Contra miséria, milhares perfuram solo em busca de petróleo em Mianmar

Adam Dean

Em Nga Naung Mone (Mianmar)

  • ADAM DEAN/NYT

    Campo de extração de petróleo próximo a Minhla, em Mianmar

    Campo de extração de petróleo próximo a Minhla, em Mianmar

Assim que amanhece, Win Myint Oo, ainda sonolento e usando somente um longyi, tradicional sarongue birmanês, dá a partida em um gerador e se agacha em uma plataforma de bambu suspensa sob uma torre de perfuração improvisada de 12 metros, que consiste em três varas de aço e escoras de bambu amarradas com corda.

O gerador move um guincho que desce um cano de plástico azul 450 metros para dentro da terra, e depois o puxa de volta cheio de petróleo bruto.

Assim como outros prospectores que tentam extrair os sedimentos do maior campo de petróleo não regulamentado de Mianmar, Win Myint Oo, 24, veio com um sonho de encontrar petróleo e fazer fortuna.

"Espero que eu tenha a chance de virar um chefão", ele disse. "Se eu der sorte, quero abrir uma concessionária de carros. Adoro carros. Talvez algum dia eu me torne campeão de Fórmula 1".

Mas a realidade é outra. Com a concorrência de milhares de outros prospectores independentes aqui, ele terá sorte se conseguir coletar um barril por dia, ganhando pouco mais que US$50 (R$163).

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Homem trabalha em campo de extração de petróleo em Minhla

Isso é um dinheiro considerável na parte rural de Mianmar, onde a maioria dos agricultores ganha uma renda de subsistência. Mas a maioria dos prospectores aqui em Nga Naung Mone poupou durante anos ou emprestou dinheiro de familiares para conseguir juntar a quantia de custo inicial de instalação, cerca de US$7.300 (quase R$24 mil), para comprar um terreno de um agricultor, adquirir equipamentos básicos e contratar um perfurador.

"Se eles não encontram petróleo, perdem dinheiro", diz Khin Maung Myint, um supervisor da Sein Tagon Oil Co., que compra petróleo dos perfuradores e o envia de caminhão até uma refinaria. "Não temos a tecnologia para ver onde o petróleo está, que é o problema. Então as pessoas simplesmente vão e cavam".

"Se você cava e dá sorte", ele disse, "é destino".

Além disso, desde que prospectores encontraram petróleo aqui pela primeira vez cinco anos atrás, o campo ficou superlotado e suas reservas foram exauridas.

Nga Naung Mone é um dos três campos de petróleo perto da cidade de Minhla, na região centro-sul de Mianmar, de longe o maior de todos. Os demais, Dagine e Da Hat Pin, são muito menores e menos desenvolvidos.

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Homem trabalha de noite para arrumar gerador utilizado na extração de óleo

Agora há milhares de pessoas vivendo e trabalhando aqui, e os campos de petróleo estão lotados de torres de perfuração, muitas a somente 3 metros de distância uma da outra.

Win Ko, 44, que está em Nga Naung Mone há quatro anos e é dono de mais de 50 poços, diz que alguns anos atrás ele conseguia bombear petróleo 24 horas por dia, extraindo até 15 barris por poço. Hoje, ele diz, essa média é de menos de meio barril por poço por dia.

O trabalho começa cedo para evitar o calor tropical, e logo que amanhece começa a se ouvir o zunido dos geradores por todos os lados.

A maioria dos perfuradores armazena a coleta do dia em barris. Aqueles que têm várias torres de perfuração usam buracos forrados com lona encerada, onde conseguem guardar mais petróleo.

Quando o Sol começa a se pôr, sombreando as perfuratrizes, cerca de 100 picapes, tratores puxando carretas e até mesmo carroças de boi percorrem o labirinto de poços carregando tambores velhos e amassados de petróleo até as estações de coleta de Sein Tagon.

Na época de estiagem, quando as temperaturas se elevam até 43º Celsius, a maioria dos prospectores independentes se recolhe em suas cabanas por volta das 9h para se abrigar do Sol e descansa até o final da tarde, quando está fresco o suficiente para voltar a trabalhar.

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Homem mistura óleo em um poço, em Minhla, Mianmar

O dia de trabalho termina por volta das 18h30. Alguns perfuradores tomam banho e começam a preparar o jantar do lado de fora de suas cabanas, enquanto outros jogam chinlone, um jogo birmanês parecido com vôlei.

Cerca de 3 mil pessoas vivem em Nga Naung Mone. A maioria delas tem um ou dois poços e vive em cabanas de bambu perto deles, alguns junto com suas mulheres e filhos.

Um pequeno vilarejo surgiu ao lado do campo de petróleo para abastecê-los.

À noite, trabalhadores e suas famílias passeiam pela estrada, olhando as lojas em barracões de bambu que vendem produtos e equipamentos para perfuração. Há um punhado de restaurantes e casas de chá, algumas delas exibindo partidas ao vivo de futebol.

A maioria dos prospectores independentes trabalha sete dias por semana e descansa somente durante festivais budistas importantes. Crianças que tenham idade suficiente frequentam a escola em vilarejos próximos.

Mulheres e meninas também trabalham, usando panos para enxugar petróleo derramado e depois os torcendo dentro de um balde. Um balde cheio é vendido por cerca de US$4,50 (quase R$15).

A maioria dos perfuradores calcula que Nga Naung Mone tenha no máximo dois anos antes de secar, quando eles pegarão suas torres de perfuração e seus sonhos e seguirão para outro lugar.

Win Ko já está sondando outro campo de petróleo, em Myaing, algumas centenas de quilômetros ao norte, onde ele já é dono de seis poços.

Tradutor: UOL

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