Igreja mais alta que estátua de Mao provoca críticas de comunistas da China

Didi Kirsten Tatlow

Em Changsha (China)

  • Lam Yik Fei/The New York Times

    Igreja em Changsha, na China é mais alta que a maior estátua de Mao Tsé-tung

    Igreja em Changsha, na China é mais alta que a maior estátua de Mao Tsé-tung

Projetando-se para o céu como uma enorme rampa de esqui feita de vidro e metal, uma nova igreja protestante domina a terra revolvida, árvores recém-plantadas e atrações aquáticas ainda em obras em um parque suburbano em Changsha.

Com cerca de 80 metros de altura e encimada por uma cruz, a igreja de Xingsha supera até a maior estátua de Mao Tsé-tung na China, a cerca de 15 km a oeste daqui.

Na ilha Tangerina, no largo rio Xiang, o maciço busto de granito do líder revolucionário se ergue como se vigiasse o mundo. Com 31,5 metros, porém, a escultura tem menos que a metade do tamanho da igreja.

Essa disparidade, na cidade onde Mao passou a juventude e abraçou ideias políticas radicais, enfureceu seus admiradores mais fervorosos em toda a China.

Percebendo um desafio ideológico a seu herói --que fundou a República Popular em 1949 e denunciou o cristianismo como um instrumento do imperialismo estrangeiro--, milhares de fãs "vermelhos" de Mao usaram seus smartphones e computadores neste ano para lançar uma batalha verbal contra essa deturpação de solo sagrado.

Eles atacaram as dimensões e o simbolismo da igreja, dizendo que construí-la em um espaço público é uma má utilização de recursos do Estado oficialmente ateu.

"Aprovar o cristianismo dessa maneira prejudica a segurança ideológica de nossa nação", escreveu Zhao Danyang, do site Grupo de Pensadores Moral Vermelha, em uma postagem típica, quando irrompeu a indignação, em fevereiro.

Temendo uma crise política, as autoridades de Changsha correram para abafar a polêmica.

Guardas foram colocados no Parque Ecológico Xingsha, onde ficam a igreja, um centro de estudos bíblicos, escritórios administrativos e prédios residenciais, perto de um Jardim de Cupido frequentado por namorados da região. As reportagens desapareceram da internet. O debate público esfriou. Diversos telefonemas à sede provincial da associação protestante estatal ficaram sem resposta. Uma cúpula de censura cobriu tudo.

Lam Yik Fei/The New York Times
Escultura de Mao Tsé-tung, na ilha Tangerine, no rio Xiang, em Changsha

Mas nas ruas de Changsha, a capital da província de Hunan, os moradores parecem não saber ou pouco se importam com o choque de cristianismo e comunismo que ocorre entre eles. Perguntadas a respeito, várias pessoas encolheram os ombros e não quiseram comentar, ou disseram que não ouviram falar disso.

Se essa despreocupação das bases no antigo lar de Mao parece surpreendente, para um morador faz todo o sentido.

"Em Hunan, as contradições não são contradições. São normais", disse Han Shaogong, autor de "Um Dicionário de Maqiao", romance que explora a extraordinária diversidade linguística dessa região montanhosa. "Há algumas mulheres idosas que acreditam em Jesus, mas também acreditam em Buda", disse ele.

Embora o Estado comunista tenha suprimido a religião como superstição até a morte de Mao, em 1976, reconheceu cinco fés --protestantismo, catolicismo, budismo, taoísmo e islamismo--, que são administradas por meio de associações "patrióticas".

As estimativas variam, mas muitos situam o número de protestantes em cerca de 60 milhões, a metade deles pertencentes à igreja aprovada pelo governo, os demais prestando culto em "igrejas-casas" ilegais. Um clérigo protestante no Parque Ecológico Xingsha, que deu apenas seu sobrenome, Jiang, disse que as igrejas protestantes oficiais de Changsha têm cerca de 100 mil membros.

Lembranças das ligações de Mao com a cidade estão por toda parte. Sua imagem, em caixas iluminadas e fixadas nas paredes, decoram o novo metrô. Restaurantes anunciam os pratos preferidos dele, como porco gordo assado na brasa. Pimentas, que Mao também adorava, temperam a culinária.

