Jantares íntimos promovem a aproximação entre judeus e muçulmanos

Sharon Otterman

Em Nova York (EUA)

  • Hilary Swift/The New York Times

    A família muçulmana Anwar faz jantar com os Firestone, uma família judaica, em Nova York

    A família muçulmana Anwar faz jantar com os Firestone, uma família judaica, em Nova York

Florence Nasar não parava de checar seu telefone. Ela estava em um jantar inter-religioso no domingo visando construir amizades entre os judeus e muçulmanos de Nova York, e os convidados, todos na faixa dos 20 e 30 anos, estavam sentados em sofás ao redor dela, compartilhando histórias sobre suas práticas religiosas, seus passados e a busca para definirem quem são.

Nasar, uma judia síria, estava de fato vivendo esses temas. Seu namorado muçulmano secreto estava a caminho.

Ela não contou para sua família sobre ele, ela explicou aos demais convidados, porque na comunidade insular em Nova Jersey onde foi criada, o casamento inter-religioso é proibido. Mas Nasar, uma artista e dançarina de 27 anos, não mora mais com seus pais.

Recentemente, ela vem promovendo eventos inter-religiosos entre refugiados sírios judeus e muçulmanos, ávida em explorar a herança comum entre eles. De seu próprio interesse em entender as pessoas, ela conheceu alguém.

Nasar era uma dentre cerca de 100 convidados de uma série de jantares íntimos de judeus e muçulmanos que ocorreram no último fim de semana em Manhattan e no Brooklyn, para desenvolvimento do entendimento inter-religioso. Lonnie Firestone, uma judia ortodoxa moderna e escritora freelance do Brooklyn, teve a ideia dos jantares após a vitória do presidente Donald Trump. Ela queria unir muçulmanos e judeus em um espírito de amizade, para que pudessem trabalhar juntos contra o antissemitismo e a islamofobia.

"Quando você tem uma ligação natural com as pessoas, é possível defendê-las sem esforço", ela disse. "Você não pensa duas vezes antes de sair em defesa de um parente. E realmente gostei da ideia de que amizade e algo em comum surgem naturalmente quando se compartilha a comida."

Hilary Swift/The New York Times
A partir da esquerda: Hamza Chishti, Florence Nasar, Josh Pearl e Nashira Pearl durante jantar na casa de Danish Munir, em Nova York

Passadas duas rodadas de jantares até o momento, o projeto é um dos muitos esforços inter-religiosos ocorrendo na área de Nova York e em todo o país para promoção das relações entre judeus e muçulmanos. Mas diferente de um grande evento em uma sinagoga ou mesquita, essas refeições se distinguem por sua intimidade, com não mais que seis convidados em uma casa muçulmana ou judaica. Os convidados podem permanecer para a sobremesa e chá enquanto passam de conversas fáceis para temas mais sensíveis.

"Minha esperança é de que se virmos Nova York do alto, haja uma constelação de lares onde esses jantares estejam ocorrendo, com um senso secreto de união entre as pessoas que estão participando", disse Firestone.

Firestone e seu coplanejador muçulmano, Samir Malik, juntaram famílias com famílias e solteiros com solteiros, na esperança de que as etapas comuns da vida ajudassem a conversa a fluir. Eles queriam a participação de muçulmanos e judeus devotos, juntamente com laicos. Ao todo, foram 19 pequenos jantares realizados no fim de semana, cada um a seu próprio modo.

Por exemplo, Firestone realizou uma refeição de sabá em sua casa para uma família parecida com a sua. Ela e seu marido, Josh, são judeus devotos; seus convidados eram muçulmanos devotos. Cada família tem dois filhos, incluindo em cada uma um menino de 6 anos obcecado por Legos "Star Wars".

Antes do início da refeição, Firestone, 37 anos, acendeu as velas do sabá e fez uma bênção. Ela e seu marido então colocaram suas mãos nas cabeças de cada um de seus filhos para abençoá-los como uma oração antiga, como fazem toda semana.

"Isso é muito bonito", disse Saima Muhammad, uma dentista de 37 anos de Park Slope.

