Internacional de Assistência aos Refugiados, durante evento de arrecadação de fundos em sua casa, em Nova York

Ao ser avisada por suas fontes em Washington que uma ordem executiva (mais ou menos equivalente a uma medida provisória no Brasil) impedindo a entrada de refugiados no país estava para ser emitida, Becca Heller enviou mensagens para sua vasta rede de estudantes de direito e advogados pro bono:

"Digam a quaisquer clientes que já tenham visto para tomarem um avião para os Estados Unidos. Preparem-se para a possibilidade de serem detidos ao chegarem."

"URGENTE: Protejam os refugiados que chegarem aos aeroportos", ela escreveu em um e-mail enviado em 25 de janeiro.

Assim, quando o presidente Donald Trump assinou a ordem dois dias depois, e milhares de advogados seguiram para os aeroportos em Nova York, Chicago, Los Angeles e outros lugares, o que o público viu não foi uma reação espontânea, mas sim a preparação meticulosa de uma advogada briguenta de 35 anos, que agora está no meio de uma das maiores disputas de Trump em torno de políticas.

Na segunda-feira, a organização sem fins lucrativos que Heller iniciou há oito anos como uma organização estudantil da Escola de Direito de Yale, e que já ajudou mais de 3.000 refugiados a se estabelecerem nos Estados Unidos, tentará manter sua série de vitórias contra o governo Trump em um tribunal federal de apelações na Virgínia. O governo tentará derrubar uma vitória da organização em instância inferior que bloqueou a segunda versão de Trump da proibição de entrada no país, a chamando de discriminação inconstitucional contra muçulmanos.

Após a eleição de Trump, ela disse, "eu comecei a pensar cada vez mais em termos militares, de modo que pensei: 'O que significa termos um exército de 2.000 advogados que querem trabalhar para os refugiados? O que podemos fazer com isso?'"

Esse tipo de conversa, e as realizações dela, transformaram ela e sua organização, o Projeto Internacional de Assistência aos Refugiados (Irap, na sigla em inglês), em heróis dos oponentes de Trump e em celebridades no circuito costeiro de recepções e mesas redondas.

TODD HEISLER/NYT
Comunidade, a maioria de paquistaneses, reunida no Conselho de Organização de Povos no Brooklyn


Jesse, o filho de Bob Dylan, está filmando um curta metragem sobre o trabalho do grupo.  Dizendo admirar a "audácia" de Heller, Charles Bronfman, o herdeiro da Seagram e um executivo cuja organização já deu a ela um prêmio de US$ 100 mil, promoveu um evento de arrecadação de fundos para ela no mês passado, em seu apartamento na Quinta Avenida.

Heller, que é desbocada quando fala de forma passional e desvairada, manteve sua promessa a Bronfman de que moderaria seu discurso. Ele provocou risos entre as duas dúzias de convidados quando se referiu com ironia às "excelentes" políticas do presidente e quando ameaçou roubar um Chagall pendurado na parede.

"Nós ganhamos muito dinheiro", ela disse depois, se recusando a dizer quanto. Mas toda a atenção ajudou a triplicar o orçamento deste ano do Irap, para US$ 6,5 milhões, ela disse.

Heller caracteriza seu trabalho como apolítico, que não é como descreveriam os apoiadores da agenda de Trump para imigração. Para eles, ela é uma liberal ingênua que coloca o apuro de estrangeiros acima da segurança nacional.

Dale Wilcox, diretor-executivo do Instituto para a Reforma da Lei de Imigração, que apresentou um parecer em apoio ao governo no caso em apelação, disse que para grupos como o Irap, "não existe algo como uma política de imigração que coloque o interesse nacional em primeiro lugar". Ele disse que tratam o sistema de imigração como "um programa gigante de bem-estar social global".

Para esses críticos, Heller diz que seu papel é defender a tradição do país de responder a crises humanitárias. E para aqueles que a conhecem, não causa surpresa que Heller tenha causado dores de cabeça ao governo.

Em seu último ano do colégio, disse Katherine Isokawa, uma amiga desde a adolescência, Heller foi votada como sendo "a pessoa que mais provavelmente debateria com um professor". Agora, "ela é a pessoa que mais provavelmente debateria com o presidente".

Heller cresceu em Piedmont, Califórnia, uma cidade de renda alta próxima de Oakland, filha de um cardiologista e de uma professora. "Era desafiador discutir com ela", disse sua mãe, Serena, sentada na cozinha do sobrado cinza-lavanda onde Heller foi criada. "Ela sempre foi uma defensora eficaz de sua posição."

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Becca Heller em seu escritório em Nova York

Uma visitante frequente da sala do diretor e posteriormente uma matadora das aulas do colégio que a entediavam, Heller mais apreciava a equipe de debate, e quando sua escola deixou de ter uma, ela passou a competir por outra escola. Ela não recebeu um diploma em sua formatura, pois se recusou a compensar as faltas em educação física, o que ela corrigiu por meio de um curso de verão independente.


Após a Faculdade Dartmouth, onde recebeu um prêmio humanitário por seu trabalho por moradias e contra a fome, ela recebeu uma Bolsa Fulbright de estudos para trabalhar em políticas de nutrição em Maláui.

