Viagem de Trump tem aspecto inédito para líderes dos EUA: a família como protagonista

Michael D. Shear

Em Jerusalém

  • REUTERS/Jonathan Ernst

    Donald Trump e a mulher, Melania, à frente de Jared Kushner, Ivanka Trump e o casal Benjamin e Sara Netanyahu durante visita ao museu do Holocausto, em Jerusalém (Israel)

    Donald Trump e a mulher, Melania, à frente de Jared Kushner, Ivanka Trump e o casal Benjamin e Sara Netanyahu durante visita ao museu do Holocausto, em Jerusalém (Israel)

Em visita a um hospital infantil israelense, Melania Trump distribuiu mochilas de lona azuis cheias de livros do Dr. Seuss e estampadas com uma foto da Casa Branca. Em um fórum realizado na Arábia Saudita sobre o combate ao extremismo, Ivanka Trump substituiu seu pai quando ele se mostrou cansado. E em Israel, Jared Kushner ficou ao lado de seu sogro enquanto o presidente Donald Trump pedia por paz no Oriente Médio.

A primeira incursão do presidente no exterior está oferecendo ao resto do mundo sua primeira espiada real na nova estrutura de governo dos Estados Unidos, uma Casa Branca que logo se tornou um negócio de família, prática comum na Arábia Saudita, mas rara nos Estados Unidos.

Durante a viagem de nove dias do presidente por vários países que teve início na sexta-feira (19), o mundo está descobrindo—e os americanos estão sendo lembrados sobre—a significativa sobreposição entre as relações de sangue e os conselheiros políticos na atual Casa Branca. Para Trump, são quase intercambiáveis.

"É extremamente raro que um presidente leve membros da família, além do cônjuge, e que peça para eles assumirem um papel público em uma viagem ao exterior", diz Carl Sferrazza Anthony, historiador da Biblioteca Nacional das Primeiras-Damas.

Anthony diz que era comum os presidentes levarem seus filhos ou outros parentes em passeios ao exterior. Mas, ele acrescenta, "no que diz respeito aos Trumps assumirem papeis públicos, isto é algo sem precedentes".

A filha do presidente, Ivanka e seu marido, Kushner, têm gabinetes na Ala Oeste e são assessores sênior da Casa Branca. O casal supostamente recebeu uma autorização rabínica para viajar com o presidente no Air Force One na sexta-feira, para que eles pudessem estar ao seu lado. (Como judeus ortodoxos, eles não deveriam viajar em um veículo no sabá, que começa na sexta-feira ao pôr do sol e continua até o pôr do sol no sábado).

Melania Trump, a reticente e reservada primeira-dama dos Estados Unidos, praticamente fugiu dos holofotes desde que seu marido foi eleito. No entanto, em outros países ela tem se disposto a exercer o papel de embaixadora global, aparecendo um pouco enquanto acompanha seu marido. Aonde quer que vá, ela chama atenção.

Quando ela chegou a Israel na segunda-feira (22), um microfone captou um pouco de bajulação vinda da mulher do primeiro-ministro. "Falo sobre ela em todo lugar", disse Sara Netanyahu a Donald Trump depois que o Air Force One aterrissou.

A abordagem da primeira-família em sua maior parte atraiu uma cobertura positiva no exterior desde que os Trumps saíram de Washington, especialmente na Arábia Saudita, onde a extensa família real do país equivale à sua elite governante.

Mas nem toda a atenção recebida foi generosa. Na segunda-feira, as câmeras de TV na cerimônia de chegada ao aeroporto de Tel Aviv captaram o que parecia ser uma Melania Trump irritada, dispensando com um tapa a mão de seu marido que tentava segurar a sua.

O vídeo de Melania Trump recusando com um tapa a mão do presidente logo viralizou no Twitter e foi postado no site do "Haaretz", um jornal israelense, com a seguinte manchete: "Isso foi constrangedor".

Um porta-voz de Melania Trump não respondeu a um e-mail solicitando comentários sobre o vídeo.

Na Arábia Saudita, Ivanka Trump representou seu pai em uma mesa-redonda com empreendedoras mulheres e a princesa Reema bint Bandar, filha do príncipe Bandar bin Sultan, o antigo embaixador saudita para os Estados Unidos.

Após a sessão, a princesa disse a um repórter que Ivanka Trump é vista no país como um símbolo de emancipação, em parte porque muitas pessoas conseguem se identificar facilmente com o fato de que ela é parte de uma poderosa organização familiar.

No domingo à noite, quando o presidente faltou a um fórum do Twitter sobre o combate ao extremismo, Ivanka Trump o substituiu, subindo ao palco para cumprimentar centenas de jovens membros da plateia e para explicar os objetivos do evento.

"Afinal, essa geração mais nova de todo o mundo árabe é uma geração que pode construir tolerância, esperança e paz", ela disse. "Foi nisso que focamos hoje."

Um assistente da Casa Branca explicou mais tarde que a agenda de Donald Trump havia se estendido muito naquele dia e que ele estava exausto. O comentário foi alvo de zombaria no Twitter para os críticos do presidente, que observaram que a viagem de nove dias havia começado só há dois dias.

Na Arábia Saudita, era impossível ignorar as comparações entre Kushner, 36, e Mohammed bin Salman, segundo príncipe-herdeiro da Arábia Saudita, 31. Ambos representam uma geração mais jovem, que estão no poder em seus países em grande parte por causa de suas ligações familiares, ainda que tenham currículos extensos.

Kushner atualizou os repórteres, ajudou a negociar acordos com os sauditas para armas e negócios em um total de quase US$ 400 bilhões (R$ 1,31 trilhão), e é um dos assessores mais próximos do presidente para política externa e diplomacia. Ao longo do final de semana, Kushner compareceu a quase todas as reuniões do presidente com a família real saudita.

"O presidente nos pediu para planejar uma viagem que ajudasse a unir o mundo contra a intolerância e o terrorismo e fizemos grandes progressos na direção dessa meta na Arábia Saudita", disse Kushner em uma rara declaração não oficial pouco antes de o presidente partir de Riad para sua parada em Jerusalém.

Na segunda-feira, Kushner acompanhou Trump nas horas que passou junto com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o presidente de Israel, Reuven Rivlin, discutindo como acelerar os esforços de paz. Na terça-feira, Kushner estará com seu sogro quando ele se encontrar com Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina.

Todos os três membros da família Trump se juntaram a Donald Trump na segunda-feira enquanto ele se tornava o primeiro presidente a fazer a peregrinação até o Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado de orações do judaísmo. O mesmo tanto de câmeras que tentavam capturar o momento de reflexão de Trump apontavam para sua mulher e filha, que estavam fazendo o mesmo em uma parte reservada somente para as mulheres.

Os sites de notícias israelenses correram para mostrar fotos de Melania Trump, vestida com um conjunto de saia e blazer branco, parada solenemente junto ao muro. E câmeras de TV capturaram o que parecia ser uma emocionada Ivanka Trump, que se converteu ao judaísmo, enxugando uma lágrima depois de tocar gentilmente o muro com sua palma esquerda.

Mais tarde, no hospital israelense, Melania Trump se juntou a Sara Netanyahu e conversou com as crianças, além de distribuir as mochilas com livros.

"Vocês podem fazer muitas atividades, colorir, ler e escrever cartas", Melania Trump disse às crianças israelenses, enquanto posava para fotos com elas.

Era o tipo de momento criado para a TV que é tradicional para as primeiras-damas e raro para Melania Trump, que passou a maior parte dos últimos meses em Nova York, onde o filho do casal, Barron, concluía o ano letivo. Ela não assumiu o perfil de destaque que algumas das primeiras-damas adotaram. Ela ainda não organizou, por exemplo, um jantar de Estado oficial na Casa Branca.

Como mulher do novo presidente americano, Melania Trump é uma fonte de fascinação no exterior e também oferece um possível novo caminho para políticos estrangeiros que estão procurando formas de se conectar com seu marido. Uma agência de notícias israelense divulgou que Sara Netanyahu falou com Melania Trump sobre dois soldados israelenses desaparecidos e lhe entregou a carta da mãe de um deles.

Momentos depois de descer do Air Force One em Riad na sexta-feira, comentaristas na Arábia Saudita notaram o conjunto preto esvoaçante e o largo cinto dourado que Melania Trump usava. Um jornal saudita considerou o traje "elegante e conservador" porque lembrava a tradicional abaya, a túnica que muitas mulheres sauditas usam. No Twitter, mulheres sauditas postaram fotos de si mesmas usando abayas que pareciam com o conjunto de Melania.

Na segunda-feira, enquanto caminhava no tapete vermelho junto com Benjamin Netanyahu e suas mulheres durante uma cerimônia de chegada ao aeroporto em Tel Aviv, Donald Trump falou diversas vezes com orgulho de Kushner e Ivanka Trump enquanto o presidente cumprimentava membros do gabinete israelense.

O presidente disse a um deles que de uma coisa ele tinha certeza: "Você vai gostar de Ivanka".

*Com reportagem de Austin Ramzy (Nova York)

Tradutor: UOL

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