"Gosto de ter sido centrado nas crianças", disse seu marido, Faisal Anwar, um engenheiro de software de 36 anos. Eles nunca tinham participado de uma refeição do sabá e Firestone disse que nunca tinha recebido convidados muçulmanos em sua casa.

A tradicional bênção com vinho foi feita com suco de uva, para que as crianças pudessem participar. Posteriormente, os dois casais conversaram sobre o motivo para as duas religiões terem posturas tão diferentes a respeito do álcool.

Apesar de política ter sido discutida brevemente, grande parte da conversa ficou focada nos desafios de criar filhos no Brooklyn. Onde estudar? Como lidar com o ensino religioso?

Hilary Swift/The New York Times
Grupo de jovens muçulmanos e judeus participam de jantar na casa de Danish Munir

Temas diferentes dominaram a discussão no jantar na noite de domingo em Midtown West, onde oito jovens muçulmanos e judeus conversaram sobre seus caminhos pessoais para descobrir quem são, tendo como pano de fundo suas tradições herdadas.

Georgia Halliday, 26 anos, foi criada como ateísta em um subúrbio liberal de Massachusetts, mas se converteu ao Islã três anos atrás e agora veste um hijab, o lenço de cabeça islâmico. Aqsa Mahmud, 30 anos, é um muçulmano nascido no Paquistão que foi criado no Sul rural americano, tem uma avó judia paquistanesa e parentes judeus em Israel.

Nashira Pearl, 27 anos, cresceu como uma das poucas judias em Manitowoc, Wisconsin. Seus pais dirigiam uma hora e meia até Milwaukee todo mês para abastecer seu refrigerador de carne kosher (de acordo com a lei judaica). O marido dela, Josh Pearl, cresceu em Chicago, frequentando escolas ortodoxas judaicas modernas durante toda sua infância.

O casal Pearl explicou como construíram sua comunidade em Nova York em torno de sua sinagoga, a Prospect Heights Shul, no Brooklyn, também frequentada pelos Firestones. Um dos amigos muçulmanos que era o anfitrião do jantar, Danish Munir, 30 anos, compartilhou como encontrou apoio em Nova York por meio do Centro Islâmico da Universidade de Nova York, que estende a mão especificamente a jovens profissionais muçulmanos. "Eu entrei lá e herdei, tipo, 500 amigos", ele disse.

A discussão no jantar acabou posteriormente se voltando para o aspecto mais difícil da construção dos relacionamentos inter-religiosos: a possibilidade do amor. Isso é de alguma forma a meta suprema desse contato? Ou é uma transgressão e traição da crença religiosa?

Nasar explicou quantos de seus amigos judeus sírios se recusaram a participar de seus próprios esforços inter-religiosos de jantares com muçulmanos sírios, por meio do Comitê de Solidariedade Muçulmana-Judaica da Cidade de Nova York. Não por causa de política, ela disse, mas porque as amizades poderiam levar a casamentos inter-religiosos, o que suas comunidades proíbem.

"Na comunidade síria, esse é um dos maiores temores, porque dizem que as outras comunidades judaicas estão desintegrando e somos uma das poucas que permanecem fortes", ela disse, referindo-se aos casamentos inter-religiosos.

Nasar sabia que sua mãe suspeitava de algo. Ela lhe disse recentemente que não queria ir a eventos para judeus solteiros por já estar namorando alguém, sem dizer quem era. "E ela disse: 'Tudo bem, não precisa me dizer nada a respeito. Desde que ele seja judeu'."

Mas ele não é. Momentos depois de contar sua história, a porta se abriu e Mehmet Rezan Altinkaynak, um ex-repórter da "CNN" da Turquia, ingressou no jantar inter-religioso com uma barba e um grande sorriso caloroso. Nasar logo foi se sentar no sofá ao lado dele.

Havia um sentimento de segredo compartilhado e laço mútuo. A sala estava cheia de pessoas que, cada uma a seu modo, correram riscos para estarem ali.

Os outros convidados não encheram o casal de perguntas, apesar de Munir, o anfitrião, ter dito que queria saber como se conheceram. Em vez disso, Halliday, a muçulmana convertida, contou sua história. "Minha mãe chorou quando voltei para casa de hijab", ela lhes disse. "Mas agora estão aceitando."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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