Quando um movimento político é populista?

Max Fisher

  • Pascal Rossignol/Reuters

Vistos de fora, os dois movimentos que culminaram nas eleições presidenciais desta semana não poderiam ser mais diferentes.

Uma onda populista na França quase levou à vitória o partido de extrema-direita Frente Nacional e seu nacionalismo anti-imigrantes, seu melhor resultado já obtido, com um terço dos votos nacionais.

Na Coreia do Sul, manifestantes revoltados ajudaram a provocar o impeachment da presidente de centro-direita Park Geun-hye, acusada de corrupção, e a eleição na última terça-feira de Moon Jae-in, que se tornará um dos poucos líderes de esquerda na história do país.

Um dos movimentos é solidamente de direita, cético em relação a instituições que vão desde a União Europeia até a mídia, e imbuído em uma política de divisão. O outro é de esquerda, mas de forma muito menos categórica, apoia instituições como as que esquadrinharam Park, e procura reduzir divisões sociais.

No entanto, os movimentos compartilham de uma estrutura comum de ressentimento. Em ambos, os partidários se sentiram excluídos por um establishment político indiferente. Ambos acusaram o presidente incumbente de trair o povo por interesses corruptos e dos ricos. Ambos viram como sua única escolha se rebelar para perturbar o status quo e forçar uma mudança.

A divergência deles revela tanto as características comuns em reações anti-establishment em todo o mundo quanto a gama entre extremos na qual esses movimentos podem recair. E eles sugerem a natureza confusa do populismo, um rótulo que se aplica mais facilmente na França do que na Coreia do Sul.

Quando o povo e o Estado divergem

Durante várias semanas no outono, todos os sábados milhares de sul-coreanos se reuniram em centros da cidade para exigir o impeachment de Park, muitas vezes citando o primeiro artigo da Constituição do país.

"A soberania da República da Coreia deve residir no povo, e toda autoridade do Estado deve emanar do povo", diz o artigo de acordo com a tradução oficial para o inglês.

É comum movimentos de protestos usarem símbolos nacionais como esse para se protegerem de acusações de deslealdade. Mas a frase também passa uma mensagem quase universal para protestos anti-establishment. Ela sugere que o poder político deve pertencer ao povo e não ao Estado, e promete restaurar a ordem devida.

Manifestantes turcos em 2011 entoavam: "O povo quer a queda do regime", um slogan que ecoou por toda a Primavera Árabe. O presidente Donald Trump, em seu discurso de posse, disse: "Estamos transferindo poder de Washington, D.C., e devolvendo-o para vocês, o povo".

Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, se posicionou como defensora do povo contra a União Europeia, mais do que do governo francês.

"Ou vocês efetuam reformas e nos devolvem nossa soberania e independência sobre a moeda, ou vou propor que a França deixe a união", ela disse em 2014.

John Delury, professor da Universidade de Yonsei em Seul, disse que os protestos na cidade, embora muitas vezes otimistas, carregavam "um claro tom de: 'Nós é que estamos no controle aqui, não vocês. O povo está tomando o governo de volta'".

Movimentos de protestos muitas vezes começam quando governos eleitos democraticamente se tornam tão afastados da opinião popular que as pessoas passam a vê-los como não democráticos. Defender "o povo" é uma forma de acusar o governo de ter se vendido para interesses estrangeiros ou dos ricos, uma acusação poderosa o suficiente para justificar mudanças drásticas.

Na Coreia do Sul, Park era vista como alguém que conspirava com comparsas nos vastos conglomerados corporativos conhecidos como chaebol, que exercem um poder desproporcional e têm históricos de corrupção.

Na França, o Estado era acusado de se vender à União Europeia, ao mercado financeiro mundial e, no passado não tão distante da Frente Nacional, aos judeus.

Embora os movimentos expressem diferentes queixas —mudanças econômicas e sociais na França, corrupção na Coreia do Sul— eles compartilham de uma crença de que o Estado deixou de lado o povo a quem deveria servir.

Esse sentimento pode surgir quando sistemas políticos são dominados por um pequeno círculo de elites vistas como em conluios, muitas vezes por causa de escândalos de corrupção como os do Brasil e da Coreia do Sul.

Ou ele pode surgir quando partidos do establishment se unem em torno de uma política que nem todos os eleitores aceitam.

Quando partidos tradicionais franceses encontraram um consenso ao apoiar a União Europeia, por exemplo, eleitores anti-UE interpretaram isso como uma conspiração para excluí-los. O establishment passou a parecer não somente indiferente, como também não democrático.

