EUA vivem febre de castelos para morar

Paul Sullivan

  • Nathaniel Brooks/The New York Times

    26.jan.2017 - Highlands Castle, que está à venda por US$ 12,8 milhões (R$ 39,6 miilhões), em Bolton Landing, NY

    26.jan.2017 - Highlands Castle, que está à venda por US$ 12,8 milhões (R$ 39,6 miilhões), em Bolton Landing, NY

Roger Declements gosta de construir seus castelos à moda medieval.

Ele começa com pedras --até mil toneladas delas-- e então levanta duas paredes paralelas. Após anos de trabalho, às vezes uma década inteira, essas paredes constituem o que ele considera a morada "mais avançada, sólida e confortável" que alguém pode ter.

"Se você quiser uma casa segura, construa um castelo", disse Declements, cuja firma se chama CastleMagic. (E ele construiu cinco até agora, nos Estados de Washington, Utah e Idaho.)

Diferentemente dos castelos feitos séculos atrás, os dele têm isolamento térmico, encanamento moderno e outras amenidades, para que as pessoas queiram morar neles --e para isso paguem ao redor de US$ 1 milhão (R$ 3,1 milhões).

Nos EUA, onde não existem castelos medievais de verdade, os de imitação são poucos e distantes uns dos outros. Mas o interesse por eles cresceu, em parte por causa da popularidade de livros e programas como "Vikings", "Downton Abbey", "Game of Thrones" e a série Harry Potter.

"Quando as pessoas constroem castelos nos EUA, são estruturas de fantasia", disse John Sexton, professor-assistente de inglês que se dedica à literatura medieval na Universidade Estadual de Bridgewater, em Massachusetts. "Os verdadeiros castelos são estruturas defensivas, não foram idealizados como um lugar confortável para se viver. Você estava lá dentro porque havia pessoas lá fora que queriam matá-lo."

John Lavender 2º adotou a abordagem conforto-e-fantasia quando construiu seu próprio castelo. Ele montou uma estrutura simples de madeira e depois carregou para dentro centenas de toneladas de pedras, colocando cada uma manualmente. Nos últimos 35 anos, ele criou um imponente reduto de pedra no lago George, no interior de Nova York.

Ele aprecia especialmente as lembranças de trabalhar com seu filho no chalé. "Nós empedramos aquele lugar todo em um verão juntos, trabalhando muito duro", disse.

Nathaniel Brooks/The New York Times
John Lavender 2º, dono do Highlands Castle (EUA)

Os aficionados por castelos, particularmente os que conhecem alguma coisa sobre as construções que salpicam o interior da Europa, zombam dessas versões americanizadas das antigas fortalezas europeias. Palavras como "Disney" e "invenção" são usadas para descrevê-los.

Mesmo do outro lado do oceano, entretanto, houve um aparente ressurgimento do interesse por castelos entre os que têm recursos para gastar.

"Quando começamos a fazer castelos, quatro anos atrás, foram 20 ou 30", disse Michael Braunholtz, diretor de vendas do Prestige Property Group, uma empresa imobiliária em Londres. "Não podíamos acreditar no número de pessoas que acessavam nossa página. Era o dobro de 'châteaux', 'Monaco', 'St.-Tropez', 'Veneza'... O número de pessoas que procurava 'castelos' era enorme."

Ele disse que sua firma às vezes recebe até 200 consultas por semana.

Enquanto os castelos como os de Declements, na região Noroeste-Pacífico dos EUA, podem ser comprados pelo preço de um apartamento de um quarto em Manhattan, a obra da vida de Lavender, conhecida como Highlands Castle, está à venda pelo preço régio de US$ 12,8 milhões (quase R$ 40 milhões).

Declements disse que vendeu seu castelo no lago Pend Oreille, em Idaho, por cerca de US$ 1 milhão, o que, segundo ele, superou o valor de outras casas nessa área de recreação. Ele disse que está construindo mais dois agora.

Esse não é a primeira febre de castelos nos EUA. No início do século 20, homens como William Randolph Hearst, o dono de jornais, e Raymond Pitcairn, herdeiro de uma rica empresa de vidros, construíram castelos para abrigar suas coleções de arte e tapeçarias medievais.

"Muitos monumentos na Europa estavam em ruínas e podiam ser exportados, porque não havia tarifas de exportação", disse Martha Easton, professora-assistente de história da arte e profissões museológicas na Universidade Seton Hall em South Orange, Nova Jersey. "Elas queriam colocá-las em castelos medievais, e não numa casa velha."

A pesquisa de Easton se concentra no Hammond Castle em Gloucester, Massachusetts, que foi construído por John Hays Hammond Jr. Ele inventou os torpedos controlados por rádio, mas era fascinado pelo passado, segundo ela.

Esses construtores do século 20 nem sempre foram fiéis à história. O Hammond Castle tem um grande saguão que evoca o interior de uma igreja medieval e vitrais coloridos, mas também conta com grandes lareiras, que estariam fora de lugar, e um pátio que leva a uma piscina, segundo Easton.

