Julgamento tenta determinar quem matou traficante em Nova York em 2012

James C. McKinley Jr.

Em Nova York (EUA)

  • Michael Appleton/The New York Times

    10.dez.2012 - Polícia de Nova York na Rua 58 Oeste, local do assassinato

    10.dez.2012 - Polícia de Nova York na Rua 58 Oeste, local do assassinato

Há quatro anos e meio um estudante de direito foi morto em plena luz do dia perto do Columbus Circle, em Manhattan (Nova York), e na próxima semana um homem será julgado sob a acusação de ter orquestrado a execução.

O julgamento deverá durar seis semanas, mas provavelmente não responderá à pergunta que intriga a polícia há anos: quem era o homem encapuzado que aparece numa gravação em vídeo caminhando tranquilamente atrás do homem da Califórnia, Brandon L. Woodward, naquela tarde chuvosa de dezembro, e que depois levanta uma pistola cromada e dispara um tiro em sua nuca?

"No final do julgamento talvez não saibamos quem era o atirador", disse o promotor-chefe, Christopher Prevost, aos possíveis jurados durante a seleção do júri no início desta semana. "Haverá outras perguntas não respondidas. De onde veio a arma? Onde foi parar?"

Lloyd T. McKenzie, 39, é acusado pelo assassinato de Woodward, e os promotores dizem que ele provará que conduziu o assassino até o local em um carro alugado, esperou junto ao meio-fio e depois levou o atirador embora rapidamente, misturando-se ao tráfego e escapando para o bairro de Queens. Os argumentos iniciais deverão ocorrer na próxima semana.

O assassinato ousado de Woodward, que tinha 31 anos, atraiu a atenção nacional, enquanto detetives nas costas leste e oeste dos EUA se debatiam para descobrir por que um estudante de direito e promotor de um clube noturno de Los Angeles foi morto, no estilo das guerras de gangues, na Rua 58 Oeste às 14h.

Um vídeo de vigilância mostrou o assassino esperando durante quase meia hora antes de emboscar Woodward, que andava de cabeça baixa, absorto em seu celular, pouco antes de levar o tiro.

O julgamento promete esclarecer uma operação de contrabando de drogas entre as costas leste e oeste dos EUA, que uniu McKenzie e Woodward. Este foi morto quando tentava receber US$ 161 mil de McKenzie por remessas de cocaína já entregues, diz a promotoria.

O depoimento também deverá explicar como Woodward, que é herdeiro de uma família rica e muito conhecido na cena dos clubes noturnos de Los Angeles, tornou-se um intermediário entre traficantes de drogas em Queens e um círculo de fornecedores de cocaína em Los Angeles. Outros quatro homens serão julgados com McKenzie, acusados de participarem da quadrilha de contrabando e venda de drogas.

Duas pessoas acusadas de participar da operação concordaram em depor contra seus ex-parceiros de negócios em troca de redução das penas, segundo os promotores. Um deles é um ator de cinema menor de idade e rapper do Queens que era próximo de Woodward e o apresentou a McKenzie, depois atuou como intermediário, segundo duas pessoas informadas sobre os planos da promotoria. O outro, Lature Irvin 2º, é filho de um dos contrabandistas acusados, que, segundo o processo, ajudou a enviar drogas e levava pacotes de dinheiro de Nova York à Califórnia.

"Todos esses cooperantes eram traficantes de drogas, diariamente obtendo e vendendo drogas por dinheiro", disse Prevost durante a seleção do júri. "Não há como escapar disso. Vocês não vão gostar dos cooperantes."

McKenzie diz que é inocente e não estava dirigindo o carro no dia do crime. Seu advogado, David Touger, afirma que McKenzie não teria usado um carro alugado em seu nome para praticar o que parece ser um assassinato cuidadosamente planejado. "Ninguém seria tão idiota", disse ele.

Os promotores admitiram que as evidências contra McKenzie são circunstanciais; eles não têm uma testemunha ocular que o visse no carro da fuga.

Mas o secretário de Justiça distrital de Manhattan pretende apresentar provas de que McKenzie não apenas alugou o carro, como seu DNA e suas impressões digitais foram encontrados no interior dele, segundo os advogados de defesa. Gravações de telefone celular também serão apresentadas para rastrear sua localização.

"Vamos provar uma série de fatos, e a inferência inescapável desses fatos é que o acusado é culpado", disse Prevost aos jurados.

