Brexit coloca em risco a posição de Londres como centro financeiro mundial

Peter S. Goodman

Em Londres (Inglaterra)

  • Andrew Testa/The New York Times

    Monumento a Duque de Wellington, cuja campanha contra Napoleão em 1815 foi financiada por Nathan Mayer Rothschild, na região do Royal Exchange, em Londres

    Monumento a Duque de Wellington, cuja campanha contra Napoleão em 1815 foi financiada por Nathan Mayer Rothschild, na região do Royal Exchange, em Londres

De um arranha-céu em Canary Wharf, o antes movimentado aglomerado de docas transformado em um centro financeiro global, traders da sede regional do Citigroup movimentam somas imensas de dinheiro por todo o planeta. Eles estão explorando as conexões sem iguais de Londres ao complexo sistema financeiro internacional.

Agora o fluxo de dinheiro está em dúvida, colocando em risco a sorte de Londres.

Muitas das transações supervisionadas pelo Citigroup aqui são dependentes da inclusão do Reino Unido na União Europeia. Os bancos italianos exploram os vastos pools de dinheiro de Londres para reforçar balancetes precários. Indústrias manufatureiras alemãs tomam empréstimos para expansão. Administradores de capital suíços exercem seus serviços. O Citigroup e outros bancos globais administram grande parte dessa atividade, executando transações, assegurando que o dinheiro chegue onde deveria, apoiando-se pesadamente em suas operações em Londres.

Em março, a primeira-ministra Theresa May deu início ao processo de divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia, iniciando negociações com a Europa para resolver futuros acordos entre os dois lados do Canal da Mancha. As negociações vieram com um prazo de dois anos. Se nenhum acordo for acertado (um resultado que não pode ser descartado), o relacionamento do Reino Unido com o mercado europeu mergulharia em caos.

Essa perspectiva aparentemente foi ampliada nesta semana com a eleição pela França de seu próximo presidente, Emmanuel Macron, que prometeu assegurar que o Reino Unido saia mais fraco das negociações. Ele prometeu combater qualquer acordo que preserve o acesso à Europa pelas empresas de serviços financeiros baseadas em Londres, ao mesmo tempo pedindo abertamente para os banqueiros se transferirem para Paris.

Andrew Testa/The New York Times
Grupo senta nas escadarias do centro comercial Royal Exchange, em Londres

"São os britânicos aqueles que mais perderão", disse Macron em uma entrevista antes da eleição para a revista de assuntos globais "Monocle". "Os britânicos estão cometendo um erro sério a longo prazo."

Se a ruptura ocorrer entre os dois lados do Canal, bancos globais como o Citi sofrerão consequências significativas.

Algo entre um quinto e um terço das transações financeiras de Londres envolve clientes baseados na Europa. Grande parte desses negócios depende de passaportes que dão às firmas financeiras de um país da UE permissão para operar nos outros. Fora um acordo que preserve os direitos essenciais de passaporte, muitas dessas transações passariam a ser ilegais. As regras e tendências regulatórias dos 27 países remanescentes da UE teriam que ser atendidas.

"Eu nem mesmo seria capaz de atender alguns clientes, em teoria, assim que o Reino Unido voltar a ser independente", diz Jerome Kemp, um nova-iorquino que é chefe global de futuros, compensação e garantias do Citi em sua sede em Londres. "Se o cliente fazendo o pedido estiver na União Europeia, então teremos um problema."

A Brexit (a saída do Reino Unido da UE) coloca em risco o status de Londres como centro bancário mundial. Londres certamente manterá suas credenciais como um dos mais importantes centros financeiros do mundo. Mas provavelmente perderá estatura para concorrentes europeus que explorarão a Brexit como uma oportunidade de ficar com os espólios. Ela corre o risco de perder terreno em sua rivalidade obsessiva com Nova York.

Andrew Testa/The New York Times
Traders do Citigroup em Canary Wharf, distrito financeiro de Londres

Assim como todo banco com um quartel-general regional em Londres, o Citi não pode ficar esperando na esperança de que os políticos fecharão um acordo preservando seu acesso à Europa. Os bancos já estão fazendo planos para transferir um número significativo de pessoal para outros centros financeiros dentro da União Europeia, assegurando que as transações possam prosseguir sem problemas após a conclusão da Brexit.

Trata-se de uma reversão histórica para uma cidade que por séculos funcionou como uma artéria central do mundo financeiro.

Hoje, quase um quinto das transações bancárias globais ocorre no Reino Unido, a maioria em Londres. Cerca de US$ 2,4 trilhões em moedas estrangeiras são transacionados aqui diariamente, segundo o Banco da Inglaterra.

