"Medidor de sentimento" ajuda polícia a combater criminalidade em Nova York

Al Baker

Em Nova York (EUA)

  • Joshua Bright/The New York Times

    Comissário James O'Neill diante de gráfico na sede da polícia de Nova York, em Manhattan

    Comissário James O'Neill diante de gráfico na sede da polícia de Nova York, em Manhattan

Era uma invenção para policiamento com nome futurista, CompStat, quando o Departamento de Polícia de Nova York o introduziu como sistema de gestão para combate ao crime, em uma era de violência muito maior nos anos 90. Departamentos de polícia de todo o país e do mundo adotaram seu sistema de mapeamentos de furtos, assaltos e outros crimes, medição de atividade policial e cobrança dos comandantes locais.

Agora, um quarto de século depois, ele está passando por ampla reformulação e sendo atualizado para a era da mobilidade. Afastando-se de simples números e estatísticas, o CompStat está ficando sensível. Ele perguntará aos nova-iorquinos, por meio de milhares de perguntas em seus telefones, "Como você está se sentindo?" e "Como nós, a polícia, estamos nos saindo?"

Se esta nova abordagem será imitada em outros lugares ainda não se sabe, mas como ocorre em quase todas as novas táticas do Departamento de Polícia de Nova York, a maior força policial municipal nos Estados Unidos, ela será observada atentamente. Não está claro se os nova-iorquinos abraçarão a nova abordagem, a rejeitarão como intrusiva ou simplesmente se incomodarão com ela.

O sistema, usando tecnologia de localização, envia conjuntos breves de perguntas aos smartphones envolvendo três temas: você se sente seguro (a) em seu bairro? Você confia na polícia? Você confia no Departamento de Polícia de Nova York?

As perguntas são enviadas todo dia, 24 horas, para 50 mil aplicativos diferentes de smartphone e se apresentam nas telas como pesquisas de oito segundos.

O departamento acredita que obterá uma avaliação mais diversa da satisfação da comunidade e isso permitirá uma redução ainda maior da criminalidade. Por ora, o comissário de polícia James P. O'Neill está chamando a ferramenta de "medidor de sentimento", apesar de estar aberto a sugestões para um nome melhor.

As respostas das pessoas são enviadas para uma empresa privada contratada pelo departamento, onde são processadas e repassadas aos comandantes dos 77 distritos policiais da cidade de Nova York. Lá, nos computadores dos distritos, os comandantes podem checar os resultados, apresentados como uma pontuação em uma escala de 100 a 900, e compará-los a outras medições: as tendências de criminalidade em seus bairros e seu arsenal de respostas policiais.

Testes mostraram uma alta taxa de respostas e produziram alguns resultados preliminares: na questão da confiança, as pesquisas apontam um resultado de 680 na cidade em geral. A satisfação com o departamento de polícia se encontra em 712 e a sensação da segurança das pessoas está em 692.

A iniciativa está sendo lançada após vários anos de relações profundamente tensas entre a polícia e principalmente comunidades de minorias em várias cidades americanas, incluindo Nova York, onde um homem vendendo cigarros, Eric Garner, morreu após um policial ter lhe aplicado um golpe ilegal de estrangulamento. O'Neill vê, em parte, a nova abordagem como uma reação a essas tensões, assim como um elemento chave na adoção pelo departamento de um modelo de policiamento mais comunitário.

O plano do departamento envolve os comandantes receberem dados mensalmente, para que possam ajustar o posicionamento de policiais quadra a quadra ou ajustar suas estratégias para melhor atender as preocupações dos moradores. (Também pode pesar na forma como os comandantes são avaliados.)

"Antes disso, era baseado na percepção", disse O'Neill, uma personificação do CompStat por décadas, explicando o sistema em um dia recente em uma sala de conferência na 1 Police Plaza, cercado por imagens dos mapas multicoloridos da cidade que seus comandantes estão recebendo.

"Agora teremos de fato informação em tempo real, retorno em tempo real por parte das pessoas na comunidade sobre como estamos nos saindo", ele disse. "Acho que, a longo prazo, isso nos ajudará a tornar a cidade mais segura."

A polícia não possui os números de telefone individuais dos nova-iorquinos. Mas a meta é tentar assegurar que o ID de publicidade anônimo de um dado dispositivo apareça no mesmo bairro de Nova York repetidamente, uma indicação de que a pessoa que o possui more lá.

