Com cerca de 100 anos, tatuadora mantém vivas tradições filipinas

Aurora Almendral

Em Buscalan (Filipinas)

  • Jes Aznar/The New York Times

    Maria Fang-od Oggay em sua casa no vilarejo de Buscalan, nas Filipinas

    Maria Fang-od Oggay em sua casa no vilarejo de Buscalan, nas Filipinas

Todas as manhãs ela acorda ao romper do dia e vai fazer uma tinta misturando carvão de pinheiro com água. Ela enfia o espinho da árvore de um cítrico amargo em um caniço, agacha-se em um banquinho de 8 cm de altura e, encolhida como um grilo, tatua com pequenas batidas as costas, os pulsos e os torsos de pessoas que a procuram vindas de lugares tão distantes quanto o México e a Eslovênia.

A mulher, Maria Fang-od Oggay, terá terminado 14 tatuagens antes da hora do almoço, um dia de trabalho razoável para alguém que teria 100 anos de idade. Além disso, ela sozinha manteve viva uma antiga tradição, e acabou transformando esse remoto vilarejo no topo de uma montanha em uma meca para turistas em busca de aventura e de um pedaço de história por baixo da pele.

Buscalan, com sua população de 742 habitantes, fica a uma caminhada de 2 km da estrada de terra mais próxima através de florestas enevoadas e plantações de arroz centenárias. As cabanas de palafita são feitas de madeira e sapé ou metal galvanizado e blocos de concreto. Não há serviço de celular e a eletricidade é mínima. Porcos pretos e galinhas perambulam pelos caminhos estreitos de pedra e terra.

Fang-od, que também se soletra Whang-od, é uma tatuadora ritualística da tribo Butbut, da etnia Kalinga, no norte das Filipinas.

Jes Aznar/The New York Times
As casas e campos de arroz do vilarejo de Buscalan

Quando os espanhóis chegaram pela primeira vez em 1521, a tatuagem era popular em todas as ilhas que um dia viriam a formar as Filipinas. Ao longo dos séculos, desencorajada pelas potências coloniais e pelos ensinamentos católicos, a tradição esvaneceu.

Os Kalinga, nas montanhas inacessíveis conhecidas como Cordillera Central, protegiam ferozmente seus vilarejos contra forasteiros e preservavam seus costumes. Mas, já na metade do século 20, até mesmo suas tatuagens estavam caindo no esquecimento.

Fang-od pertence à última geração que carrega um conjunto completo de tatuagens tradicionais e é uma das poucas que se lembram de como elas eram feitas.

Ela estava fadada a morrer na obscuridade até que um antropólogo americano, Lars Krutak, a incluiu em sua série de documentários de 2009, "Tattoo Hunter" (caçador de tatuagens). Hoje ela é procurada por uma série de visitantes que esperam conseguir uma tatuagem feita por uma mulher que em si parece um artefato de outra época.

Antes do documentário, Buscalan era conhecida no máximo por cultivar maconha. Os ocasionais praticantes de trilha que passavam por lá para comprar óleo de haxixe acabaram dando lugar a uma onda de turistas em busca de tatuagens.

O turismo na província de Kalinga, onde Buscalan é o destino mais popular, aumentou mais de cinco vezes, passando dos cerca de 30 mil visitantes em 2010 para quase 170 mil em 2016.

Jes Aznar/The New York Times
Estrangeiros exploram Buscalan

A maioria deles vem para ver Fang-od. Eles pegam uma senha e esperam ser tatuados por ela, enquanto outros se contentam com uma tatuagem feita por uma de suas sobrinhas-netas, que começaram a dar continuidade à tradição.

"Fiquei surpresa", diz Fang-od sobre o tanto de pessoas que têm vindo vê-la.

Ela diz que ainda está esperando uma visita de sua paixão, o ator filipino Coco Martin. Por enquanto, ela se contenta com uma versão de papelão em tamanho real.

Fang-od é magra e curvada, mas forte devido a uma vida plantando em declives. Ela não tem dentes, mas usa dentaduras reluzentes, adora rir e contar piadas. Uma tiara de pedras cor de ocre prende seu grosso cabelo grisalho, e ela tem os pulsos cheios de braceletes.

Ao longo de sua clavícula, e desde suas escápulas até as costas de suas mãos, ela carrega tatuagens de padrões geométricos de cobras, pítons e lagartas, os símbolos de proteção, força e direção dos Kalinga. Pequenas tatuagens se aninham nas rugas de seu queixo e testa. Ela nunca se casou, mas em seus pulsos quase se conseguem ler os nomes de alguns de seus namorados: Bananao, Basongit e Francis.

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Maria Fang-od Oggay faz tatuagem em visitante em Buscalan

Ela diz que os amou todos da mesma maneira e conta aos turistas que a loção que ela passa em uma tatuagem recém-gravada é feita do sêmen de seus 17 namorados. É óleo de coco, mas a piada a faz gargalhar.

Fang-od nasceu antes que a tribo começasse a fazer os registros de nascimentos, mas sua família calcula que ela tenha completado 100 anos em fevereiro.