Cursando Direito em Yale, enquanto ela trabalhava com uma equipe de estudantes defendendo diaristas pegos em batidas de imigração, um professor, Michael Wishnie, levou sua filha adolescente para ouvir a primeira argumentação de Heller em um tribunal federal.

"Eu queria que ela visse a maestria e coragem daquela mulher jovem", ele disse, acrescentando que no café do tribunal antes da audiência, "ela ensinou para minha filha alguns novos palavrões".

Durante um verão em Israel, Heller abandonou um estágio e viajou para a Jordânia, onde conheceu refugiados iraquianos presos em um estado de limbo que a deixou estarrecida.

Após conseguir reuniões com a agência de refugiados das Nações Unidas e com a embaixada americana para melhor entender o processo de reassentamento, ela voltou para Yale e, juntamente com outro estudante, fundou o Irap, com o "I" na época significando iraquiano.

Só que havia um problema: eles eram estudantes, não admitidos na Ordem dos Advogados. Assim, eles solicitaram a ajuda de advogados de firmas privadas.

Quando apresentavam seu projeto nas firmas, "a sensação é de que sempre estávamos forçando a abertura de uma porta", lembrou seu cofundador, Jon Finer, que leciona em Princeton.

Heller ajudou iraquianos como Farah Marcolla, que requisitou emigração para os Estados Unidos depois que seu primeiro marido foi assassinado, em retaliação pelo trabalho da família dela com os americanos. "Quando Becca se envolveu, o caso andou muito mais rápido", disse o segundo marido dela, Michael Marcolla, um americano.

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Becca Heller com sua filha Anna em sua casa em Nova York


Um funcionário do governo que lidou com Heller e com o Irap, que se recusou a ser identificado por não estar autorizado a falar publicamente, disse que o grupo foi hábil na identificação e aceleração dos pedidos emperrados no sistema, mas que é possível que muitos desses refugiados acabariam sendo admitidos de qualquer modo.

Em 2014, o Irap contava com a participação de duas dúzias de escolas de direito e mais de 50 escritórios de advocacia lidando com um número crescente de casos. Ele abriu escritórios no ano seguinte em Amã, Jordânia, e em Beirute, Líbano.

O escritório principal da organização na Baixa Manhattan, com vista para o rio Hudson, mais parece o de uma startup, com jovens adultos na faixa dos 20 e 30 anos correndo de um lado para outro. Em uma tarde recente, membros da equipe conversavam com clientes via Skype, discutiam casos pendentes e revisavam políticas para levar ao Capitólio.

Heller, que tira um salário anual de US$ 90 mil, usava seu uniforme de trabalho de jeans, um colete grosso acolchoado e andava pelo escritório de meias.

Ela e seu marido, Dan Mullkoff, um colega de classe de Yale, têm uma filha de 18 meses, Anna, e quando Heller se sente estressada, ela começa a ver as fotos da menina.

"Sempre fico preocupada em não vê-la o suficiente", ela disse posteriormente.

Uma semana após a eleição presidencial, Heller convocou uma reunião de toda a equipe para mapear uma estratégia para o caso de uma proibição de entrada no país. Após a posse, quando enviou três e-mails para sua rede legal, a resposta foi tamanha que o link para inscrição caiu temporariamente.

Em 27 de janeiro, Trump assinou sua ordem executiva ordenando a proibição temporária da entrada de pessoas de sete países de maioria muçulmana e suspendendo o reassentamento de refugiados, para que o governo pudesse rever seus procedimentos de triagem.

Em questão de horas, advogados estavam nos aeroportos, produzindo petições em notebooks, sentados em corredores e lanchonetes. Manifestantes lotaram os terminais, cantando "Deixem que entrem".

"Se não fosse por essa operação, poderia ter ocorrido confusão e caos", disse Robert Atkins, um sócio do escritório de advocacia Paul Weiss, que foi voluntário no Aeroporto Internacional Kennedy, "mas nós, o público, não percebemos imediatamente a desumanidade do que estava acontecendo".

Na noite após a assinatura da ordem executiva, um cliente do Irap, Hameed Darweesh, um iraquiano detido no Aeroporto Kennedy, obteve a primeira decisão da Justiça contra a proibição de entrada no país, de um juiz federal no Brooklyn.

Advogados nos aeroportos mostraram a decisão às autoridades em seus smartphones. Os viajantes começaram a ser liberados.

Apesar de Heller e outros contestadores da proibição terem sido vitoriosos nos tribunais e serem populares entre os liberais, quão amplamente o público apoia esses esforços é uma pergunta em aberto. Apesar de Hillary Clinton ter pedido pela admissão de mais refugiados sírios, Trump pediu para que a entrada deles fosse impedida totalmente, e a proibição de entrada original teria feito isso.

Em março, o Irap persuadiu um juiz federal em Maryland de que a versão revisada da proibição de entrada, que tirou o Iraque da lista de sete países e omitiu as claras preferências religiosas, ainda permanecia inconstitucional. Uma decisão semelhante de um juiz federal no Havaí também está sendo apelada pelo governo.

Apesar da União Americana pelas Liberdades Civis estar cuidando da argumentação oral em nome do Irap, Heller planeja estar presente na audiência na segunda-feira.

"É realmente um bom momento para liderar um exército de advogados em prol dos direitos dos refugiados", ela disse. "Espere muito mais processos."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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