Em Washington, as pessoas já esperam pelo pior ao ver o alerta de "notícia urgente"

Katie Rogers

Em Washington (EUA)

  • Doug Mills/The New York Times

Ao contrário do que pode parecer nas redes sociais ou na sua TV a cabo preferida, as pessoas em Washington não estão exatamente correndo pelas ruas em massa, tomadas pelas últimas notícias sobre o presidente Donald Trump, gritando sobre a possibilidade de impeachment. Pelo menos ainda não.

Com a cidade apitando e bipando com atualizações sobre várias investigações e vazamentos em torno da Casa Branca, a capital nesta semana se sentiu à beira do superaquecimento, literal e politicamente. E a população de Washington parecia estar em um estranho lugar existencial: incapaz de se satisfazer com um ciclo de notícias fora dos trilhos, mas à beira da fadiga ligada a Trump, pelo ritmo de tirar o fôlego.

No Capitólio na quarta-feira (17), bandos de repórteres esperaram sob um calor de 32 graus para perguntar aos legisladores o que pensavam sobre a última notícia que derivou da repentina demissão por Trump do diretor do FBI, James Comey, que investigava as ligações da campanha de Trump com autoridades russas. Pelo menos um legislador recorreu ao sarcasmo: perguntado se estava se divertindo, o senador Jeff Flake, do Arizona, um dos poucos republicanos que visivelmente se afastou de Trump, sorriu e disse: "Oh, é fantástico".

O senador democrata Christopher Murphy, de Connecticut, não estava no clima para brincadeiras: "Não pense que esta democracia aguentará mais 230 anos", disse. "É preciso cuidar dela ativamente e protegê-la."

Além dos confins do Capitólio, o índice Dow Jones caiu e o chefe da Polícia Metropolitana condenou um "ataque brutal" das forças de segurança turcas às pessoas que protestavam contra o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que visitava a cidade. Havia um clima menos frenético nos bares e restaurantes nas ruas ao redor do Capitólio, onde homens e mulheres de terno sorviam Coronas durante a happy hour embaixo de TVs sintonizadas na CNN. O Capitol Lounge foi inundado por agentes imobiliários que tinham alugado a Sala Nixon, e na mesma rua, no mais tranquilo Hawk 'n' Dove, dois rapazes estavam aninhados perto do final do balcão, assistindo às últimas notícias sobre Trump.

"Se ele conseguir baixar a cabeça e deixar isso passar, se sairá bem", pôde-se ouvir um deles dizer.

Durante algumas horas, pelo menos, a conta de Trump no Twitter ficou dormente. O ciclo de notícias não. Outra reportagem brilhou na tela: Robert Mueller 2º, um ex-diretor do FBI, tinha sido nomeado para supervisionar a investigação de ligações entre a campanha de Trump e autoridades russas.

Essa foi apenas a primeira grande reportagem da noite. Algumas horas depois, as pessoas que participavam de uma popular competição semanal de atualidades no Nellie's, um bar esportivo gay com um público cada vez mais misto, esforçava-se para acompanhar os fatos antes que o próximo alerta soasse: a equipe de Trump sabia que Michael Flynn estava sob investigação federal, e mesmo assim ele foi contratado como assessor de segurança nacional.

Maria Gorbaty, 26, aluna de graduação na Universidade George Washington e membro da equipe de fatos do "Departamento Federal de Impeachment", acompanhava as notícias, mas admitiu estar avassalada pelo temporal de informações.

"Todas as notificações 'push'", disse ela. "Uma após a outra. Você fica meio atordoada, apesar de saber que deve se importar."

Seu colega Kelsey Atwood, 24, acrescentou: "Eu fico nervoso quando meu telefone vibra".

A alguns quarteirões dali, estava claro que seria preciso um pouco mais que algumas centenas de novos alertas para abalar as pessoas que fizeram de Washington seu lar ao longo de diversos governos. No Jefferson Hotel, uma multidão se reuniu para beber vinho tinto e comemorar o lançamento de um romance de Holly Peterson. Esta nova-iorquina que estava em Washington para a noitada disse que se considera atualizada nos eventos do dia, mas que nada a havia preparado para a agilidade das discussões políticas que ela encontrou nesse grupo.

"É como um marciano chegando a um planeta político", disse Peterson. "Você tem a sensação de que estão todos falando outra língua."

Ela tinha aí uma tese: no Twitter nesta semana, era realmente possível ver o glossário. Palavras como "impeachment", "Watergate" e "Nixon" ricocheteavam ao redor de um espaço digital povoado por jornalistas, políticos, ativistas e analistas. Até a C-SPAN, que normalmente não se destaca no Twitter, bateu um recorde ao publicar um vídeo de Al Green, um congressista democrata do Texas, de pé no plenário pedindo o impeachment de Trump.

Julian Zelizer, um historiador da Universidade Princeton e analista político da CNN, disse que era razoável as pessoas traçarem paralelos entre as notícias que giravam em torno de Trump e o que aconteceu no escândalo de Watergate: "Ao demitir Comey, fazer uma sessão de fotos com Kissinger e referir-se a gravações, ele atraiu a comparação" com o escândalo que levou à renúncia do presidente Richard Nixon, disse Zelizer.

Ele mencionou algumas diferenças chaves: a falta de uma reação unificada entre os republicanos, a urgência e a velocidade do ciclo de notícias moderno --o escândalo Watergate, comentou ele, se desenrolou durante anos-- e uma explicação equivalente e oposta para os atuais problemas de Trump por parte de seus apoiadores conservadores.

"Nixon não tinha uma mídia conservadora com que pudesse contar", disse Zelizer. "Não havia pessoas nas redes sociais conservadoras bombeando histórias favoráveis. E é com isso que Trump conta, até certo ponto."

Esse lado da mídia noticiosa quase não era visto nesta cidade fortemente democrata na quarta-feira, e a CNN parecia ser o principal veículo de notícias nos lugares, de bares a barbearias. Mas uma exceção notável era o Trump International Hotel em Washington. Conforme a noite avançava para a 0h, os fregueses do bar viam uma TV que transmitia o canal Fox News. Lá, a grande reportagem da rede era exibida em destaque: Trump tinha se queixado de tratamento injusto em um discurso a formandos da Guarda Costeira.

Na manhã seguinte, essas reportagens ameaçavam perder o viço enquanto Trump segurava as rédeas.

"Esta é a maior caça às bruxas a um político na história americana!", escreveu o presidente no Twitter.

As telas de toda a capital reluziram com vida pouco depois. Mais um dia na capital havia começado.

*Jonathan Martin colaborou na reportagem.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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