Lee Jin-man/ AP
Protesto pela renúncia da presidente Park Geun-hye, em Seul

Quem é considerado "O Povo"

Tanto na Coreia do Sul quanto na França os movimentos surgiram porque consideravam que o Estado ignorava as necessidades do povo.

Na Coreia do Sul, a gota d'água foi a corrupção, um problema que afeta a todos e portanto poderia unir a população. E isso levou os manifestantes a apoiarem as instituições, como a Justiça e as forças de coerção, em vez de tentarem destruí-las.

Mas na França o sentimento anti-establishment surgiu por questões que preocupam um subconjunto do povo, e que para essas pessoas estariam jogando-as umas contra as outras na sociedade. Somente uma minoria quer deixar a União Europeia. Restringir a imigração ou indumentárias religiosas serviria a algumas pessoas ao prejudicar outras.

Isso revela algo importante: os movimentos da França e da Coreia do Sul diferem significativamente em como eles definem "o povo".

Para muitos dos partidários de Le Pen, "o povo" se refere aos franceses de etnia branca cuja cultura e tradições estariam sendo ameaçadas por imigrantes e pelos muçulmanos.

"A França não é burquíni na praia", disse Le Pen no programa "60 Minutos" nesta primavera [no hemisfério norte]. "A França é Brigitte Bardot. Essa é a França".

Os protestos da Coreia do Sul de fato pendiam com frequência para a esquerda, e atraíram contra-manifestantes pró-Park. Mas o movimento, de acordo com Delury, se esforçou para atravessar barreiras sociais e muitas vezes teve sucesso.

A baixa popularidade de Park, na casa de um dígito nas pesquisas, ajudou essa missão. Assim como ajudou a lembrança recente do levante popular na Coreia do Sul para instaurar a democracia, uma história que faz com que os protestos pareçam mais com uma saudável checagem do sistema do que uma divisão, e uma atividade mais coletiva do que divisiva.

"O número de carrinhos de bebê per capita era estarrecedor", disse Delury, explicando como o movimento de protestos alcançou as classes médias urbanas, que tendem a favorecer o pluralismo, a estabilidade e o estado de direito. Essa agenda aponta mais na direção do apoio a instituições do que de sua destruição.

Com o tempo, movimentos esquerdistas como o trabalhista, inicialmente centrais para os protestos, receberam a adesão de organizações civis apolíticas cuja presença tornou real a mensagem de representação do povo.

Rompendo ou criando barreiras

Enquanto os manifestantes da Coreia do Sul procuravam romper as barreiras sociais, os populistas ocidentais se deleitaram em criá-las.

No Reino Unido, o movimento para deixar a União Europeia não somente criticava Bruxelas, como também se unia contra a imigração. Trump cresceu em parte por sua promessa de proibir temporariamente os muçulmanos de entrarem nos Estados Unidos.

Defender "o povo", para esses movimentos, se torna uma maneira não somente de declarar o Estado como indiferente, mas de definir quem é apropriado e quem não é.

Essas duas mensagens podem se mesclar, confundindo aqueles que tentam classificar o populismo ocidental como algo impulsionado por ressentimentos políticos ou por animosidades sociais, mas não ambos.

Essa combinação é essencial para o populismo como os acadêmicos tendem a defini-lo, e é por isso que Delury diz que o rótulo não se aplica aos protestos da Coreia do Sul.

As definições acadêmicas parecem confirmar isso.

Jan-Werner Mueller, da Universidade de Princeton, descreve o populismo como uma espécie de política identitária que alega que o povo é moralmente superior e se opõe ao pluralismo, que seria uma ferramenta das elites.

Cas Mudde, um cientista politico holandês, escreveu que o populismo divide o mundo "em dois grupos homogêneos e antagônicos, 'o povo puro' versus 'a elite corrupta'". O povo, em sua visão, é unido por valores e características em comum, que às vezes inclui a raça.

Os cientistas políticos Pippa Norris e Ronald Inglehart definem o populismo como uma desconfiança em relação a todas as elites e instituições, que vão desde cientistas até a mídia. Segundo eles, o populismo vê o "povo comum" como "homogêneo e inerentemente 'bom' ou 'decente'". Segundo essa visão, a diversidade compromete essa pureza.

Embora esses princípios pareçam democráticos para seus proponentes, eles formam uma visão da democracia que é majoritária, e não pluralista. Essa maioria —"o povo"— pode ser definida pela raça, pela religião ou pela classe, mas sempre tem alguém que é deixado de fora.

Tradutor: UOL

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