Conhecido pela precisão, diretor interino teve ascensão meteórica no FBI

Adam Goldman e Matt Apuzzo

Em Washington (EUA)

  • Eric Thayer/ Reuters

    Andrew McCabe durante audiência na comissão de inteligência do Senado, em Washington

    Andrew McCabe durante audiência na comissão de inteligência do Senado, em Washington

Andrew G. McCabe subiu tão depressa no FBI que se tornou um motivo tanto de admiração quanto de ressentimento. Por isso, uma das maneiras preferidas de criticá-lo é fazer um dos elogios mais duvidosos no léxico do departamento: ele é um grande relator.

O talento de McCabe para fazer relatórios a seus superiores é considerado por muitos agentes comuns nada mais que uma capacidade de falar sobre o trabalho dos outros. Mas é altamente valorizado no quartel-general do FBI e numa cidade onde os relatórios se tornam políticas.

"Com McCabe, sempre foi sua capacidade de compreender uma questão em profundidade que o destacou", disse James McJunkin, que supervisionou McCabe anos atrás na divisão de contraterrorismo do FBI. McCabe oferecia informação sem verniz, disse ele, com uma precisão aprimorada.

Essa capacidade ficou evidente na quinta-feira (11), na primeira aparição pública de McCabe como diretor, menos de 48 horas depois que o presidente Donald Trump demitiu James Comey, o ex-chefe do FBI.

Em depoimento à Comissão de Inteligência do Senado, McCabe, 49, recusou asperamente algumas afirmações do governo Trump sobre a demissão de Comey.

A Casa Branca disse que Comey tinha perdido o apoio de seus agentes. Não é bem assim, disse McCabe.

A Casa Branca disse que o FBI dava baixa prioridade à investigação da interferência eleitoral da Rússia. McCabe a chamou de "altamente importante".

O fato de McCabe enfrentar um presidente temperamental, que várias vezes atacou o FBI como uma ferramenta 'política, conquistou pelo menos alguns agentes do órgão que consideravam McCabe cauteloso demais. Trump descreveu a agência como corrupta, menosprezou Comey diversas vezes e chamou de "farsa" a investigação do FBI da influência russa na eleição de 2016 e potencial conivência com os associados do presidente.

O senador democrata Martin Heinrich, do Novo México, declarou-se surpreso com a franqueza de McCabe. "Eu não esperava", disse em uma entrevista. "Ele foi agradavelmente honesto. Ele atacou o sistema."

Enquanto muitos agentes do FBI tentam fazer carreira em campo, com casos e detenções --e evitando a política de Washington--, McCabe ficou aqui e prosperou. Ele às vezes é visto no FBI como rígido, especialmente em comparação com o mais extrovertido Comey. Mas McCabe, um triatleta que pedala 56 km da Virgínia até o trabalho, destacou-se por seu intelecto e pela série de casos em que teve um papel central.

Em seus cargos anteriores no FBI, McCabe esteve profundamente envolvido na investigação do ataque a bomba na maratona de Boston em 2013 e na prisão e interrogatório de Ahmed Abu Khattala, um suspeito nos atentados em 2012 a instalações americanas em Benghazi, na Líbia. Como vice-diretor, ele participou ativamente da investigação da Rússia que tanto frustrou Trump e a Casa Branca.

Formado em Duke e na escola de direito da Universidade de Washington em St. Louis, McCabe entrou para o FBI em 1996 e trabalhou como investigador do crime organizado em Nova York, onde também foi membro de uma equipe da SWAT.

"Qualquer um que critique a carreira de McCabe provavelmente tem alguns buracos em seu portfólio profissional", disse James Gagliano, que foi seu supervisor naquela equipe. "Existem poucos caras a quem posso atribuir isto: seu caráter é impecável."

Antes que o presidente demitisse Comey, o diretor do FBI esteve sob investigação do inspetor-geral do Departamento de Justiça pelas decisões que tomou sobre a investigação do uso por Hillary Clinton de um servidor de e-mail privado. O inspetor-geral também examinou se McCabe deveria ter-se recusado a envolver-se nessa investigação.

Em 2015, a mulher de McCabe, Jill McCabe, disputou um lugar no Senado da Virgínia como democrata e aceitou quase US$ 500 mil em contribuições da organização política do governador Terry McAuliffe, um antigo amigo dos Clinton. Embora Andrew McCabe só tenha se tornado vice-diretor em fevereiro de 2016, meses depois que sua mulher foi derrotada, críticos dentro e fora da agência disseram que ele deveria ter-se recusado.

Andrew McCabe disse que falou a seus superiores sobre a candidatura de sua mulher e procurou conselhos éticos de autoridades do FBI. O FBI disse que McCabe não exerceu função na campanha de sua mulher.

Não está claro se Trump assistiu ao depoimento de McCabe, mas uma coisa é certa: o presidente não pode demiti-lo por isso.

McCabe é um funcionário público de carreira, com direito a proteção no emprego. Mas não há garantia de que um novo diretor, quando confirmado, manterá McCabe como vice. Ele também poderá ser transferido ou posto de lado, deixando muito em dúvida seu atual papel no FBI.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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