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Salão do Highlands Castle, em Bolton Landing (NY)

Muitos dos maiores castelos da primeira onda se tornaram museus: o Hearst, que fica ao sul de San Francisco; o Glencairn, de Pitcairn, perto de Filadélfia; e o Hammond. O castelo Gillette, em East Haddam, Connecticut, foi construído por um ator famoso por interpretar Sherlock Holmes.

Há relíquias menores daquela época que subsistem como residências. Mas não são muito atraentes para se viver no mundo moderno, ou fáceis de reformar.

Maria Barr, uma corretora da Select Sotheby's International Realty, está tentando vender um castelo de 800 metros quadrados no centro de Albany. Ele foi construído no final do século 19 e tem hera subindo por sua torre de pedra.

No lado positivo, todo esse espaço sai por menos de US$ 800 mil (cerca de R$ 2,5 milhões). Mas há problemas. Por exemplo, só existe um banheiro completo no castelo de quatro andares.

"Esta não é uma casa onde você poderia morar", disse Barr. "As cozinhas e o banheiro são realmente rudimentares. Qualquer pessoa que o compre terá de acrescentar banheiros."

Para muitos compradores dos castelos existentes, eles representam um projeto.

Tom Vozzella, corretor da Berkshire Hathaway Real Estate em Stamford, Connecticut, passou três anos tentando vender um castelo na parte norte da cidade, entre bosques. O prédio foi construído por Gustave Steinback, um arquiteto do início do século 20, no ponto mais elevado de sua propriedade de 31 hectares.

Isso foi em 1906. Nos anos que se passaram, o castelo teve altos e baixos e precisava de uma reforma séria quando foi posto no mercado em 2011, por pouco mais de US$ 1 milhão.

"Funcionalmente, era um pouco obsoleto, como a maioria dos castelos", disse Vozzella. "A cozinha ficava no porão, e tinha um pequeno elevador para comida. Então pegaram uma biblioteca e construíram uma cozinha no andar térreo. Mas não havia nenhum banheiro lá."

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Quarto do Highlands Castle, em Bolton Landing (NY)

Ele lutou para encontrar um comprador até que um construtor local, impressionado pelo complexo trabalho de cantaria, o comprou por US$ 625 mil (cerca de R$ 2 milhões) em 2014, sabendo que gastaria aproximadamente o dobro para restaurá-lo.

Os castelos mais elaborados da Europa, com seu esplendor de Velho Mundo, não são mais fáceis de vender. Braunholtz disse que sua firma vendeu apenas alguns castelos, apesar das centenas de milhares de pessoas que examinam as listas no site.

"O tamanho, a proporção, o preço e a quantia necessária para mantê-los eliminam grande parte do mercado", disse ele. "Você se resume aos 2% no topo. Dessas pessoas, a maioria prefere ter um chalé de luxo para esquiar ou uma propriedade com vista para o mar em St.-Tropez."

Ele disse que uma das partes mais difíceis de se vender um castelo é separar as pessoas que não poderiam possuir um. Oferecer um castelo "atrai todas essas conotações de Disney e do rei Arthur que não queremos", disse Braunholtz. "Tenho outros imóveis que poderíamos chamar de castelos, mas eu não chamo porque afastaria os compradores de verdade."

"Não estou dizendo que a palavra 'castelo' é um cálice envenenado, mas dificulta a coisa."

Manter um castelo, antigo ou novo, não é barato. Monique Pignet e seu marido compraram o Château de Moh, do século 15, no vale do Loire, na França, há oito anos por 1,6 milhão de euros (R$ 5,5 milhões hoje). Ele tem oito quartos, oito banheiros, uma adega, várias cozinhas e uma linda vista da região vinícola.

Pignet e seu marido gastaram sete anos e o dobro do valor da compra para reformá-lo.

"Agora queremos ganhar dinheiro com seu aluguel, para mantê-lo", disse ela. "É a única maneira de se ter um castelo, porque hoje em dia você não tem empregados. Quando vive num castelo, precisa de muita gente. Você não pode limpá-lo sozinha --é enorme."

George Appling, presidente e cofundador da Boomcloud 360, uma companhia de tecnologia de áudio, realizou um sonho de infância quando construiu um castelo em McDade, no Texas, a cerca de 55 km de Austin.

O edifício custou cerca de US$ 450 mil para construir, mas ele gasta US$ 40 mil por ano (R$ 124 mil) em manutenção. "Temos um pedreiro em tempo integral lá, sempre fazendo alguma coisa", disse Appling. "É muito caro manter um castelo. Isso não é surpresa, mas é uma desvantagem."

Ele compensa parte dos custos com a Sherwood Forest Faire, uma aldeia medieval e feira renascentista que criou.

Declements, que passou a vida profissional construindo castelos à moda antiga, adverte os potenciais castelães para que escolham suas moradas com sensatez. "Você deve construí-la em uma área com casas de alto valor", disse ele. "Em uma área mais barata, vai ter prejuízo."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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