Tailândia cria pira funerária como obra de arte para a cremação do rei

Seth Mydans

Em Bancoc

  • Amanda Mustard/The New York Times

    Construção da pira real para a cremação do rei Bhumibol Adulyadej, em Bancoc, Tailândia

    Construção da pira real para a cremação do rei Bhumibol Adulyadej, em Bancoc, Tailândia

Em um amplo campo de treinamento de manobras próximo do Grande Palácio, especialistas tailandeses trabalham para construir uma visão do céu: uma elegante pira funerária de nove torres para o rei Bhumibol Adulyadej que enviará sua alma para o além-mundo no final deste ano.

Construída para representar o Monte Meru, centro do universo hindu, ela incorporará o máximo das artes e da arquitetura tailandesas, com delicadas torres adornadas por imagens da mitologia e da vida do rei, que morreu em outubro passado aos 88 anos de idade, após 70 anos no trono.

A cremação está planejada para o dia 26 de outubro, o segundo dos cinco dias de cerimônias funerárias. Ela será testemunhada por 8 mil convidados, bem como por milhões de tailandeses em todo o país.

A principal torre de cremação terá 50 metros de altura, com um telhado de sete andares e um pináculo, cercado por oito pavilhões menores representando montanhas em torno do Monte Meru. Lagoas nos quatro cantos da pira representam o Oceano Cósmico que flui em torno dele. Haverá um pequeno jardim com um canteiro de arroz e vegetação simbolizando o comprometimento do rei com o desenvolvimento rural.

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Artistas trabalham em estátua que será usada na pira real para a cremação do rei

A iconografia da pira retratará parte das realizações do rei, incluindo represas, parques eólicos, reservatórios e projetos de irrigação. Ela terá pinturas de anjos e criaturas míticas, além de centenas de esculturas, incluindo uma estátua do cachorro preferido do rei, Tongdaeng.

A cremação em si acontecerá em um incinerador confinado dentro da estrutura. Quaisquer ossos remanescentes serão preservados como relíquias reais no Salão do Trono do palácio, e as cinzas serão guardadas separadamente em dois templos, segundo o governo. A pira depois será desmontada, sua madeira será enviada para templos ou outros destinos pelo país.

O corpo do rei Bhumibol, ou Rama 9º, hoje está exposto para visitação pública no palácio, por onde centenas de milhares de pessoas já passaram para homenagear o monarca que muitos consideram divino. Todos os dias, milhares de tailandeses solenemente vestidos de preto fazem um grande contraste com grandes grupos de turistas vestidos de cores berrantes.

Ao longo de seu extenso reinado, o rei veio a incorporar o espírito e o senso de nação da Tailândia, e sua morte foi um trauma nacional.

"O falecido rei nunca realmente nos deixou", disse Sumet Tantivejkul, secretário-geral da Fundação Chaipattana, que supervisiona muitos dos projetos de desenvolvimento do rei Bhumibol. "Ele nos ensinou tantas coisas durante seu reinado de 70 anos, vamos seguir seus passos".

Nessa nação predominantemente budista, as crenças sobre a monarquia são uma mistura de budismo e mitologia hindu. Os cânticos dos monges no funeral serão budistas, mas a cremação em si, com a pira no seu centro, será hindu, disse Tongthong Chandransu, um professor especialista em monarquia na Universidade de Chulalongkorn.

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Estátua será usada na pira real da cremação do rei da Tailândia

"Nós acreditamos que o rei é um deus enviado do céu", ele disse. "Ele é um deus completo, então quando morre ele precisa chegar até o céu" para reencontrar os principais deuses hindus, Brahma, Vishnu e Shiva.

Embora o novo rei, Maha Vajiralongkorn, tenha ascendido formalmente ao trono após a morte de seu pai, sua coroação como rei Rama 10º só ocorrerá depois da cremação.

Essa será a primeira cremação de um monarca em quase 70 anos, embora piras tenham sido construídas para membros menores da realeza. O último rei a ser cremado foi o irmão mais velho do rei Bhumibol, Ananda, em 1950.

Um esqueleto de ferro preto das torres está sendo erguido agora no centro do campo de treinamento de manobras, parecendo um jogo de montar gigante, acompanhado do som oco de marteladas no metal.

Em oficinas próximas, equipes de artesãos estão preparando as estruturas de madeira que serão sustentadas pelas vigas, bem como as pinturas e as estátuas que decorarão a pira.

Rompendo com precedentes, o rei Bhumibol será o primeiro monarca a ser colocado em um caixão e não em uma urna cerimonial para a cremação. A estrutura de metal cinza de um imenso caixão está em uma oficina aguardando suas elaboradas decorações.

Uma pira real exibe o mais alto nível da arquitetura de templos tailandeses, basicamente uma imensa escultura ornamentada com telhados de vários andares que diminuem de tamanho à medida que ascendem para um pináculo estreito.

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Artista pinta uma estátua que será usada na cremação

Será o segundo mais alto da história, disse Kokiart Thongphud, o arquiteto que projetou os edifícios em uma única noite de trabalho frenético.

Ele já havia projetado piras reais para a mãe e a irmã do rei, e disse que recebera a missão poucas horas depois da morte de Bhumibol.

"Soube da morte do rei às 15h, e das 17h até as 9h da manhã as ideias simplesmente fluíram", ele disse. "Eu só fiz uma pausa, quando senti câimbra na mão. Depois de uma soneca tudo voltou a fluir".

Ele apresentou o palácio com cinco versões, segundo ele, e foi escolhida a versão com nove torres, provavelmente para refletir a posição do rei Bhumibol como o nono monarca da dinastia Chakri.

Seguindo a preferência do rei por representações realistas, os rostos dos anjos serão mais humanos e menos estilizados do que nas artes tradicionais, e os animais --vacas, cavalos e elefantes-- serão mais realistas, juntamente com Singha, uma figura leonina mítica, de acordo com Chainin Chaisiri, um arquiteto do Departamento de Belas Artes do Ministério da Cultura.

Além do tradicional dourado, as estruturas serão decoradas com as cores associadas ao rei Bhumibol: amarelo, rosa e verde.

"É uma oportunidade muito, muito rara fazer esse trabalho --uma vez a cada 70 anos", disse Chainin, acrescentando: "Nós idolatramos o rei".

O funeral seguirá precedentes arquitetônicos e cerimoniais que foram modificados ao longo dos anos, em grande parte para torná-los mais acessíveis ao público. Entre outras coisas, não é mais exigido que a população inteira raspe a cabeça em sinal de luto e carpidores profissionais não acompanharão mais a procissão do funeral.

Um sentimento de urgência cercou os elaborados preparos, a começar pela longa e frenética noite de inspiração de Kokiart imediatamente após a morte do rei.

"Não podemos cometer erros ou perder tempo", disse Kittipan Phansuwan, vice-diretor do Departamento de Belas Artes. "Se sofrermos um atraso por causa do tempo teremos simplesmente de trabalhar noite e dia para cumprir nosso prazo".

Até o momento, o tempo no canteiro de obras tem sido particularmente favorável, disse Wichai Angchin, um ferreiro de 43 anos.

"Pode estar chovendo em qualquer lugar da cidade", ele disse, "mas é estranho, aqui nunca chove".

Tradutor: UOL

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