"Nós realmente gostamos de pimenta", disse Han. "E somos esquentados. É considerado um sinal de força."

Wu Aiyun era uma de várias mulheres que distribuíam amostras grátis de xampu perto da estátua de Mao na ilha Tangerina, onde havia uma profusão de flores de primavera. Ela quase não parou quando perguntada o que Mao, que tentou esmagar o capitalismo, pensaria delas.

Lam Yik Fei/The New York Times
Changsha, na China, é a cidade onde Mao Tsé-tung passou sua juventude e amadureceu suas ideias políticas

"Acho que ele gostaria do que estamos fazendo", respondeu ela. "Aquilo foi naquele tempo. Isto é hoje."

Apontando para as ondas de pedra no cabelo de Mao, ela brincou: "Ele era bonitão! Não tinha cabelo ruim!"

Quando jovem, Mao frequentou escolas em Changsha, incluindo um colégio para professores que não cobrava mensalidade e oferecia alojamento barato, como ele disse a Edgar Snow, jornalista americano que escreveu "Red Star Over China" [Estrela vermelha sobre a China].

"Durante esse período, começaram a se formar minhas ideias políticas", disse Mao a Snow. "Aqui também tive minhas primeiras experiências em ação social." Ele leu Adam Smith e filósofos alemães na biblioteca pública de Changsha, que foi inaugurada em 1905 por influência de missionários ocidentais.

Mao organizou greves de estudantes e trabalhadores em Changsha, ajudando a moldar um movimento camponês do tipo que mais tarde dominaria toda a China.

"Nós dizemos: 'Nenhum homem de Xiang não é um soldado'", disse Han, usando um nome local para Hunan.

Mas a região também é conhecida por sua reverência pelos estudos, disse ele. "Em Guangdong, no sul, um herói local seria um empresário. Em Hunan, tradicionalmente era um estudioso."

Refletindo esses valores militares e acadêmicos, Mao fez caminhadas vigorosas pelo campo em Hunan. Ele acreditava que os chineses tinham de se fortalecer para expulsar os imperialistas e os missionários.

Changsha foi um polo da cristandade. A Sociedade Missionária Estrangeira de Yale, mais tarde Associação Yale-China, foi fundada aqui em 1901, uma conexão que perdura. A cidade de New Haven, em Connecticut --onde fica a Universidade Yale--, está desenvolvendo uma relação de cidades irmãs com Changsha.

"Já houve um grande número de igrejas em Changsha, mas muitas foram derrubadas", disse Tan Hecheng, um nativo de Hunan e ex-jornalista, cujo relato de um massacre na província durante a Revolução Cultural de Mao, "The Killing Wild", foi lançado em inglês recentemente, mas não pode ser publicado na China continental.

Apesar desse sofrimento, para muitos moradores Mao é uma fonte de orgulho, pois sua fama confere importância à cidade.

"Mao foi um filho de Changsha. E imperador. O homem mais bem sucedido da China. Por isso ele é uma grande honra para Hunan e Changsha", disse Tan.

"A crença no partido morreu, e hoje tudo gira em torno de vantagem e desvantagem", disse ele. "Sob tais condições, as pessoas não se importam com nada, na verdade. Mao é bom. O cristianismo é bom. Tudo é meio irrelevante."

Mais de dois meses após o início da controvérsia, a associação protestante de Hunan não quer comentar o que acontecerá com a igreja. Mas pessoas ligadas a círculos cristãos na China dizem que uma possibilidade que foi discutida para acalmar os críticos foi separá-la do parque com um muro e retirar a cruz.

Chegar a um meio termo seria adequado ao espírito de um lugar onde as pessoas são duras, mas adoram se divertir, acima de tudo, segundo Han.

"Durante os anos da revolução, elas ficaram realmente ocupadas", disse ele. "Mas hoje só pensam em comer, beber, jogar. Você poderia dizer que há algo de degenerado nisso. Mas não é também meio adorável?"

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos