Série de TV árabe dramatiza a vida sob o Estado Islâmico

Ben Hubbard

Uma mãe viaja à Síria para encontrar seu filho após ele fugir para se juntar ao Estado Islâmico (EI). Uma cristã renuncia sua religião e planeja explodir uma igreja. Uma matrona vestida de preto diz para meninas adolescentes descansarem antes de serem estupradas pelos combatentes extremistas.

Essas histórias assustadoramente familiares da vida sob o Estado Islâmico no Iraque e na Síria se transformarão neste mês em tramas no horário nobre da televisão por todo o mundo árabe.

Uma série dramática em 30 partes estreará no MBC 1, o canal por satélite mais assistido no mundo árabe, durante o mês sagrado do Ramadã, disse Ali Jaber, diretor de televisão da MBC Network.

A rede exibiu para o "New York Times" três episódios da série, "Black Crows" (corvos negros, em tradução livre).

Ela pinta um quadro do Estado Islâmico como sendo uma organização criminosa brutal comandada por líderes corruptos e hipócritas. Mas os recrutas são retratados como vítimas e as mulheres que desafiam o controle dos militantes como heroínas.

Em um episódio da série, uma escrava yazidi é enviada para limpar o quarto de um combatente do Estado Islâmico, onde sua esposa entediada pergunta se a mulher está com fome ou gostaria de assistir um filme. A mulher cativa fica ultrajada.

As histórias das mulheres dominam a série, disseram os produtores, por oferecerem rico material dramático. A maioria dos espectadores do canal também é do sexo feminino.

Em outro episódio, comandantes do EI doutrinam crianças a ingressarem em suas fileiras.

Assim como os recrutas do EI, o elenco vem de todo o mundo árabe e as tramas da série refletem manchetes conhecidas sobre as atrocidades do grupo.

O Ramadã, que começa em 27 de maio, é um mês do calendário islâmico durante o qual os muçulmanos jejuam do nascer ao pôr do sol. Também é um período de pico na televisão do mundo árabe, quando as famílias se reúnem após quebrarem o jejum para assistir programas até tarde da noite.

Em termos de televisão, "é como se fosse o Super Bowl por 30 dias seguidos", disse Mazen Hayek, um porta-voz da MBC (referindo-se à final do futebol americano).

A programação inclui romances, comédias e dramas históricos, alguns dos quais refletindo eventos atuais. Apesar da nova produção da MBC ser um drama em que parte do figurino e da maquiagem podem ser cartunescos, a série, que se passa atrás das linhas de frente dos jihadistas, não é uma atração leve.

Middle East Broadcasting Center via The New York Times
Cena de "Black Crows", série sobre a vida sob o domínio do Estado Islâmico


Outra história envolve um jornalista cuja noiva se torna um mulher-bomba suicida para o Estado Islâmico. Ela chega disfarçada para uma reportagem sobre o grupo e depois jura abandonar sua fé cristã e explodir uma igreja.

A atriz, Samar Allam, disse em uma entrevista por telefone que estar no set e entrar na personagem a deprimia, mas que espera que a série faça as pessoas pensarem de uma forma que o noticiário sobre a violência do Estado Islâmico parece não ser capaz.

"O EI é um risco para toda a humanidade", ela disse. A série permitiu a ela "exibir meu ódio e minha condenação ao grupo, expressá-los de uma forma concreta".

Marwa Mohamed, uma atriz saudita, interpreta uma mulher que mata seu marido por traí-la e foge para se juntar ao Estado Islâmico com seus dois filhos. Após um ser abusado sexualmente e o outro ser morto, ela luta para escapar.

"É importante acordar as pessoas e mostrar a elas que o Islã não é isso", disse Mohamed.

Ela disse que espera que apesar do tema sombrio, que os espectadores assistam pelas histórias humanas. "Não se resume a terrorismo e guerra", ela disse. "Também há muitas histórias dramáticas."

A série ecoa a cobertura do Estado Islâmico pela mídia de notícias, com explosões que deixam corpos espalhados e homens armados acenando bandeiras pretas, mas dramatiza as vidas das pessoas forçadas a viver sob o controle do grupo.

Jaber, que é conhecido no mundo árabe como jurado de um reality show de talentos, "Arabs Got Talent", disse que a série busca fazer uso da influência da televisão popular para minar a narrativa usada pelo Estado Islâmico para atrair recrutas.

"Acreditamos que trata-se de uma epidemia, e é uma doença que temos que reunir coragem para tratar e combater", ele disse.

Mesmo assim, há riscos em produzir um programa sobre o Estado Islâmico na região onde o grupo causa mais danos.

Uma comédia na MBC que ridicularizava o grupo resultou em ameaças de morte contra seu astro. E Jaber disse que alguns patrocinadores podem hesitar em anunciar seus produtos em um programa violento sobre um grupo terrorista.

"Ele chamará atenção, terá audiência, badalação e reputação, mas não dará dinheiro", ele disse.

Desde que o Estado Islâmico invadiu a Síria e o Iraque, chocando o mundo com suas decapitações coreografadas e execuções elaboradas, governos têm lutado para derrotar o grupo e responder a sua potente propaganda feita para a televisão.

Alguns diplomatas disseram a Jaber que gostam da ideia do uso da televisão para contestar a mensagem dos jihadistas. Em março, ele foi convidado a discutir a série com diplomatas do Ocidente e do Oriente Médio em uma cúpula em Washington, promovida pelo secretário de Estado americano, Rex W. Tillerson.

Outras séries, dramas e comédias no Ramadã já fizeram referência ao Estado Islâmico, mas "Black Crows" parece ser a primeira situada totalmente no mundo dos militantes, disse Rebecca Joubin, professora associada de estudos árabes da Faculdade Davidson, que estuda os programas de televisão da região.

Os programas mais populares no Ramadã costumam ser as histórias de amor escapistas, cheias de pessoas bonitas vestindo roupas elegantes. "Muita gente dirá: 'Não quero assistir isso. Já vejo no noticiário todo dia'", disse Joubin.

Mesmo assim, os produtores da série esperam que seja amplamente assistida durante o Ramadã, quando o MBC 1 tradicionalmente tem um pico de audiência.

A série será exibida em árabe como "Al Gharabeeb Al Soud" e a rede espera produzir uma versão em língua inglesa para distribuição internacional.
 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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