China conteve espionagem dos EUA matando informantes da CIA

Mark Mazzetti, Adam Goldman, Michael S. Schmidt e Matt Apuzzo

Em Washington (EUA)

  • Getty Images/iStockphoto

O governo da China desmontou sistematicamente as operações de espionagem da CIA no país a partir de 2010, matando ou prendendo mais de uma dúzia de fontes em dois anos e paralisando a coleta de informações durante os anos seguintes.

Autoridades americanas atuais e passadas descreveram a ruptura do esquema de inteligência como uma das piores em várias décadas. Ela provocou uma correria nos órgãos de inteligência e policiais em Washington para conter seus efeitos, mas os investigadores estavam seriamente divididos sobre a causa. Alguns pareciam convencidos de que um informante da CIA havia traído os EUA. Outros acreditavam que os chineses tinham invadido o sistema secreto que a CIA usava para se comunicar com suas fontes estrangeiras. Anos depois, essa discussão ainda não foi resolvida.

Mas não há desacordos sobre os danos causados. Das últimas semanas de 2010 até o fim de 2012, segundo ex-autoridades dos EUA, os chineses mataram pelo menos 12 fontes da CIA. Segundo três dessas autoridades, uma das pessoas foi morta na frente de seus colegas no pátio de um edifício do governo --uma mensagem para os outros que poderiam estar trabalhando para a agência americana.

Outros ainda foram presos. Ao todo, os chineses mataram ou prenderam de 18 a 20 fontes da CIA na China, segundo duas ex-autoridades dos EUA, efetivamente desmanchando uma rede que levou anos para ser montada.

Pode ser difícil avaliar as consequências de se desbaratar uma operação de espionagem, mas o episódio foi considerado especialmente danoso. O número de agentes americanos perdidos na China, segundo autoridades, se equiparou aos da União Soviética e da Rússia durante as traições de Aldrich Ames e Robert Hanssen, que pertenciam à CIA e ao FBI e divulgaram operações de inteligência a Moscou durante anos.

O episódio, que ainda não tinha sido divulgado, mostra como os chineses tiveram sucesso em perturbar as iniciativas de espionagem dos EUA e roubar segredos anos antes que uma invasão muito divulgada em 2015 deu a Pequim acesso a milhares de registros de pessoal do governo, incluindo contratados pelo serviço de inteligência. A CIA considera espionar a China uma de suas maiores prioridades, mas o amplo aparelho de segurança do país torna excepcionalmente difícil para os serviços de espionagem ocidentais criar fontes lá.

Em um momento em que a CIA tenta descobrir como alguns de seus documentos mais sensíveis vazaram na internet há dois meses pelo WikiLeaks, e o FBI investiga possíveis ligações entre a campanha do presidente Donald Trump e a Rússia, a natureza imprecisa da investigação da China demonstra a dificuldade de conduzir investigações de contraespionagem em serviços sofisticados como os da Rússia e da China.

A CIA e o FBI não quiseram dar declarações.

Os detalhes sobre a investigação foram mantidos em rígido segredo. Dez autoridades americanas atuais e passadas descreveram a investigação sob a condição do anonimato porque não queriam ser identificadas falando sobre a informação.

Os primeiros sinais de problemas surgiram em 2010. Na época, a qualidade da informação da CIA sobre o funcionamento interno do governo chinês era a melhor que teve durante anos, resultado de recrutar fontes bem situadas na burocracia de Pequim, segundo quatro ex-autoridades. Algumas eram cidadãos chineses que a CIA pensava estarem desiludidos com a corrupção no governo chinês.

Mas no final do ano o fluxo de informação começou a secar. No início de 2011, pessoal graduado da agência começou a perceber que havia um problema: os agentes na China, um de seus recursos mais preciosos, estavam desaparecendo.

O FBI e a CIA abriram uma investigação conjunta dirigida por autoridades graduadas de contrainteligência das duas agências. Trabalhando em um escritório secreto no norte da Virgínia, eles começaram a analisar cada operação em andamento em Pequim. Uma ex-autoridade dos EUA disse que a operação foi apelidada de Honey Badger [ratel, uma espécie de texugo].

Conforme as fontes desapareciam, a operação assumiu urgência crescente. Quase todos os funcionários da embaixada dos EUA foram verificados, por mais altos que fossem seus cargos. Alguns investigadores acreditavam que os chineses tivessem desvendado o método criptografado que a CIA usava para se comunicar com seus agentes. Outros suspeitavam que houvesse um traidor na CIA, teoria que diretores da agência inicialmente relutaram a adotar --e na qual alguns nas duas agências ainda não acreditam.

Suas discussões foram pontuadas por telefonemas macabros --"perdemos mais um"-- e perguntas urgentes do governo Obama sobre por que a inteligência sobre os chineses estava mais lenta.

A caçada ao informante acabou se concentrando em um ex-agente que tinha trabalhado na divisão da CIA que supervisionava a China, acreditando que ele seria provavelmente o responsável pelas revelações paralisantes. Mas os esforços para reunir provas suficientes para prendê-lo falharam e hoje ele vive em outro país asiático, segundo autoridades atuais e passadas.

