Como o Google tomou conta das salas de aula nos EUA

Natasha Singer

Em Chicago

  • Sasha Maslov/The New York Times

    Estudante usa laptop com produtos do Google em sala de aula da Brooklyn College Academy, em Nova York

    Estudante usa laptop com produtos do Google em sala de aula da Brooklyn College Academy, em Nova York

Os alunos da sexta série da Newton Bateman, uma escola primária pública daqui, conhecem a rotina do Google.

Em uma aula de estudos sociais no ano passado, cada um dos alunos pegou um laptop do Google. Eles abriram o Google Sala de Aula, um aplicativo através do qual os professores passam tarefas. Depois clicaram no Documentos Google, um programa de edição de texto, e começaram a escrever redações.

As Escolas Públicas de Chicago, o terceiro maior distrito escolar dos Estados Unidos, com cerca de 381 mil alunos, está na vanguarda de uma profunda mudança no ensino americano: a googlificação da sala de aula.

Em cinco anos, o Google ajudou a subverter os métodos de venda que as empresas usam para colocar seus produtos nas salas de aula. Ele recrutou professores e administradores para promover produtos do Google para outras escolas. Ele procurou educadores diretamente para testar seus produtos, na prática passando por cima de autoridades distritais de alto escalão. E passou a perna na Apple e na Microsoft com uma poderosa combinação de laptops de baixo custo, chamados Chromebooks, e aplicativos gratuitos para serem usados em sala de aula.

Hoje, mais da metade dos alunos de escolas primárias e secundárias do país —mais de 30 milhões de crianças— usam aplicativos educacionais do Google como Gmail e Documentos, segundo a empresa. E os Chromebooks, os laptops do Google que inicialmente tiveram dificuldades para encontrar um destino, hoje correspondem a mais da metade dos dispositivos móveis enviados a escolas americanas.

"Entre o outono de 2012 e hoje, de uma possibilidade interessante o Google passou a ser a forma dominante pela qual escolas de todo o país" ensinam aos alunos como encontrar informações, criar documentos e entregá-los, segundo Hal Friedlander, ex-chefe de informações para o Departamento de Educação da Cidade de Nova York.

Ao fazer isso, o Google está ajudando a provocar uma mudança filosófica no ensino público, ao priorizar o treinamento de crianças em habilidades como trabalho em equipe e resolução de problemas ao mesmo tempo em que tira a ênfase do ensino de conhecimentos acadêmicos tradicionais, como fórmulas matemáticas. Ele coloca o Google e a economia de tecnologia no centro de um dos grandes debates que dominaram o ensino nos Estados Unidos por mais de um século: se o propósito das escolas públicas é formar cidadãos instruídos ou profissionais qualificados.

As escolas podem estar dando ao Google mais do que estão recebendo: gerações de futuros clientes.

O Google ganha US$ 30 (cerca de R$ 93) por dispositivo ao vender serviços de gerenciamento para os milhões de Chromebooks que são enviados às escolas. Ao acostumar os alunos a suas ofertas desde cedo, o Google consegue algo muito mais valioso.

Todos os anos vários milhões de alunos americanos se formam no ensino médio. E o Google não somente torna fácil para aqueles que têm contas escolares no Google subir sua coleção de arquivos escolares do Gmail, do Documentos e outros para contas normais do Google, como as escolas também os incentivam a fazê-lo.

Alguns pais alertam que o Google poderia lucrar usando dados pessoais do e-mail escolar de seus filhos para construir perfis de consumidores mais eficientes deles como jovens adultos.

Whitten Sabbatini/The New York Times
Alunos da Escola Primária Newton Bateman, em Chicago, usam laptops com produtos do Google

Jonathan Rochelle, diretor do grupo de aplicativos educacionais do Google, disse que quando os alunos transferem seus e-mails e arquivos escolares para uma conta pessoal do Google, essa conta está sujeita à política de privacidade do Google.

"Contas pessoais do Gmail podem servir para propagandas," ele disse, mas os arquivos no Google Drive "nunca são vasculhados com o intuito de mostrar anúncios".

Em 2013, Rochelle, um co-desenvolvedor do Documentos Google, montou uma equipe no Google para criar aplicativos específicos para escolas.

Para disseminar essas ferramentas, Jaime Casap, promotor global de educação do Google, começou a viajar pelo país com uma mensagem motivacional: em vez de produtos específicos do Google, Casap disse aos educadores que eles poderiam melhorar as perspectivas acadêmicas e profissionais de seus alunos usando ferramentas online de forma criativa.

Mas também causou problemas em Chicago e outro distrito quando o Google começou a procurar professores para testarem um novo aplicativo —na prática passando por cima de administradores distritais. Em ambos os casos, o Google teve suas rédeas puxadas.

O Google obtém a maior parte de sua receita com anúncios na internet, a maior parte deles através de um uso sofisticado de dados pessoais.

O Google se negou a fornecer um detalhamento exato do quê a empresa coleta do uso que os estudantes fazem de seus serviços. Bram Bout, diretor do setor de educação do Google, citou um aviso de privacidade do Google que lista as categorias de informações que os serviços educacionais da empresa coletam, como dados de localização e "detalhes de como um usuário usou nosso serviço".

Bout disse que os dados dos estudantes nos principais serviços de ensino do Google (incluindo o Gmail, a Agenda e o Documentos) "só são usados para fornecer os serviços em si, de forma que os estudantes possam fazer coisas como se comunicar usando o e-mail".

Esses serviços não mostram anúncios, segundo ele, e "não usam dados pessoais que resultem do uso desses serviços para criar anúncios direcionados".

Uma máquina de marketing no campus

Em 2006, Casap convenceu diretores da Universidade do Arizona a acabar com seu custoso serviço interno de e-mails e substitui-lo por uma versão gratuita do pacote Gmail/Documentos que o Google tem vendido a empresas. Em um semestre, a grande maioria dos cerca de 65 mil alunos da universidade se cadastraram.

A Universidade de Northwestern, a Universidade do Sul da Califórnia e muitas outras fizeram o mesmo.

Essa se tornou a estratégia de marketing do setor de educação do Google: cortejar diretores de escolas com serviços fáceis de usar e quem poupam dinheiro. Depois, recrutar escolas para promover para outras escolas.

Casap decidiu tentar a estratégia com escolas públicas.

Por acaso, funcionários do Departamento de Educação de Oregon estavam tentando ajudar escolas locais a cortar seus gastos com e-mails, disse Steve Nelson, um ex-funcionário do departamento. Em 2010, o Estado disponibilizou oficialmente os aplicativos educacionais do Google para seus distritos escolares.

O Google desenvolveu então uma estratégia de crescimento voltada para professores, que poderiam influenciar os administradores que tomam as decisões sobre tecnologia.

Nick Cote/The New York Times
Bram Bout, diretor da unidade de educação do Google, em Denver

Destronando a Microsoft

Nas Escolas Públicas de Chicago, a estratégia em torno dos professores funcionou quase que perfeitamente.

Em 2012, Jennie Magiera, na época uma professora de quarto série em Chicago, queria que seus alunos usassem o Documentos Google. Como o distrito ainda não estava usando os aplicativos do Google, ela criou de forma independente seis contas para sua classe.

As Escolas Públicas de Chicago estavam tentando cortar os US$2 milhões (mais de R$6 milhões) anuais que vinham gastando com o Microsoft Exchange e outro serviço de e-mail.

Em março de 2012, o distrito escolheu o Google.

Administradores de Chicago disseram em entrevistas que pediram ao Google que assinasse um contrato concordando, entre outras coisas, em obedecer à lei federal sobre direitos educacionais da família e privacidade. A lei permite que instituições que recebem financiamento federal compartilhem informações pessoais que identificam os estudantes a determinados prestadores de serviços de escolas, contanto que essas empresas usem essa informação somente para fins escolares.

Em vez disso, o Google propôs inicialmente que cumprisse suas próprias políticas, disse Edward Wagner, diretor de serviços de infraestrutura do distrito, e em seguida enviou links para essas políticas por e-mail, condições que a empresa poderia mudar a qualquer momento.

