Após 38 anos, líder de Angola abre mão da presidência. Mas deixará o poder?

Norimitsu Onishi

Em Luanda (Angola)

  • João Silva/The New York Times

    Outdoor mostra o presidente José Eduardo dos Santos, em Luanda, Angola

    Outdoor mostra o presidente José Eduardo dos Santos, em Luanda, Angola

Um outdoor no coração de Luanda, capital de Angola, soa como um alerta para qualquer desafiante, lembrando a todos da tremenda porcentagem de votos conquistados pelo presidente José Eduardo dos Santos na corrida pela liderança de seu partido no ano passado: 99,6%.

Como o segundo chefe de Estado da África que mais tempo permaneceu no cargo, com quase 38 anos no poder, Dos Santos parecia ser um membro do clube de líderes eternos do continente. Com seu poder só se fortalecendo com a idade, parecia que esse lendário sobrevivente certamente morreria no cargo.

A família e os aliados próximos do presidente acumularam grandes fortunas, controlando uma nação que é a maior produtora de petróleo da África. Abrir mão da presidência poderia colocar tudo isso em risco.

Mas, com o começo da campanha para as próximas eleições de Angola, algo surpreendente aconteceu: Dos Santos, 74, cujo rosto aparece no dinheiro do país e na carteira de identidade nacional de cada cidadão, decidiu não concorrer.

Em seu lugar, seu sucessor escolhido a dedo, João Lourenço, o ministro da Defesa popularmente conhecido como "JLo", reuniu partidários em um grande evento na capital.

Dos Santos pode ser a "força do presente", disse o ministro. Mas "estou vendo um cidadão usando uma gravata vermelha", disse Lourenço sobre si mesmo, "que com o apoio de vocês será a força do futuro".

Tais palavras teriam sido impronunciáveis até alguns meses atrás em Angola. Mas hoje, em um raro momento para a África, um ditador cuja imagem se tornou inseparável da imagem de seu país e cujo mandato atravessou gerações, está dizendo que deixará o cargo --voluntariamente.

Para muitos angolanos, é difícil de imaginar uma Angola sem Dos Santos no comando.

"Nosso presidente é onipresente", diz Luaty Beirão, 35, um rapper e crítico do governo que, assim como muitos angolanos, nasceu depois que Dos Santos se tornou presidente. "Ele está em nosso dinheiro. Está em nossas identidades. Está em nossas cabeças. Está em todo lugar".

Dos Santos, conhecido tanto por sua impenetrabilidade quanto por sua longevidade política, não forneceu uma razão pública para deixar o cargo. Mas ele deixará para trás uma panelinha de líderes como o presidente Robert Mugabe do Zimbábue, 93, que está no poder há 37 anos, e o presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo da Guiné Equatorial, 74, que governa há quase 38 anos, superando Dos Santos em apenas algumas semanas.

Lopo do Nascimento, que foi primeiro-ministro e secretário-geral do partido do presidente, o Movimento Popular de Libertação de Angola, ou MPLA, disse que com Angola em paz há mais de uma década, seria o momento certo para uma transição e que ela ocorreria "sem percalços".

Mas com a perspectiva do fim de uma era Dos Santos, muitas pessoas estão imaginando o quão completa será essa transição. Por que Dos Santos, cujo controle sobre todas as instâncias do governo é visto como quase absoluto, decidiu deixar o cargo de presidente mas não o de líder do partido?

João Silva/The New York Times
Outdoor mostra o candidato João Lourenço, em Luanda, Angola

"Será que ele aceitará se retirar?", pergunta Ricardo Soares de Oliveira, especialista em Angola da Universidade de Oxford.

Dos Santos assumiu o cargo em 1979, sendo o segundo presidente de Angola após a independência de Portugal em 1975. Após o fim da guerra civil de quase três décadas em Angola, em 2002, ele presidiu um amplo boom de petróleo que transformou o país em uma das economias de mais rápido crescimento da África.

Mas nos últimos anos correu entre a classe política de Angola boatos de que Dos Santos estava pensando em deixar o cargo por motivos de saúde. No mesmo período, ele procurou consolidar sua base de poder atual --e talvez futura.