Um século atrás, as tatuagens para as mulheres Kalinga eram decorativas, e representavam beleza e status.

Os homens Kalinga conquistavam suas tatuagens através de atos de bravura, sobretudo através de decapitações rituais.

Um garoto poderia conquistar sua primeira tatuagem ao surpreender outro habitante do vilarejo desavisado atingindo-o com uma lança nas nádegas, infligindo um ferimento, antes de ser promovido a expedições de decapitações.

Combates corpo a corpo com uma lança, um escudo e um machado especificamente para cortar cabeças valiam as mais impressionantes tatuagens de peito. Guerreiros que matassem mais de 10 homens mereciam tatuagens simétricas que cobriam o torso e subiam até os braços.

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Maria Fang-od Oggay faz tatuagem usando instrumentos tradicionais, em Buscalan

Nos anos 1930, o governo nacional, na época administrado pelos Estados Unidos, começou a reprimir tatuagens como troféus, e as mulheres começaram a cobrir as partes de cima do corpo. As decapitações, de atos de bravura, passaram a ser crime.

Estudantes precisavam frequentar a escola usando manga comprida para cobrir suas tatuagens. Missionários e professores diziam aos Kalinga que suas marcas eram bárbaras, que elas os impediriam de conseguir emprego e os identificavam como criminosos.

Mas uma mudança de valores está novamente mudando Buscalan.

Em um domingo, recentemente, Conradine King-Gonzalo, uma empresária de 27 anos, viajou por 13 horas de ônibus desde Manila para fazer uma tatuagem com Fang-od.

"Ela é uma lenda", diz King-Gonzalo. Essa era sua segunda viagem. Na primeira vez, Fang-od não estava, então ela procurou uma de suas sobrinhas-netas. "Não vou sossegar até conseguir uma tatuagem feita por Apo", ela diz, referindo-se a Fang-od com o termo em Kalinga para avó.

Paulo Vega, 29, um tatuador australiano de Praga, vê essa viagem como uma peregrinação. Ele veio fotografar sua máquina elétrica de tatuagem ao lado das ferramentas simples de Fang-o.

"É muito mais especial ter uma tatuagem feita por ela do que entrar em um estúdio e ter uma feita por mim", ele diz, enquanto observa Fang-od tatuar um turista com batidas rápidas e precisas. "Tem muito mais alma."

Buscalan ganhou novas hospedarias, um restaurante e lojinhas com comida enlatada e lembrancinhas à venda. Os homens trabalham como guias e carregadores, comunicando-se através de walkie-talkies.

O turismo enriqueceu o vilarejo, permitindo a pavimentação de alguns caminhos e a troca de telhados de sapé por metal. Parentes de Fang-od, que não tinham búfalos d'água, agora têm 50 deles. Mesmo o ferreiro, que vende facões bolo para turistas, conseguiu comprar dois búfalos d'água.

Mas nem todos os efeitos dessa nova atenção foram bons.

O lixo se tornou um problema e, em um vilarejo de somente 150 casas, há pouco espaço para hospedar turistas. A tradição Kalinga de cuidar de todos os visitantes, generosamente e sem pagamento, desapareceu. Os turistas ignoram o toque de recolher e perambulam pela cidade de shortinhos despudorados.

"É uma honra para nós que as pessoas venham aqui por nossas tradições", diz Anyu Baydon, 26, uma nativa de Buscalan que trabalha como voluntária na escola primária, mas ela gostaria que os turistas fossem mais controlados. Ela diz que as crianças de Butbut estão sendo influenciadas pelos estilos e condutas dos forasteiros.

Analyn Palicas, 29, também de Buscalan, diz que apesar de uma antiga proibição de bebidas alcoólicas, as pessoas trazem gim e rum, irritando os mais velhos, e que alguns trazem metanfetaminas para trocar por maconha.

O maior problema, ela diz, é que os homens jovens de Buscalan abandonaram os estudos e ficaram "viciados em trabalhar como guias", contando com um dinheiro fácil. "Fang-od não vai viver para sempre", ela diz.

No entanto, o sucesso de Fang-od inspirou uma geração mais jovem a aprender a arte.

Um deles é Den-den Wigan, 22, do vilarejo vizinho de Ngibat, que é descendente do homem que tatuou Fang-od. Ele aprendeu a arte com ela e hoje tatua em uma galeria de arte no subúrbio de Manila.

"Quero continuar a tradição que meu avô deixou", ele diz. "Para que ela não desapareça de nossa cultura."

Se os turistas continuarão escalando a montanha até Buscalan depois que Fang-od se for, ninguém sabe.

Ela diz que o vilarejo depende dela, e se preocupa que com sua morte seu povo vá passar fome.

"Eles são preguiçosos demais para trabalhar nas plantações", ela diz.

Cinco anos atrás, ela escolheu um lugar junto de sua casa onde quer ser enterrada e mandou construir uma cripta.

Por enquanto, ela a usa para guardar garrafas vazias de gim e seu moedor de café. Quando morrer, ela diz que as tatuagens serão as únicas coisas que levará consigo.

Tradutor: UOL

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