A defesa disse que vai afirmar que os cooperantes têm um incentivo para mentir e não são confiáveis. Glenn Hardy, um advogado que representa o pai de Irvin, perguntou aos possíveis jurados se eles aceitariam depor em falso contra um parente para evitar 140 anos de prisão, a pena máxima que Irvin filho poderá receber.

A defesa também projetará dúvidas sobre a teoria da acusação de que McKenzie, que segundo as autoridades devia dinheiro por remessas anteriores, teria um motivo para matar Woodward, que o abastecia de cocaína. A teoria se encaixa em um roteiro comum nas ruas: traficantes são mortos por fornecedores por não pagarem suas dívidas. "Por que ele iria se livrar da galinha dos ovos de ouro?", indagou Touger. "Não funciona assim no negócio das drogas."

Apesar de a prisão de McKenzie, em dezembro de 2015, ter parecido um avanço importante no caso, ele não admitiu sua culpa nem denunciou o atirador misterioso, apesar de enfrentar penas de 15 anos à prisão perpétua.

A acusação contra os cinco réus descreve uma formação de quadrilha de contrabando de drogas que transportou pelo menos 11 kg de cocaína de Los Angeles para Queens entre agosto e dezembro de 2012.

A equipe de pai e filho --Lature Irvin Sr. e Lature Irvin 2º-- é acusada de enviar a cocaína em pacotes da empresa UPS para endereços fornecidos a eles por McKenzie e outro homem de Queens, Michael G. Wisdom.

Os Irvin usavam uma companhia de seguros de Woodland Hills, na Califórnia, como fachada para as remessas, segundo a acusação. Um empregado da companhia, Pedro Doloille, lhe fornecia etiquetas de remessa, segundo a acusação. Ele é acusado de fazer parte da quadrilha. Um quarto homem da Califórnia, Darryl Mason, é acusado de fornecer quilos de cocaína aos Irvin e a Woodward.

O trabalho de Woodward era viajar a Nova York e receber os pagamentos de McKenzie pelas remessas já entregues. Ele fez isso três vezes, hospedando-se em hotéis caros de Manhattan, segundo a acusação.

Em todas as ocasiões ele arranjou para entregar o dinheiro a Irvin filho, que também ia a Nova York, mas ficava em hotéis no aeroporto. Irvin então levava o dinheiro para Los Angeles em sua mala, segundo a acusação.

A relação entre McKenzie e os fornecedores da Califórnia azedou em dezembro de 2012. No dia 8, Woodward enviou uma mensagem a McKenzie informando-lhe que devia US$ 161 mil por 5 kg que já tinham sido enviados, segundo a promotoria.

No dia seguinte, Woodward e Irvin voaram para Nova York em aviões separados para receber o dinheiro, diz a acusação. Woodward hospedou-se no Thompson Hotel em Columbus Circle; Irvin ficou no Holiday Inn Express Hotel, perto do Aeroporto Internacional Kennedy, em Queens. "Estou a postos no Holiday Inn", dizia a mensagem de Irvin a Woodward naquela noite. "Esperando o telefonema", respondeu Woodward.

Em 10 de dezembro, McKenzie combinou um encontro com Woodward perto de uma loja de pianos na Rua 58 Oeste com Sétima Avenida. Woodward foi para o encontro esperando receber o dinheiro, diz a acusação.

Um mês antes, McKenzie tinha alugado um carro Lincoln MKZ em uma agência da Avis Car Rental em Huntington Station, Estado de Nova York. No dia do assassinato, segundo os promotores, ele dirigiu o carro até Manhattan e o estacionou na frente da Escola de Coral Saint Thomas, no nº 202 da Rua 58 Oeste.

Um atirador com uma pistola 9 mm estava no banco do passageiro, disse a acusação. Um vídeo divulgado pelo Departamento de Polícia de Nova York mostra o atirador saindo do carro e alongando as pernas cerca de dez minutos antes do assassinato.

Woodward passou pelo carro por volta das 14h, caminhando no sentido oeste, rumo à Broadway, com os olhos fixos em seu smartphone. Sozinho e desarmado, ele parou e olhou para o homem encapuzado perto do Lincoln, mas, aparentemente não o reconhecendo, virou-se e começou a se afastar. O homem o seguiu e levantou a arma.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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