Tremor destrói restauração "horrível" e traz esperança para área histórica em Mianmar

Mike Ives

Em Bagan (Mianmar)

  • Minzayar Oo/The New York Times

    Templo Thatbyinnyu está entre os monumentos em restauração, em Bagan, Mianmar

    Templo Thatbyinnyu está entre os monumentos em restauração, em Bagan, Mianmar

A vendedora ambulante observa enquanto membros de uma espécie cada vez mais rara --turistas-- atravessam um estacionamento com chão de terra batida na direção do Templo de Pyathat Gyi, um dos mais de 2 mil monumentos religiosos existentes em uma planície à margem do rio, na região central de Mianmar.

Eles não param para comprar seus doces de açúcar de palma, que ela cobre com uma lona de plástico para proteger das moscas, nem os bonés ou camisetas à venda em bancas próximas. Está quase anoitecendo e ela ainda não vendeu nada nesse dia.

"Costumava lotar aqui, antes do terremoto", diz a vendedora ambulante, Daw Soe Moe Thue, referindo-se ao terremoto de magnitude 6,8 ocorrido no ano passado. Ele danificou 389 dos monumentos de Bagan e quebrou a cúpula de Pyathat Gyi como se fosse um de seus doces.

"Agora, não vem ninguém".

Minzayar Oo/The New York Times
Pássaros sobrevoam região dos templos de Bagan

Muitos dos monumentos de Bagan foram restaurados pelo antigo governo militar de Mianmar nos anos 1990, após um terremoto anterior, de uma maneira estranha, segundo críticas de especialistas internacionais. O governo na época abandonou uma tentativa de obter o status de Patrimônio Mundial das Nações Unidas para o complexo.

Agora o novo governo civil de Mianmar está planejando uma nova candidatura a Patrimônio Mundial para Bagan, e especialistas dizem que pelo fato de o terremoto de 2016 ter destruído parte do trabalho de restauração mais desajeitado dos militares, a nova candidatura tem mais chances de ser bem-sucedida.

Mas o povo de Bagan teme que autoridades ligadas a incorporadoras endinheiradas, usando as Nações Unidas como desculpa, possam interferir na vida religiosa ou forçar mudanças de zoneamento que empobreceriam ainda mais a população, que no passado foi despejada pelos militares para abrir espaço para hotéis de luxo.

Eles dizem que não reconstruir as cúpulas dos templos também deixaria os monumentos menos atraentes e enfraqueceria o turismo doméstico.

"Patrimônio mundial? Ninguém liga para isso", disse Soe Moe Thue. "Só precisamos sobreviver".

O complexo de monumentos de Bagan é a menina dos olhos em um setor de turismo que vale centenas de milhões de dólares e que cresceu rapidamente desde que Mianmar, um país de maioria budista, deu início a uma conturbada transição para a democracia em 2011.

Minzayar Oo/The New York Times
Visitantes no templo Pyathat Gyi, em Bagan

Mas embora parte dos monumentos aqui tenham sido construídos no século 11, os turistas muitas vezes veem o complexo como imperfeito porque as restaurações dos anos 1990 feitas pelos militares --marcadas por tijolos vermelho-cereja-- são vistas como uma deturpação de sua autenticidade como um sítio antigo.

Nos anos 1990, o governo militar abandonou sua tentativa de se tornar Patrimônio Mundial pois temia que seu trabalho de restauração "realmente horrível" fosse ser duramente questionado por especialistas internacionais, segundo Pierre Pichard, um antigo consultor da Unesco que visitou Bagan pela primeira vez em 1975.

Mas ele diz que o terremoto de 2016 poderia oferecer ao novo governo de Mianmar um começo novo junto à Unesco por ter destruído boa parte do pior trabalho de reforma dos militares, em especial as cúpulas dos templos construídas por eles nos anos 1990.

"Veio na hora certa", ele disse sobre o terremoto, durante uma visita recente a Bagan.

Daw Ohnmar Myo, responsável por projetos na Unesco para Mianmar, disse que o governo pretende submeter uma candidatura a Patrimônio Mundial para o complexo até fevereiro, e que ele poderá ser inscrito oficialmente até 2019.