Havia bons motivos para se suspeitar de alguém de dentro, dizem antigas autoridades. Mais ou menos naquela época, espiões chineses comprometeram a vigilância da Agência de Segurança Nacional (ASN) em Taiwan --uma ilha que Pequim reivindica como parte da China--, infiltrando inteligência desse país, que é parceiro dos EUA, segundo duas ex-autoridades. E a CIA descobriu agentes chineses no canal de contratações da agência, segundo autoridades e documentos judiciais.

Mas o principal caçador de espiões da CIA, Mark Kelton, resistiu à teoria do informante, pelo menos inicialmente, dizem ex-autoridades. Kelton era amigo próximo de Brian J. Kelley, um oficial da CIA que nos anos 1990 se tornou erroneamente suspeito pelo FBI de ser um agente russo. O verdadeiro traidor, afinal, era Hanssen. Kelton muitas vezes mencionou os maus tratos a Kelley em reuniões durante o episódio da China, segundo ex-colegas, e disse que ele não acusaria alguém sem provas muito concretas.

Os que recusaram a teoria do informante atribuíram as perdas às más técnicas de espionagem dos EUA, em uma época em que os chineses estavam se aperfeiçoando em monitorar as atividades americanas no país. Alguns agentes do FBI se convenceram de que os informantes da CIA em Pequim muitas vezes viajavam pelas mesmas rotas para os mesmos pontos de encontro, o que teria ajudado a vasta rede de vigilância da China a identificar os espiões.

Algumas autoridades se reuniam com suas fontes em um restaurante onde agentes chineses tinham plantado equipamento de escuta, dizem ex-autoridades, e até os garçons trabalhavam para a inteligência chinesa.

Esse descuido, somado à possibilidade de que os chineses tivessem invadido o canal de comunicações secreto, explicaria muitas, senão todas, as mortes e os desaparecimentos, segundo algumas autoridades. Alguns membros da agência, especialmente os que tinham ajudado a construir a rede de espionagem, resistiram a essa teoria e acreditavam que foram apanhados no meio de uma guerra com a CIA.

Ainda assim, os chineses identificaram cada vez mais espiões da agência, continuando em 2011 e 2012. Enquanto os investigadores estreitavam a lista de suspeitos com acesso à informação, eles começaram a se concentrar em um sino-americano que tinha deixado a CIA pouco antes de começarem as perdas da agência. Alguns investigadores acreditavam que ele ficara decepcionado e começara a espionar para a China. Uma autoridade disse que o homem tinha acesso às identidades dos informantes da CIA e se encaixava em todos os indicadores em uma matriz usada para identificar ameaças de espionagem.

Depois de deixar a CIA, o homem decidiu ficar na Ásia com sua família e seguir uma oportunidade de negócios, que algumas autoridades suspeitam que foi arranjada pelas autoridades chinesas.

As autoridades disseram que o FBI e a CIA atraíram o homem de volta para os EUA aproximadamente em 2012, com a isca de um possível contrato com a agência, acordo comum entre ex-membros do órgão. Agentes interrogaram o homem, perguntando por que ele havia decidido ficar na Ásia, preocupados que ele possuísse muitos segredos que seriam valiosos para os chineses. Não está claro se os agentes confrontaram o homem sobre se ele tinha espionado para a China.

O homem defendeu seus motivos para viver na Ásia e não admitiu qualquer erro, disse uma autoridade. Depois retornou à Ásia.

Em 2013, o FBI e a CIA concluíram que o sucesso da China em identificar agentes da CIA tinha sido reduzido --não está claro como--, mas o prejuízo tinha sido feito.

A CIA tentou reconstruir sua rede de espiões na China, disseram autoridades, uma iniciativa cara e demorada que foi chefiada numa ocasião pelo ex-chefe da divisão do Extremo Oriente. Um ex-oficial da inteligência disse que o ex-chefe estava especialmente aborrecido porque tinha trabalhado com o ex-informante e recrutado alguns espiões na China que afinal foram executados.

A China tem sido especialmente agressiva em sua espionagem nos últimos anos, além da invasão dos registros do Escritório de Administração de Pessoal em 2015, disseram autoridades americanas. No ano passado, um empregado do FBI se declarou culpado de agir como agente chinês durante anos, passando informação tecnológica delicada para Pequim em troca de dinheiro, belos quartos de hotel durante as viagens e prostitutas.

Em março, promotores anunciaram a prisão de uma antiga funcionária do Departamento de Estado, Candace Marie Claiborne, acusada de mentir aos investigadores sobre seus contatos com autoridades chinesas. Segundo a queixa criminal contra Claiborne, que se declarou inocente, os agentes chineses depositaram dinheiro em sua conta e a cobriram de presentes, que incluíram um iPhone, um laptop e a matrícula em uma escola de moda chinesa. Além disso, segundo a queixa, ela recebeu um apartamento totalmente mobiliado e uma mesada.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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