Como a Itália transformou uma aldeia que seria um paraíso em um inferno

Gaia Pianigiani

Em Villaggio Coppola (Itália)

  • Dmitry Kostyukov/The New York Times

    Construção abandonada na praia de Destra Volturno, perto de Nápoles, Itália

    Construção abandonada na praia de Destra Volturno, perto de Nápoles, Itália

Quando Villaggio Coppola foi construída, nos anos 1960, no litoral oeste da Itália, no mar Mediterrâneo, pouco ao norte de Nápoles, destinava-se a ser uma área residencial utópica.

Mas a utopia rapidamente seguiu o caminho errado. Cerca de 12 mil apartamentos ao longo da costa e na cidade próxima de Castel Volturno foram construídos sem respeitar a lei de zoneamento, num período em que as autoridades locais ignoravam o desenvolvimento urbano no litoral. Afinal, muitos moradores foram obrigados a ir embora.

O que resta hoje parece menos uma utopia que um paraíso perdido, um lugar de abandono e degradação e uma concentração dos problemas comuns no sul da Itália: criminalidade, governo local negligente e extrema pobreza.

A parte originalmente projetada para os moradores mais ricos, Parco Saraceno, parece uma cidade fantasma, incluindo um hotel antes popular mas hoje vazio, construído para parecer um castelo, um vestígio das ambições grandiosas do vilarejo. A maioria das construções, antes coloridas, são um retrato do abandono; as ruas e a paisagem, muitas vezes desertas, parecem assombradas.

Ao longo de toda a costa, por dezenas de quilômetros e muitas vezes além dos confins de Villaggio Coppola, casas térreas ocupam a faixa de beira-mar, a poucos metros da praia. Mas em vez de ser um refúgio paradisíaco para turistas e moradores a praia se transformou em um terreno de despejo de colchões sujos, bordejada por varandas onde quase ninguém se senta.

Dmitry Kostyukov/The New York Times
Parco Saraceno parece uma cidade fantasma em Villaggio Coppola, em Itália

Mas isso não quer dizer que não há moradores. Algumas pessoas ainda chamam Parco Saraceno de seu lar.

Embora muitas estruturas estejam abandonadas, alguns residentes conseguiram negociar anistias com as autoridades no final dos anos 1980 e início dos 2000, para evitar o despejo. Alguns ainda moram lá. Outros prédios abandonados têm invasores.

Mas Parco Saraceno recebe poucos serviços municipais, existindo em uma espécie de limbo jurídico, e os moradores não querem que seus nomes completos sejam publicados devido à situação obscura da aldeia.

Salvatore, 40, um pintor de paredes, e sua companheira, 41, uma faxineira, mudaram-se para o vilarejo vindos do centro histórico de Castel Volturno depois que os aluguéis lá ficaram altos demais.

Hoje eles vivem em Parco Saraceno com três de seus quatro filhos, em um apartamento com vista para os campos de futebol próximos e Villaggio Coppola à distância.

Dificuldades financeiras também levaram Thomas, 54, um nativo do Mali, a mudar-se para cá. Ele dirigiu um internet-café em Castel Volturno até um ano atrás, quando começou a perder a visão e precisou parar de trabalhar. Uma instituição católica lhe fornece comida e assistência médica.

A prostituição floresce na área, para alegria dos bandidos locais. Ao anoitecer, praticamente todos os dias, a Via Domitiana, uma antiga estrada romana que corre paralela ao mar, transforma-se em uma longa passarela para mulheres, muitas delas africanas, que oferecem seus corpos por baixo preço aos motoristas que passam.

Dmitry Kostyukov/The New York Times
Vista de Pineta Mare de um apartamento em Villaggio Coppola, na Itália

As autoridades esporadicamente tentaram recuperar a área. Mas a construção de um porto turístico foi suspensa há muito tempo.

Se a justaposição de desenvolvimento turístico com pobreza pode ser chocante, o litoral continua atraindo a muitos. Quase todos os moradores de Parco Saraceno têm vista para o mar, embora às vezes obstruída por antenas parabólicas enferrujadas.

O bairro foi projetado para expansão, mas as fundações das novas casas se tornaram depósitos para tudo o que é trazido pelos ventos marinhos. Quase qualquer coisa de valor, incluindo metal, foi retirada por saqueadores.

Mas à distância é quase impossível imaginar a completa decadência da aldeia e é fácil visualizar a utopia que pretendia ser, um oásis aberto para o mar e o céu azuis. Um campo de golfe de 18 buracos nas proximidades aumenta a ilusão.

Mesmo examinando de perto, é difícil dizer quais das dezenas de pequenas sacadas têm moradores que poderiam sair para desfrutar a vista, e quais casas são apenas a casca de um sonho esquecido.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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