O setor emprega mais de 1,1 milhão de pessoas no Reino Unido, gerando receitas anuais que chegam a 205 bilhões de libras (cerca de R$ 830 bilhões).

Nova York é maior segundo algumas medidas, mas grande parte de seus negócios atende ao mercado americano. Londres se transformou no mercado financeiro internacional supremo.

Fundos soberanos da Ásia e do Oriente Médio administram investimentos daqui. Oligarcas russos e príncipes sauditas guardam suas fortunas aqui. A China olha para Londres como um lugar promissor para realizar transações envolvendo sua moeda.

A Brexit não afetará grande parte dessa atividade. Pelo menos um terço da receita do setor financeiro de Londres envolve negócios dentro do Reino Unido. Outro terço está ligado ao mundo fora da Europa.

Mas a disrupção com o mercado europeu traz riscos. Entre 15 mil e 80 mil empregos no setor financeiro podem ser perdidos nos próximos dois anos, segundo vários estudos. Com o deslocamento das transações, reguladores nos novos destinos provavelmente exigirão uma maior presença humana (pessoas para serem responsabilizadas caso as coisas deem errado). Com a transferência dos banqueiros, o mesmo pode ocorrer com contadores e advogados.

Andrew Testa/The New York Times
Passageiros na estação Canary Wharf, em Londres

"Todos estão se preparando para o pior", disse Davide Serra, presidente-executivo da Algebris Investments, um fundo hedge cofundado por ele em 2006. "Veremos a ascensão de Frankfurt, Paris, Dublin, Luxemburgo, Madri."

Para Kemp, o chefe global de futuros do Citibank, a história está retrocedendo.

Em 1987, quando ele chegou a Paris, trabalhando como corretor para um banco francês, todo país era na prática seu próprio feudo. Comprar um título na Espanha significava tratar com a mesa de operações local.

Mas quando Kemp passou a trabalhar para o JPMorgan Chase e mais recentemente para o Citi, essas instituições passaram a concentrar cada vez mais pessoas em Londres.

Mais de um US$ 1 trilhão em moeda estrangeira e derivativos de taxa de juros trocam de mão no Citi por dia, quase três vezes o volume em Nova York, segundo o Banco de Compensações Internacionais.

"Fazia sentido concentrar tudo em uma entidade no Reino Unido", disse Kemp. "Agora estamos olhando para o desenrolar desse bola de linha que trabalhamos tão arduamente para fazer ao longo dos últimos 20 anos."

Executivos de banco pediram ao governo que mantivesse o Reino Unido dentro do mercado único europeu. Mas isso exigiria que o Reino Unido aceitasse as regras da Europa, incluindo o direito de livre circulação das pessoas. A votação pela Brexit, de certa forma, foi um grito primal contra a imigração irrestrita.

Em janeiro, May reconheceu a escolha e declarou que seu governo limitaria a imigração. Dentro do setor financeiro, a mensagem foi clara: prepare-se para transferência de empregos.

"Qualquer coisa envolvendo vendas e trading em moeda europeia ou clientes europeus está exposta", disse William Wright, fundador da New Financial, uma instituição de pesquisa com sede em Londres.

Alguns líderes britânicos expressam esperança de que a Europa aceite um acordo que permita a continuidade das atividades financeiras, mesmo após a saída do Reino Unido do mercado único. Mas a Europa enfrenta ameaças existenciais a sua união. Os líderes querem assegurar que o Reino Unido sinta o golpe para desencorajar a saída de outros países.

Frankfurt, Dublin e outras cidades europeias estão cortejando os financistas. Macron, um ex-banqueiro de investimento da Rothschild, está disposto a atrair empregos financeiros para Paris.

Tudo isso aumenta a perspectiva de nenhum acordo e o início de uma nova era para Londres.

Enquanto Londres reimagina seu lugar em um mundo pós-Brexit, os líderes da cidade estão sondando terrenos além da Europa para potenciais negócios financeiros. Eles estão buscando tornar Londres um centro para compra de produtos chineses. Estão explorando novas variedades de títulos envolvendo moedas estrangeiras. Estão redobrando os esforços para explorar o mundo crescente de finanças de acordo com a lei islâmica.

A votação pela Brexit foi, de certo modo, uma rejeição furiosa à globalização. Mas para os líderes de Londres, a solução econômica para a crise resultante é mais globalização do que nunca.

"Por Londres ser um centro global, há uma quantidade imensa de liquidez", diz o vice-prefeito de Londres para negócios, Rajesh Agrawal. "Temos uma enorme vantagem."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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