Consultores da Unesco estão elaborando um detalhado plano de conservação para Ananda Ok Kyaung, um monastério do século 18 em Bagan que foi seriamente danificado no terremoto, segundo especialistas. Uma restauração cuidadosa no local poderia se tornar uma diretriz para um programa de conservação mais amplo caso a candidatura ao Patrimônio Mundial seja aprovada.

"O bom de um selo da Unesco é que as pessoas são sempre obrigadas a pensar, 'Isso seria aceitável ou não?'" de uma perspectiva de conservação internacional, disse Gurmeet S. Rai, uma arquiteta especializada em conservação residente em Nova Déli que está fornecendo consultoria para o projeto do monastério.

Minzayar Oo/The New York Times
Garota visita um templo em Bagan

Do contrário, ela disse, as pessoas que estão trabalhando na conservação de sítios arqueológicos podem ficar tentadas a "começar a fazer tudo de qualquer jeito".

Aung San Suu Kyi, a líder do partido político no poder, a Liga Nacional pela Democracia, disse que qualquer obra de conservação pós-terremoto em Bagan deveria ter o apoio dos locais e evitar a alteração de monumentos, de acordo com a mídia de Mianmar.

Para ajudar a obter apoio para sua candidatura à Unesco, o governo pretende abolir leis da era militar que impedem que residentes de Bagan abram pequenas hospedarias, disse Aung Aung Kyaw, diretor do departamento de arqueologia de Bagan. E para cumprir as recomendações da Unesco, ele disse, o governo permitirá obras de reconstrução em somente cinco dos 89 sítios no complexo de monumentos que tenham sido moderadamente ou gravemente danificados pelo terremoto.

"Se não protegermos nosso patrimônio cultural, não poderemos passá-lo para a próxima geração", ele disse.

No entanto, algumas comunidades de Bagan temem que um título como o de Patrimônio Mundial vá exacerbar restrições existentes quanto a onde e como eles podem construir casas ou ter negócios em Nova Bagan, um distrito no empoeirado subúrbio da cidade onde as pessoas foram obrigadas a se reassentar em 1990 depois que o governo militar as despejou de uma zona de monumentos no centro.

Minzayar Oo/The New York Times
Turistas esperam gado passar em estrada em Bagan

Em vez de deixar a zona de monumentos livre de empreendimentos imobiliários, o governo militar permitiu a construção no local de vários hotéis de luxo, inclusive um no terreno de uma antiga escola, disse Aung Shwe, segundo secretário do Comitê de Desenvolvimento de Bagan, uma ONG que fornece serviços gratuitos de ambulância, funeral e combate a incêndios para muitos dos moradores mais pobres da cidade.

Ainda há hotéis sendo construídos na zona de monumentos, e as elites locais veem um possível título de Patrimônio Mundial como uma fonte de receita de turismo de luxo, não uma ferramenta para conter a gritante desigualdade social da cidade, disse Khin Maung, presidente do Comitê de Desenvolvimento de Bagan e guia turístico na zona de monumentos.

"O novo governo deveria cuidar de seu povo, não nos estrangular", ele disse.

Também existe uma profunda preocupação aqui a respeito da decisão do departamento de arqueologia de não reconstruir várias das cúpulas danificadas de templos.

"Em nossa tradição budista, não ter uma cúpula sobre um templo é como ter uma pessoa sem a cabeça", disse Thay Zaniya, um monge que vive em um monastério ao lado do Templo de Sulamani, um monumento popular que, segundo o departamento de arqueologia, teve uma cúpula derrubada pelo terremoto que não será substituída. "É uma visão vergonhosa".

Thay Zaniya disse ter aceitado relutantemente a decisão do departamento porque a Unesco havia advertido que reconstruir a cúpula poderia expor o templo a danos durante o próximo terremoto em Bagan.

Mas Kyaing, o zelador do pagode de Dhammayazika, outro monumento popular de Bagan, disse que o preço por aceitar o conselho da Unesco seria esquivar-se de seu dever religioso.

Essa troca, disse ele, era inaceitável.

"Precisamos reconstruir nosso pagode [templo] para que a próxima geração saiba como ele é", ele disse em uma noite amena do lado de fora do pagode, enquanto pássaros sobrevoavam em suaves parábolas. "Se não fizermos isso, perderemos nosso patrimônio".

Tradutor: UOL

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