Assassinato de funcionário dos democratas alimenta teorias da conspiração

Jonah Engel Bromwich

  • Reprodução/ Youtube

    Imagem de Seth Rich de um vídeo publicado no Youtube

    Imagem de Seth Rich de um vídeo publicado no Youtube

O assassinato de um funcionário do Comitê Nacional Democrata em julho do ano passado voltou a receber atenção de veículos da mídia de direita esta semana, quando um investigador particular e antigo colaborador da Fox News disse que havia "indícios tangíveis" de que o funcionário, Seth Rich, havia contatado o WikiLeaks antes de sua morte.

Desde então o investigador tem dado relatos oscilantes e contraditórios para outras organizações da mídia, e a família de Rich foi se aborrecendo cada vez mais, dizendo que a politização de sua morte era "dolorosa" e "debilitante" e pedindo por retratações e desculpas por parte de afiliadas da Fox que promoveram a história do investigador.

O que se sabe sobre o assassinato de Rich?

Seth Conrad Rich, 27, trabalhou para o comitê por pouco mais de um ano. Ele foi atingido por um tiro nas costas em julho perto de sua casa no bairro de Bloomingdale em Washington, D.C.

O assassinato de Rich ainda está sendo investigado pelo Departamento de Polícia Metropolitana de Washington.

A polícia de Washington respondeu ao som de disparos logo no início da manhã de 10 de julho e encontrou Rich, ainda consciente, em um cruzamento no quadrante Noroeste de Washington perto de sua casa. Rich foi levado a um hospital, onde morreu pouco mais de uma hora depois.

Um porta-voz da família de Rich, Brad Bauman, disse que Rich fazia uma longa caminhada depois de voltar de um bar e estava conversando com sua namorada pelo telefone na hora de sua morte.

Ele disse que a família acredita que Rich pode ter sido assassinado durante uma tentativa de assalto; a pulseira de seu relógio estava danificada, mas sua carteira e outros pertences ainda estavam com ele.

Quais são as alegações sendo feitas sobre o assassinato de Rich?

Em uma entrevista de agosto, Julian Assange, fundador do WikiLeaks, falou sobre a morte de Rich, e sugeriu que ele havia compartilhado algum material com o WikiLeaks.

"Os denunciantes fazem um esforço considerável para nos trazer material e com frequência assumem riscos muito significativos", disse Assange em uma entrevista a um canal de TV holandês. "Um deles, de 27 anos, que trabalhava para o Comitê Nacional Democrata, foi assassinado com um tiro nas costas há somente duas semanas, por razões desconhecidas, enquanto andava na rua em Washington".

Pressionado pelo apresentador a ser mais direto, Assange disse: "Estou sugerindo que nossas fontes assumem riscos e ficam preocupados de ver as coisas acontecendo dessa forma".

Ele não quis responder quando lhe perguntaram diretamente se Rich era uma fonte, mas disse que o WikiLeaks estava investigando o que ele chamou de "situação preocupante". Depois, o WikiLeaks ofereceu uma recompensa de US$ 20 mil (mais de R$ 60 mil) por informações sobre o assassinato de Rich.

Em janeiro, funcionários da inteligência americana divulgaram um relatório que mostrava sua crença de que uma unidade da inteligência militar russa havia dado ao WikiLeaks acesso a material roubado do Comitê Nacional Democrata em uma tentativa de influenciar a eleição, algo que Assange havia negado consistentemente.

Os comentários de Assange sobre Rich permitiram que fosse tecida uma narrativa alternativa, na qual Rich seria a fonte dos e-mails vazados. Contudo, não surgiu nenhum indício confiável de que Rich estivesse em contato com o WikiLeaks.

O que aconteceu esta semana?

Na segunda-feira, Rod Wheeler, um detetive particular de Washington contratado pela família de Rich para investigar a morte de seu filho, sugeriu em uma entrevista a uma afiliada da Fox em Washington que havia "indícios tangíveis" de que Rich havia se comunicado com o WikiLeaks antes de sua morte.

Na tarde de terça-feira, a CNN noticiou que Wheeler havia dito em uma entrevista que ele não tinha "nenhum indício" de que Rich havia contatado o WikiLeaks e que ele "só havia descoberto sobre a possível existência de tal indício" através de um repórter da Fox News.

O Departamento de Polícia Metropolitana emitiu um comunicado na terça-feira dizendo que "as afirmações feitas pelo sr. Wheeler são infundadas".

Wheeler, que foi policial em Washington entre 1990 e 1995, repetiu suas alegações em uma entrevista com Sean Hannity da Fox News na terça-feira à noite. Ele disse a Hannity que havia falado com um investigador federal que disse ter visto os autos do processo de Rich.

Mas naquela entrevista Wheeler esclareceu que nunca havia visto esses e-mails diretamente, nem estava disposto a dizer definitivamente a Hannity que Rich havia enviado e-mails ao WikiLeaks, embora tenha concluído que "certamente parece que sim".

"Existe qualquer indício de que ele pode ter ficado decepcionado com o tratamento dado a Bernie Sanders e a injustiça, e com a possibilidade de ter sido armado para colocar Hillary naquela posição e que talvez ele tivesse provas disso?", perguntou Hannity sobre Rich. Wheeler disse que ele não havia encontrado nenhum.

Wheeler, que fez comentários bizarros no ar no passado, não respondeu a e-mails nem retornou telefonemas na quarta-feira solicitando esclarecimentos de sua parte.

E o que a família diz?

A família Rich se arrepende de ter contratado Wheeler e se mostrou contrária aos seus muitos comentários feitos em público.

Bauman, um profissional de comunicação que costuma representar causas democratas e tem trabalhado como porta-voz gratuitamente para a família desde o verão passado, disse na tarde de quarta-feira que a família estava pedindo para que a Fox News e a afiliada da Fox se retratassem quanto aos seus relatos e pedissem desculpas por prejudicar o legado de seu filho.

Bauman disse que os Rich haviam escolhido Wheeler a conselho de Ed Butowsky, um empresário de Dallas e comentarista conservador que se ofereceu para pagar pelos serviços do detetive.

Aaron Rich, irmão de Seth Rich, disse em um e-mail na quarta-feira que Wheeler havia "perdido o crédito como um investigador objetivo" e havia perdido a confiança da família. Ele disse que a politização da morte de seu irmão havia sido "dolorosa" e "debilitante".

"Não entendo por que todos sentem a necessidade de usar a morte dele para seus próprios fins", ele escreveu. "Queremos simplesmente encontrar seus assassinos e viver nosso luto; em vez disso, estamos tendo constantemente que combater mentiras, alegações sem fundamentos e uma estupidez geral para defender o nome e o legado de meu irmão".

E continuou: "Isso só nos impede de seguir em frente em nosso luto e nos distrai de responder à única pergunta que importa: quem matou meu irmão e o filho de meus pais, o Seth?"
 

Tradutor: UOL

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