Bout, do Google, disse que a empresa de tecnologia "sempre levou a sério as necessidades de conformidade de nossos usuários dos serviços de educação".

Hoje, os acordos padrão do Google com as escolas para seus aplicativos de educação incluem um comprometimento em cumprir essa lei.

Desde que passaram a adotar os aplicativos do Google, as escolas de Chicago economizaram cerca de US$ 1,6 milhão por ano em gastos com e-mails e derivados, segundo um porta-voz do distrito.

Nick Cote/The New York Times
James Casap, especialista em educação global do Google, durante conferência em Denver

Um aplicativo de "controle de missão"

Em 2014, o rolo compressor educacional do Google encontrou um obstáculo nas Escolas Públicas de Chicago.

O Google esperava que Chicago fosse ser uma das primeiras a adotar o Google Sala de Aula, seu novo aplicativo para ajudar professores a controlar presença, passar lições de casa e fazer outras tarefas.

Mas o Google não contava com Margaret Hahn.

Na época, ela era diretora de gerenciamento de mudanças tecnológicas do sistema escolar. Logo no começo, segundo ela, o Google havia convidado professores para testarem uma versão inicial do Sala de Aula, sem antes contatar os administradores de tecnologia do distrito escolar.

Agora o Google queria que as Escolas Públicas de Chicago adotassem o aplicativo em todo o distrito, ela disse, antes de determinar se ele cumpria políticas locais de proteção aos estudantes.

Em uma declaração por e-mail, Bout disse a respeito dos principais serviços educacionais da empresa: "Em todos os casos, o uso desses serviços está atrelado à aprovação de um administrador responsável por supervisionar o domínio de uma escola".

O Google via o Sala de Aula como uma espécie de painel de "controle de missão" onde os professores poderiam gerenciar de forma mais eficiente tarefas como passar e corrigir lição de casa. Para criar o aplicativo, eles tiveram uma colaboração próxima de professores.

Em maio de 2014, o Google postou um anúncio online, procurando voluntários para testar uma versão beta do Sala de Aula. Mais de 100 mil professores do mundo inteiro responderam, segundo a empresa. Naquele mês de agosto, o Google disponibilizou o Sala de Aula para as escolas.

Isso foi rápido demais para as Escolas Públicas de Chicago.

Os administradores de lá queriam testar o Sala de Aula primeiro para terem certeza de que ele obedecia às políticas do distrito e se encaixavam nas necessidades de seus professores. Então eles criaram um programa piloto, envolvendo cerca de 275 professores e milhares de alunos, para rodar por um ano letivo inteiro. Todos os meses, segundo Hahn, ela coletava o feedback de professores e o enviava para o Google.

Os administradores identificaram um problema imediato: a política do comitê escolar requeria que os funcionários mantivessem registros de bullying pela internet e outros comentários problemáticos. Mas o Sala de Aula inicialmente não o fez. Se um aluno escrevesse algo ofensivo e um professor deletasse, não havia registros disso.

O Google por fim acrescentou uma função de arquivamento. No outono seguinte, o distrito de Chicago migrou para o Sala de Aula. Os professores de lá verificaram posteriormente outros produtos do Google, tornando-se na prática um laboratório de testes para a empresa.

A capacidade do Google de testar seus produtos em uma escala tão monumental despertou preocupações de que talvez a gigante da tecnologia esteja explorando professores e alunos de escolas públicas como mão de obra gratuita. "É uma empresa privada usando de forma muito criativa recursos públicos —no caso, o tempo e o conhecimento dos professores— para construir novos mercados a um baixo custo", disse Patricia Burch, uma professora de Educação da Universidade do Sul da Califórnia.

Rochelle, executivo do Google, disse que era importante para a empresa ter conjuntos grandes e diversificados de usuários educacionais fornecendo-lhe feedback.

"Nossa meta é criar produtos que ajudem educadores e estudantes", disse Rochelle. "Os professores dizem que gostam da oportunidade de se envolver logo no início e de ajudar a moldar nossos produtos para atender às suas necessidades".

 

Tradutor: UOL

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