Joshua Bright/The New York Times
Comissário James O'Neill participa de reunião na sede da polícia de Nova York

As pesquisas serão enviadas para os dispositivos já abertos a anunciantes, e as respostas voltarão anônimas. Mas algumas pessoas que monitoram a polícia e as liberdades civis citaram preocupações e ficarão atentas para ver se não ocorrerão abusos.

"Para mim, isso gera preocupações sérias em relação ao acesso e gestão dos dados, e o que pretendem fazer com esses dados", disse Charlene A. Carruthers, diretora nacional do Projeto Jovem Negro 100, um grupo ativista com sede em Chicago, que tem uma divisão em Nova York. "Especialmente quando falamos de uma agência que tem o poder de vigiar, monitorar e infligir violência às pessoas com impunidade."

Charles H. Ramsey, que iniciou sua carreira como policial em Chicago e posteriormente comandou departamentos de polícia na Filadélfia e Washington, apoia o projeto.

"Uma coisa é fazermos uso de estatísticas de crime para determinar se um bairro é seguro ou não ou se os moradores estão satisfeitos com a polícia", ele disse. "Outra é ouvirmos diretamente das pessoas."

Ramsey disse que isso deve registrar as mudanças na opinião pública.

"Se você realizar uma pesquisa após um caso como Ferguson, por exemplo, você teria um resultado", ele disse, referindo-se a morte por policiais de Michael Brown em Ferguson, Missouri, em 2014. Em comparação, em períodos sem controvérsias a respeito do uso de força pela polícia, "você teria um resultado totalmente diferente, eu imagino".

A iniciativa tem sua raiz na mais recente passagem do ex-comissário de polícia Bill Bratton, que estava interessado em monitorar o sentimento da comunidade desde seus tempos em Boston, nos anos 70.

"Finalmente temos uma ferramenta que nos permite medir, em tempo real, com incrível precisão geográfica, 'Como estamos nos saindo? Por que neste bairro a iniciativa de policiamento está funcionando bem, enquanto naquele outro não?'", disse Bratton. "Isso representa uma adoção da pergunta de Ed Koch, sempre que ele via alguém, 'Como estou me saindo?' Bem, estamos ampliando isso."

Mas algumas pessoas são críticas. Defensores da reforma do policiamento dizem que a ideia de uma pesquisa digital por parte da polícia parece impessoal.

"Isso empobrece qualquer que seja a interação", disse Johnetta Elzie, fundadora da Campanha Zero, um grupo de defesa, que participou dos protestos pela morte de Brown, um homem negro desarmado que foi morto com um tiro por um policial branco.

A abordagem comercial para coleta dos dados pode provocar suspeita entre algumas pessoas, ela disse.

"Como você obteve o número do meu telefone?" disse Elzie, citando o tipo de perguntas que poderiam passar por sua mente. "Quem se sentiria seguro em responder? E quem, na comunidade marginalizada, confiaria na polícia a ponto de enviar uma resposta sincera?"

Dois dos criadores do sistema, Michael Simon e Saul Shemesh, da empresa Elucd, disseram em uma entrevista que diferente das pesquisas tradicionais, que empregam amostrar menores por um período limitado, as pesquisas buscam dados de amostras maiores de pessoas em múltiplas plataformas de modo ininterrupto.

"Em recentes fracassos chamativos de pesquisas de opinião, uma característica comum tem sido uma predisposição na seleção. Atualmente é difícil obter uma amostragem realmente representativa da população ", disse Simon. "Para obtenção de dados melhores, temos que abranger toda a população. Para isso, temos que estar onde está a atenção das pessoas."

Simon disse que esse tipo de pesquisa só é viável porque os dispositivos móveis se tornaram mais universais que as linhas fixas de telefone.

Funciona assim: os usuários de telefone recebem anúncios programáticos que os convidam a responder uma pesquisa baseada em sua localização e no aplicativo que estão usando. É claro, primeiro a configuração dos aparelhos precisa estar aberta a esse tipo de anúncio. As pessoas podem fornecer seu gênero, raça e idade, mas nem a empresa e nem a polícia obtém o número do telefone. Desse modo, disse Simon, uma prática amplamente aceita, usada globalmente por anunciantes e publicitários, simplesmente está sendo usada para um novo propósito.

Chuck Wexler, diretor executivo do Fórum de Pesquisa Executiva da Polícia, um centro de estudos em Washington, prevê que a medição forçará os chefes de polícia a se concentrarem igualmente no desenvolvimento da confiança e no combate ao crime.

"O que sempre faltou ao CompStat é esse tipo de conexão", ele disse. "A polícia sempre se surpreende por haver redução da criminalidade sem necessariamente haver um aumento na confiança."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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