"Veja o que tem acontecido, secretamente, com a economia política de Angola", disse Soares. Ele disse ainda que o presidente "passou os últimos três anos construindo com afinco o poder infraestrutural de sua família".

O filho mais velho do presidente, José Filomeno de Sousa dos Santos, 39, foi nomeado diretor do fundo soberano de Angola em 2013. No ano passado, um decreto presidencial tornou sua filha mais velha, Isabel dos Santos, 44, presidente da Sonangol, a onipotente estatal petroleira.

Inicialmente, Dos Santos fez pressão para que seu filho mais velho o sucedesse como presidente, segundo dirigentes do MPLA.

"Mas uma oposição dentro do MPLA o forçou a recuar", diz Marcolino Moco, que atuou como primeiro-ministro de Dos Santos nos anos 1990 mas hoje critica o governo. "Há muitas pessoas no partido com muita experiência".

Lourenço, um veterano do partido que desfruta de fortes ligações com os militares e, diferentemente de alguns de seus pares, não é especialmente conhecido por sua riqueza, foi o candidato da concessão entre as partes. Há uma expectativa geral de que ele seja o próximo presidente, considerando a dominância de seu partido.

"Ele continuará a representar o mesmo grupo que compartilha dos mesmos interesses fundamentais, pessoas que temem uma democracia aberta e que não deixarão escapar o controle sobre a mídia e as riquezas", diz Moco.

Embora Dos Santos não tenha enfrentado nenhuma ameaça ao seu domínio desde o fim da guerra civil, seu governo não demonstrou tolerância para com protestos populares.

Em junho de 2015, o rapper Beirão e 16 outros foram presos por participarem de uma discussão em um clube do livro sobre a obra de Gene Sharp, o americano conhecido por seus textos sobre resistência não-violenta. Acusado de rebelião e conspiração criminosa, eles foram condenados a sentenças de prisão de dois a oito anos e meio, embora eles por fim tenham sido liberados antes.

Desde que foi solto, Beirão --cuja música "Sou um angolano kamikaze e esta é minha missão" se tornou popular entre jovens insatisfeitos-- foi espancado pela polícia durante pequenos comícios antigoverno.

"É difícil para nós colocarmos mais de 30 pessoas nas ruas", disse Beirão. "Então, normalmente, as pessoas com tanto poder não deveriam se preocupar conosco. Para quê? Acho que eles têm medo de que, se deixarem, logo passaremos de 30 para 3 mil. Acho que eles estão muito, muito nervosos".

Especialistas dizem que poderão surgir tensões entre Dos Santos e Lourenço. O destino dos filhos de Dos Santos poderá fornecer uma das primeiras indicações.

A estatal petroleira por muito tempo funcionou como um Estado paralelo sob o controle direto do presidente. Se Isabel dos Santos permanecer no comando da Sonangol depois que seu pai se aposentar, Angola terá dois centros de poder.

"O JLo, independentemente do poder que tiver, será forçado a tirá-la devido à opinião pública", disse Abel Chivukuvuku, um político da oposição, sobre a filha do presidente. "Se ele permitir que ela fique, as pessoas não acreditarão que ele é realmente o presidente".

Por ora, Dos Santos e Lourenço estão passando a imagem de união. Foram instalados em toda Luanda outdoors mostrando os dois homens, alguns deles separadamente e outros juntos.

Há mais de uma década, Dos Santos anunciou que se aposentaria da política. Ele logo mudou de ideia, mas só depois de avaliar as reações ao anúncio para desentocar adversários em potencial.

Desta vez, com a campanha já em andamento e a eleição de 23 de agosto a poucos meses de ser realizada, parece improvável que Dos Santos vá voltar atrás.

Mas há quem não esteja apostando todas suas fichas nisso.

Ao lhe pedirem para fazer uma avaliação das quase quatro décadas de Dos Santos no poder, o ex-primeiro-ministro Nascimento disse, sorrindo: "Acho que isso deveria ser discutido quando ele sair".

Tradutor: UOL

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